Mostrem a bola

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Estou de fato encorajado pelo compromisso do presidente Barack Obama com as energias limpas e o combate à alteração climática. Só tenho três preocupações em relação ao isso: se ele conta com as políticas certas, com os políticos certos e o ministro certo para vender esse programa ao país. Tirando isso, a situação parece ótima!

Na semana passada, os democratas da câmara, com apoio do governo, aprovaram um texto de 600 páginas referente a uma legislação sobre energia e clima. No centro disso está um projeto para a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa por meio de um complicado sistema de limites e comercialização de quotas. Essas pessoas têm as melhores das intenções, mas eu desejaria que elas retrocedessem e questionassem novamente: o projeto de quotas e comércio poderá ser aprovado? E ele de fato funcionará? E seria essa a melhor estratégia, tendo em vista toda a burocracia exigida para monitorar, fiscalizar as licenças de emissão e gerenciar o comércio das quotas?

Defensores desse sistema argumentam que ele é preferível a um simples imposto sobre a emissão de carbono porque estabelece um limite nacional para essas emissões e "esconde a bola" - ele não usa a palavra "imposto" -, ainda que equivalha a um imposto. Assim, ele pode passar pelo congresso. Isso era tido como verdadeiro, contanto que ninguém achasse que o sistema de quotas e comércio pudesse ser aprovado. Mas agora, sob Obama, os opositores não estão mais escondendo a bola.

Nas últimas duas semanas, foi possível ouvir um coro de republicanos, democratas de Estados produtores de carvão, organizações de direita e céticos ambientais entoando a mesma música: "O sistema de quotas e comércio é um imposto. Obama elevará os seus impostos e sacrificará os empregos norte-americanos para combater essa história de aquecimento global, que muitos cientistas consideram uma cascata. E, pior, o sistema será gerenciado por Wall Street. Se você gostou dos swaps dos calotes de crédito, adorará os swaps de compensação de carbono".

Alguns dos refrões dessa melodia são bem atraentes. Eles poderiam facilmente liquidar os esforços do governo. Assim, se a equipe de Obama preocupa-se com os "fins" de um Estados Unidos mais forte e um planeta mais habitável, assim como os "meios", espero que ela cogite apresentar uma estratégia alternativa, uma mensagem e um mensageiro.

ESTRATÉGIA: Já que o os oponentes do sistema de quotas e comércio o classificarão de qualquer maneira como imposto, por que não recorrer à coisa real - um imposto de carbono simples, transparente, aplicável a toda a economia?

O deputado John B. Larson, presidente da bancada democrata na câmara, circulou uma minuta de legislação que imporia "um imposto por unidade sobre a quantidade de dióxido de carbono dos combustíveis fósseis, começando com uma taxa de US$ 15 por tonelada métrica de dióxido de carbono e aumentando em US$ 10 a cada ano". A legislação estabelece uma meta, e não um teto, para as emissões, que em 2050 seria 80% inferior aos níveis registrados em 2005. E se a meta para os primeiros cinco anos não for alcançada, o imposto sofre um acréscimo automático de US$ 5 por tonelada métrica. A legislação implementa também uma taxa sobre as importações que fazem uso intensivo de carbono, a fim de pressionar a China a seguir o exemplo. Larson utilizaria a maior parte da receita para reduzir os impostos de renda dos cidadãos: nós taxamos os seus pecados na área de emissão de carbono e reduzimos os impostos sobre o seu contracheque.

As pessoas entendem isso - e a simplicidade é importante. Os norte-americanos estarão dispostos a pagar um imposto para que os seus filhos fiquem menos ameaçados, respirem um ar mais limpo e vivam em um mundo mais sustentável com um Estados Unidos mais forte. É muito menos provável que eles apoiem uma firma em Londres que troca licenças de emissão de uma empresa de energia elétrica em Boston com uma firma de derivativos em Nova York a fim de ajudar a financiar uma usina de alumínio em Pequim. Assim funcionaria o sistema de quotas e comércio. As pessoas não apoiarão aquilo que forem incapazes de explicar.

MENSAGEM: A mudança climática é uma ameaça real para um planeta Terra saudável - a única casa que possuímos. Mas como os piores efeitos estão no futuro, muitos norte-americanos têm preocupações mais imediatas. É por isso que a nossa política energética deveria focar-se na "renovação norte-americana", e não na mitigação da mudança climática.

Precisamos de um preço sobre o carbono porque ele estimulará uma inovação maciça na próxima grande indústria global: a ET (iniciais em inglês de tecnologia energética). Em um mundo em processo de aquecimento e com um grande crescimento demográfico, haverá enorme demanda por sistemas de geração limpa de energia. A pesquisa científica e a inovação necessárias para que os Estados Unidos dominem a ET da mesma forma que dominaram a IT poderia ser a base para uma segunda revolução industrial norte-americana, e além disso faria com que o planeta inteiro inclinasse-se para uma rota mais verde. Assim, a renovação econômica dos Estados Unidos é o objetivo, mas a mitigação da alteração climática seria o grande subproduto.

MENSAGEIRO: O porta-voz do imposto sobre carbono do governo Obama - o indivíduo que venderia essa proposta ao país - deveria ser o assessor de Segurança Nacional do presidente, o general James Jones, e não os ambientalistas. O imponente ex-comandante do Corpo de Fuzileiros Navais apresentaria o argumento poderoso de que um imposto sobre o carbono é uma necessidade vital para estimular investimentos em tecnologias limpas que permitiriam aos Estados Unidos dominar a ET, e ao mesmo tempo convenceria os consumidores a comprar os sistemas de energia, casas e carros mais eficientes e limpos.

Ele poderia argumentar que o país que possuir a mais poderosa indústria de tecnologia limpa no século 21 contará com a maior segurança energética, segurança nacional, segurança econômica, meio-ambiente saudável, companhias inovadoras e respeito global. Esse país tem que ser os Estados Unidos. Portanto, vamos parar de esconder a bola e apresentemos uma estratégia, uma mensagem e um mensageiro que digam o que a proposta de fato é - e que a concretize.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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