O ponto de inflexão está próximo?

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Algumas vezes, o jornal satírico "The Onion" vai tão ao ponto que não resisto à tentação de citá-lo. Considere este artigo falso de junho de 2005 sobre o vício dos EUA em exportações chinesas:

FENGHUA, China - Chen Hsien, funcionário da Fenghua Ningbo Plastic Works Ltd., fábrica de plástico que produz itens para os mercados ocidentais, expressou sua descrença na segunda-feira sobre a "imensa quantidade (de lixo) que os americanos compram. Frequentemente, quando recebemos uma nova encomenda de, digamos, 'picadores de repolho', eu digo para mim mesmo: 'Não é possível que alguém jamais compre isso'... Um mês depois, recebemos uma encomenda para o mesmo produto, mas três vezes a quantidade. Como pode alguém ter necessidade de tamanha inutilidade? Ouvi dizer que os americanos podem comprar o que quiserem e acredito, a julgar pelas coisas que produzi para eles", disse Chen. "E também ouvi dizer que quando não querem mais alguma coisa, simplesmente jogam-na fora. Tanto desperdício."

Hoje, vamos sair dos limites normais de análise de nossa crise econômica e fazer uma pergunta radical: e se a crise de 2008 representa algo muito mais fundamental do que uma profunda recessão? E se estiver nos dizendo que todo o modelo de crescimento que criamos nos últimos 50 anos simplesmente é insustentável econômica e ecologicamente e que 2008 foi quando atingimos um muro - quando tanto a Mãe Natureza quanto o mercado disseram: "Chega."

Nós criamos um sistema de crescimento que dependia de construirmos cada vez mais lojas para vender mais coisas feitas em cada vez mais fábricas na China, movidas por cada vez mais carvão que causaria cada vez mais mudança climática, mas daria à China cada vez mais dólares para comprar cada vez mais títulos do Tesouro americano para que os EUA pudessem ter cada vez mais dinheiro para construir cada vez mais lojas e vender mais coisas, empregando cada vez mais chineses...

Não podemos fazer mais isso.

"Criamos uma forma de aumentar os padrões de vida que não podemos passar para nossos filhos", disse Joe Romm, físico e especialista em clima que escreve o blog indispensável climateprogress.org. Nós estamos enriquecendo a custa de todos nossos recursos naturais - água, hidrocarbonetos, florestas, rios, peixes e terra arável - sem gerar fluxos renováveis.

"Você pode extrair uma onda de riqueza desse comportamento explorador", acrescentou Romm. "Mas vai desmoronar, a não ser que os adultos digam: 'Este é um esquema de pirâmide. Não geramos verdadeira riqueza e estamos destruindo o clima habitável...' a verdadeira riqueza é algo que você pode passar e os outros podem aproveitar."

Mais de um bilhão de pessoas hoje sofrem de falta de água; o desmatamento nos trópicos destrói uma área do tamanho da Grécia por ano - mais de 10 milhões de alqueires; mais da metade das reservas de peixes do mundo estão excessivamente exploradas ou atingiram seu limite.

"Assim como alguns economistas nos advertiram que estávamos vivendo além de nossos meios e tirando mais do que temos de nossos recursos financeiros, os cientistas estão nos advertindo que estamos vivendo além de nosso meio ecológico e tirando mais do que temos de nossos recursos naturais", argumenta Glenn Prickett, vice-presidente da Conservation International. Entretanto, ele advertiu: "A Mãe Natureza não faz planos de resgate."

Um dos que vêm me alertando disso há muito tempo é Paul Gilding, especialista em meio-ambiente australiano. Ele tem um nome para este momento - quando tanto a Mãe Natureza quanto o Pai Ganância atingiram o mesmo muro - "A Grande Ruptura".

"Estamos pegando um sistema que está operando além de sua capacidade e o forçando a ir mais rápido e mais forte", escreveu-me. "Não importa o quão maravilhoso seja o sistema, as leis da física e da biologia ainda se aplicam". Precisamos de crescimento, mas precisamos crescer de um jeito diferente. Para começar, as economias precisam fazer uma transição para o conceito "líquido zero", onde os prédios, carros, fábricas e casas são desenhados não apenas para gerar tanto energia quanto usam, mas para reciclar infinitamente em quantas partes forem possíveis. Vamos crescer gerando fluxos em vez de pilhando mais os estoques.

Gilding diz que de fato é otimista. Eu também. As pessoas já estão usando essa crise para reorientar as economias. Alemanha, Reino Unido, China e EUA usaram os projetos de estímulo para fazer novos investimentos em energia limpa. O novo paradigma nacional da Coreia do Sul para o desenvolvimento é chamado: "Baixo carbono, crescimento verde". Quem sabia? As pessoas estão entendendo que precisamos de mudanças - e estamos vendo os primeiros movimentos de crescimento em formas mais inteligentes, eficientes e responsáveis.

Enquanto isso, diz Gilding: "Quando olharmos para trás, 2008 será um ano enorme na história humana. Nossos filhos e netos vão nos perguntar: 'Como era? O que você estava fazendo quando começou a desmoronar? O que você pensou? O que você fez?'" Frequentemente, no meio de algo extraordinário, não vemos sua importância. Mas para mim não tem dúvida: 2008 será o marcador -o ano do início da "Grande Ruptura".

Tradução: Deborah Weinberg

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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