A grande e ousada aposta de Obama

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Enquanto fazia campanha para a presidência, em 1932, no meio da Grande Depressão, Franklin Roosevelt fez um discurso de formatura em 22 de maio na Universidade Oglethorpe, em Atlanta, que provavelmente descreve a estratégia atual do presidente Barack Obama - e a grande aposta que ele fez - tão bem quanto seria possível.

"O país precisa e, a menos que eu me engane sobre seu temperamento, o país exige uma experimentação ousada e constante", disse Roosevelt. "É senso comum adotar um método e experimentá-lo. Se falhar, admitir francamente e experimentar outro. Mas, acima de tudo, experimentar alguma coisa."

Quando se somam todas as políticas econômicas de emergência que Obama já lançou - um estímulo de quase US$ 800 bilhões, alívio das hipotecas, um programa público-privado para comprar ativos tóxicos e uma enorme injeção de capital no sistema bancário pelo Federal Reserve para reduzir as taxas de juros e expandir o crédito -, elas constituem um grande experimento.

Juntas, essas políticas - chame-as de Socorro de Obama Fase 1 - representam uma grande aposta em que o governo é capaz de limitar esta crise econômica a uma recessão realmente incômoda, o tipo de coisa que poderia constituir um longo capítulo em um livro de história econômica, e não uma depressão do século 21 que desencadearia toda uma prateleira sobre o tema "Como Barack Obama ganhou uma eleição e perdeu uma economia".

Pela esquerda, Obama está sendo criticado por ter uma abordagem muito baseada no mercado e não simplesmente ceder à inevitabilidade e nacionalizar os bancos insolventes. Pela direita, é criticado por demasiada intervenção do governo e não deixar as forças do mercado atuarem.

Minha sensação particular é esta: o pacote de Obama representa a soma total do que era minimamente necessário para impedir a ruptura do sistema, o que era politicamente possível com um Congresso que não estava com humor para gastar mais um centavo para salvar Wall Street, e o que era operacionalmente preferível - neste momento -, que era uma estratégia que não exigia nacionalizar o Citigroup & Amigos.

Como as autoridades de Obama me disseram: se você tem certeza de que precisa fazer uma cirurgia radical - nacionalizar os bancos -, é melhor fazer logo do que deixar para mais tarde. Mas se você acha que poderia ter uma opção, e se você acha que a nacionalização traz consigo outros problemas enormes - como quem vai dirigir esses bancos e quem vai querer trabalhar neles se o governo assumir -, e se você acha que o Congresso não vai lhe dar mais um centavo, então você experimenta outras coisas antes.

Obama está apostando que a totalidade das políticas econômicas que sua equipe e o Federal Reserve aplicaram vai funcionar, como uma radioterapia, para deter a disseminação e reduzir o tamanho dos tumores cancerosos que estão devorando nosso sistema financeiro - e estimular um novo crescimento e otimismo suficientes para que a Fase 2 seja pequena o bastante para passar pelo Congresso e pelo público.

Como o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, disse à ABC News: "Se nós chegarmos àquele ponto" - em que há necessidade de mais fundos -, "iremos ao Congresso defender a tese mais forte possível e ajudá-los a compreender por que vai sair mais barato em longo prazo mover-se agressivamente".

Não tenho dúvida de que a Fase 2 está chegando. No máximo ela exigirá centenas de bilhões de dólares a mais, no pior dos casos mais de 1 trilhão, para lidar com mais empréstimos ruins e ativos tóxicos que enfraquecem a economia - problemas que a Fase 1 não pode absorver totalmente. Porque o desemprego continua aumentando - garantindo que a série inicial de calotes de hipotecas, que vieram de empréstimos para pessoas que não podiam pagar, será seguido de outras séries de moratórias daqueles que poderiam pagar mas agora não podem porque a economia em deterioração os privou de seus empregos, suas empresas ou suas linhas de crédito.

A estratégia de Obama, disse Robert Hormats, vice-presidente do Goldman Sachs International, "se baseia na ideia do reforço mútuo, que quando você junta tudo - o dinheiro estimulando o crescimento, o dinheiro que alivia o arrocho de crédito no setor habitacional, o dinheiro injetado pelo Federal Reserve para reduzir os juros e as várias iniciativas para curar os bancos sem nacionalizá-los -, você terá um reforço da economia que será maior do que a soma de suas partes".

O sucesso da abordagem do presidente, acrescentou Hormats, dependerá de tudo realmente funcionar junto - "que o estímulo fiscal melhore os mercados de habitação, criando mais empregos e crescimento, a melhora na habitação vai retirar a pressão dos bancos e menos pressão nos bancos vai melhorar a disponibilidade de crédito, que vai ajudar a habitação e a criação de empregos nas empresas".

Essa é a grande aposta do presidente - seu grande primeiro experimento rooseveltiano. Se ele estiver errado, a Fase 2 do socorro vai começar com um "t", como em "trilhão", e vai provocar uma feroz luta política no Congresso. Mas se ele estiver certo vai começar com um "b", como em "bilhões", o Congresso será mais facilmente convencido e nós poderemos sair desta crise sem fazer muita história econômica.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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