Friedman: na era dos piratas

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Tenho pensado ultimamente sobre criar uma nova escola de relações exteriores para treinar diplomatas. No entanto, a minha escola seria muito simples. Ela consistiria de uma única sala de aula com uma mesa e uma cadeira. À mesa sentaria-se um professor, fingindo ser um líder estrangeiro. O aluno entraria e teria que persuadir o líder estrangeiro a puxar uma alavanca. Em determinado momento, o líder estrangeiro balançaria vigorosamente a cabeça em sinal de assentimento e, a seguir, viraria-se para trás e puxaria a alavanca - e esta se despregaria da parede. Ou ele concordaria energicamente e diria, "Sim, sim, é claro, puxarei a alavanca", mas só fingiria ter puxado.

Depois disso o aluno teria que descobrir o que fazer a seguir...

Fico me perguntando se o presidente Barack Obama e a secretária de Estado, Hillary Clinton, não seriam esses alunos, tentando negociar com os líderes do Paquistão, do Afeganistão, do Irã e da Coreia do Norte. Digo isso não para criticar, mas para simpatizar. "Senhora, não deixe que os seus filhos sejam diplomatas quando crescerem".

Esta não é uma grande era para a diplomacia.

Um secretário de Estado só é capaz de fechar acordos quando os outros Estados ou partes estiverem dispostos ou forem capazes de fazê-lo. Durante a Guerra Fria, uma era de grandes potências, grandes negociações e Estados clientes relativamente sólidos, havia amplas oportunidades para isso - fosse no controle de armamentos com a União Soviética, fosse nos tratados de paz entre os nossos respectivos Estados clientes em todo o mundo. Mas esta é cada vez mais uma era de piratas, de Estados fracassados, de protagonistas não estatais e de projetos de construção de nações - o campo de atuação de franco-atiradores, aviões não tripulados e generais, e não diplomatas.

Por isso temos novamente toda essa sensação de deja vu em relação à qualidade atual da política externa dos Estados Unidos - a sensação de que quando se trata dos nossos grandes problemas (Afeganistão, Paquistão, Coreia do Norte e Irã), nós só damos voltas, comprando os mesmos tapetes das mesmas pessoas, seguidamente, sem que nada mude.

"Estamos lidando com Estados e líderes que ou não são capazes de agir ou que não agirão", observa o professor de política internacional Michael Mandelbaum. "Os problemas que temos com eles parecem-se menos com problemas que podem ser resolvidos e mais com questões que precisamos administrar".

Aqueles que são incapazes de agir - os líderes do Afeganistão e do Paquistão - são os que prometem fazer todo tipo de coisas, e puxam todas as espécies de alavancas, mas no fim das contas as alavancas soltam-se da parede porque os governos desses países contam com poderes limitados. E os que não agirão - Irã e Coreia do Norte - nos dizem repetidamente: "Sim, nós precisamos conversar". Entretanto, no fim das contas, as suas relações hostis com o Ocidente são tão importantes para a estratégia de sobrevivência dos seus regimes, consistem em uma peça tão central das suas justificativas para permanecer no poder, que não é do interesse deles obter uma reconciliação real, mas apenas fingir que agiram.

A única coisa capaz de modificar isso é um exercício maior de poder aliado. No caso do Afeganistão e do Paquistão, esse poder teria que ser utilizado para reconstruir realmente esses Estados de dentro para fora, transformando-os em nações modernas. Teríamos que literalmente construir as instituições - as polias e as engrenagens - de forma que quando os líderes desses Estados puxassem uma alavanca algo de fato acontecesse, e a alavanca não se quebrasse simplesmente nas mãos deles.

E, no caso dos Estados fortes - Irã e Coreia do Norte - precisaríamos gerar uma influência bem mais efetiva a partir de fora a fim de fazer com que eles modificassem o seu comportamento de acordo com aquilo que desejamos. Porém, em ambos os casos, o sucesso sem dúvida exigiria um investimento maior e mais longo de dinheiro e poder, para não mencionar os aliados.

Em vez disso, temo que estejamos adotando uma estratégia intermediária - fazendo apenas o suficiente para evitar um colapso, nas não o bastante para resolver os problemas. Se o nosso objetivo no Paquistão e no Afeganistão for a construção de Estados, de forma que eles tenham governos moderados auto-sustentáveis, nós sem dúvida não geramos influência suficiente de fora para dentro. O lançamento desafiador de um foguete por parte da Coreia do Norte e o desenvolvimento contínuo da capacidade nuclear iraniana demonstram isso.

Assim, em suma, temos quatro países-problemas no cerne da nossa política externa atual, e não temos nem o desejo nem a capacidade de ignorá-los, e parecemos não contar nem com a influência nem com os aliados para modifica-los decisivamente. O grande fator imprevisível - uma massa crítica de pessoas que compartilham as nossas aspirações dentro desses países rebelando-se e liderando a luta, que no fim das contas foi o que acabou inclinando o Iraque para uma situação melhor - eu não enxergo nessas nações. Assim sendo, temo que estejamos mergulhando em compromissos no Paquistão e no Afeganistão sem que haja um debate nacional de verdade sobre os fins, os meios ou as estratégias de saída. E isso é uma receita para problemas.

Tendo em vista o pouco que ele tem a sua disposição, não se pode culpar Obama por parecer adotar uma postura intermediária - ele não deseja abandonar os progressistas e as mulheres no Afeganistão e no Paquistão, mas não quer mergulhar muito profundamente nesses problemas. Mas a história nos ensina que a postura intermediária pode ser perigosa. Basta pensar no Iraque antes do envio das tropas extras - não havia o suficiente para vencer nem para perder, mas apenas para ficarmos atolados naquele país.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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