Estamos sozinhos em casa?

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Encontrei-me com um amigo empresário indiano na semana passada e ele me disse algo que realmente fez sentido para mim: "Esta é a primeira vez que visitei os EUA que senti que vocês estão agindo como uma democracia imatura".

Você sabe o que ele quis dizer: estamos em uma crise financeira do tipo que acontece uma a cada 100 anos e ainda assim mergulhamos em uma política pior do que de costume. Não parece haver adultos no topo -ninguém está agindo com uma grandeza maior do que o momento, ninguém está sendo impelido por algo mais profundo do que o último ciclo de notícias. Em vez disso, o Congresso está criando impostos punitivos da noite para o dia, como uma república de bananas, nosso presidente está enrolado com piadas no Jay Leno comparando suas habilidades de boliche com um paraolímpico, e o partido da oposição comportando-se como se sua única prioridade fosse debater a popularidade do presidente Barack Obama.

Eu vi Eric Cantor, líder republicano da Câmara, na CNBC noutro dia, e a entrevista consistia dele tentando explorar a situação da AIG para ganho partidário sem nem um pensamento construtivo. Eu fiquei ali olhando para ele e pensando: "O senhor não tem filhos? O senhor não tem uma pensão com a qual se preocupar? O senhor mora em um condomínio fechado onde todos os bancos ficarão bem, mesmo se nossos maiores bancos caírem? O senhor pensa que seu partido automaticamente ganha se o país perder? O que está pensando?"

Se o senhor quiser garantir que os EUA se tornarão uma nação medíocre, então continue malhando cada figura pública que lute para encontrar uma forma de sair dessa crise e que tropece uma vez -como fez o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, ou o CEO da AIG, Ed Liddy, que aceitou o cargo ganhando US$ 1 por ano - e assim garantirá que nenhuma pessoa capaz entrará para o governo. Além disso, também vai fazer com que todo banco que pegou dinheiro público tente se livrar dele o mais rápido possível, para não ser avaliado, apesar de isso enfraquecer seu balanço e deixá-lo menos capaz de emprestar dinheiro. E garantirá que nunca vamos sair dessa crise bancária, porque a solução depende de conseguir fundos privados para se aliarem ao governo para comprar títulos tóxicos -e os gerentes de fundos estão ficando aterrorizados de colaborar com o governo.

Obama perdeu uma enorme oportunidade de ensinar com a AIG. Aqueles bônus foram um absurdo. A ira do público é justificada. Mas em vez de assoprar essas brasas e deixar o Congresso entrar em conflito, o presidente deveria ter dito: "Cuidarei disso."

Ele deveria ter entrado em cadeia nacional de televisão e tido uma conversa com o país, há muito devida. Nesta conversa, explicaria exatamente como é profunda a crise na qual estamos, exatamente quanto sacrifício todos teremos que fazer para sair dela e pediria aos corretores da AIG -e todo mundo que, em nossa pressa de sanar nosso sistema bancário, possa ter recebido bônus que não mereciam- e dizer a eles que o seu presidente está pedindo que devolvam seus bônus "pelo bem do país".

Se Obama tivesse dado aos corretores da AIG uma chance de se provarem, ou uma missão nacional maior à qual se unirem, aposto que teríamos recebido a maior parte de nosso dinheiro de volta voluntariamente. Inspirar conduta tem muito mais impacto do que coagi-la. E teria elevado o presidente aonde ele pertence -acima da balbúrdia irada do Congresso.

"Não há nada mais poderoso do que um líder que inspira, que desperta um comportamento de princípios, em torno de uma grande causa", disse Dov Seidman, CEO da LRN, que ajuda empresas a construírem culturas éticas e autor do livro "How" ("Como"). O que torna uma empresa ou um governo "sustentável", acrescentou, não é criar regras mais coercivas e regulamentações para controlar comportamentos. "É quando seus funcionários ou cidadãos são levados por valores e princípios a fazerem as coisas certas, independentemente da dificuldade da situação", disse Seidman. "A lei diz o que você pode fazer. Os valores o inspiram a fazer o que deve. É o papel de um líder nos inspirar nesses valores."

Neste instante, temos uma ausência de liderança que nos inspire. Dos executivos, ouvimos que as instituições são grandes demais para falir -independentemente de sua irresponsabilidade. Dos banqueiros, ouvimos sobre contratos sagrados demais para serem rompidos -mesmo que inapropriados. E, de nossas imaturas autoridades eleitas, ouvimos que tudo é "culpa do outro". Nunca tinha conversado com tantas pessoas em uma única semana que me disseram: "Sabe, ouvi o noticiário e fiquei realmente deprimido."

Bem, a ajuda talvez esteja chegando: um dos motivos para termos sido desviados pela questão dos bônus é porque a grande questão -a verdadeira questão- o plano amplo do presidente para remover os títulos tóxicos de nossos bancos em crise, chave para a nossa recuperação da economia, demorou a sair. Então, todo o tipo de questões menores e palhaços cresceram em importância e apenas confundiram as pessoas no vácuo. Com sorte, o plano será revelado na segunda-feira (23/3) e, com sorte, o presidente vai unir o país por trás dele e, com sorte, os congressistas que terão que aprová-lo vão se lembrar que não é hora para a política de sempre -e que nosso país, infelizmente, não é grande demais para fracassar. Com sorte...

Tradução: Deborah Weinberg

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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