Segredos de um especialista em opinião pública

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Stan Greenberg, um dos especialistas em opinião pública mais experientes dos Estados Unidos, resume a lição chave que aprendeu exercendo a função para Bill Clinton, Nelson Mandela, Ehud Barak e Tony Blair: "Líderes ousados em tempos turbulentos sempre sofrem pelo menos um fracasso".

Eles nunca chegam e proporcionam a escala de progresso e mudança que prometem - não por serem cínicos, mas porque os eventos conspiram contra eles e encontram centros de poder concorrentes. O que distingue os melhores líderes, ele disse, é que aprendem com seus fracassos, realizam ajustes, persistem e têm sucesso.

O presidente Barack Obama ainda não fracassou. Ele está apenas começando. E muitas, muitas pessoas, em casa e no exterior, estão torcendo pelo seu sucesso. Mas ele certamente está navegando em tempos turbulentos. Logo, quando Greenberg telefonou para compartilhar as lições de seu novo livro - "Dispatches from the War Room" - um relato de dentro a respeito de como os líderes mundiais para os quais ele trabalhou lidaram com seus fracassos - eu pensei: "Estas lições podem ser muito úteis no momento".

Greenberg começa por Bill Clinton. Uma de suas lembranças mais vívidas foi tentar julgar como os eleitores reagiriam à quebra da promessa de Clinton de redução dos impostos para a classe média, logo após sua eleição em 1992. Eles reuniram grupos focais em Nova Jersey. O que chamou mais sua atenção, disse Greenberg, foi que estes eleitores "simplesmente não acreditavam que qualquer político reduziria seus impostos". Não era como estavam julgando Clinton.

"Eles não se importavam com as promessas específicas dele", disse Greenberg. "Eles queriam que o novo presidente atuasse em prol dos interesses econômicos de longo prazo do país. Eles queriam assegurar que todos participassem da solução, não como nos anos Reagan, quando os ricos não pagavam sua parte justa. E queriam saber que o presidente não perderia seu instinto de zelar pelas pessoas comuns."

Lição: "Não seja literal demais a respeito das promessas de campanha", disse Greenberg. "Há bastante amplitude para se governar caso as pessoas achem que você está buscando os interesses de longo prazo do país e que está trabalhando em prol delas".

Tony Blair fracassou em relação à identidade central do Novo Trabalhismo como partido. O Partido Trabalhista esteve fora do poder por 18 anos. Ele voltou graças à habilidade de Blair de assegurar aos eleitores que podiam confiar que os trabalhistas seriam fiscalmente prudentes e, simultaneamente, reformariam as escolas e hospitais públicos decrépitos do Reino Unido.

Na verdade, Blair teve que cuidar disso de forma linear - primeiro consertar a economia e depois os hospitais e escolas. Mas ele deixou implícito que faria tudo isso simultaneamente. Quando, após três anos de seu governo, a falta de novos investimentos ficou óbvia - cristalizada pela história de uma paciente com câncer que não pôde ser operada quando estava marcado e que, quando conseguiu, o câncer já estava em um estágio inoperável- Blair sofreu uma perda de confiança. "Blair e o Novo Trabalhismo ficaram para sempre associados a serem mais propaganda do que realidade", disse Greenberg.

Lição: Seja honesto com a população desde cedo ao enfrentar desafios imensos. Ela pode não cobrar uma promessa de campanha - se você apresentar a ela desde cedo as dificuldades e quanto tempo levará para ver algum progresso.

Ehud Barak se tornou primeiro-ministro de Israel em 1999 e um pilar de sua campanha foi a de que Jerusalém deve permanecer a capital eterna, indivisível, de Israel. Mas, em Camp David com Clinton, em 2000, Barak ofereceu aos palestinos uma divisão de Jerusalém. O que foi mais notável, disse Greenberg, foi quão prontamente o público israelense aceitou a mudança.

"Uma posição que seis meses atrás estava completamente fora de questão - a divisão de Jerusalém- agora era considerada", disse Greenberg. O tabu contra até mesmo insinuar a divisão de Jerusalém foi quebrado, com até mesmo os eleitores do Likud pesquisados por Greenberg começando a perguntar: "Por que quereríamos manter estes bairros palestinos?" O saber convencional simplesmente sucumbiu diante da lógica.

Lição: "Nada", disse Greenberg, "está fora da mesa para um líder que deseja fazer algo ousado" no interesse do país.

Finalmente, Nelson Mandela. Quatro anos após se tornar o presidente da África do Sul, em 1994, "as pessoas ficaram desmoralizadas com a falta de mudanças e sentiam que o Congresso Nacional Africano (CNA) tinha traído sua promessa", disse Greenberg. "Ele fracassou em proporcionar moradias e empregos, mas proporcionou muita corrupção e corria o risco de perder sua autoridade moral."

Aquilo era algo difícil de engolir pelos líderes do movimento de libertação, mas os cidadãos humildes queriam que seus líderes agora distantes reconhecessem suas dificuldades. Lição: Mandela foi humilde o bastante para dizer que não promoveu mudanças suficientes - que até ele estava decepcionado - sem ameaçar o direito do CNA de governar. "Ele começou a contar uma história crível que explicava a lentidão dos avanços, apontou as áreas de progresso e permitiu que as pessoas voltassem a ter esperança em futuras mudanças", disse Greenberg.

A lição principal para os presidentes? Não se pode ter medo de ser honesto ao descrever grandes problemas, ousado na apresentação de grandes soluções, humilde ao lidar com grandes erros, modesto para reescrever sua história ou de ser corajoso para dizer o que antes não podia ser dito.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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