Friedman: nadando sem traje adequado

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Falando sobre crises financeiras e como podem expor empresas fracas e países fracos, Warren Buffett já citou famosamente que "apenas quando a maré recua é que você descobre quem não está usando traje de banho". É verdade. Mas o que é realmente enervante é que os Estados Unidos parecem ser um dos países que estavam nadando nus - de muitas formas diferentes.

As bolhas de crédito são como a maré. Elas podem esconder muita coisa podre. Em nosso caso, o consumo excessivo e os empregos criados pelas nossas bolhas de crédito e imobiliária mascararam não apenas nossa fraqueza no setor manufatureiro e outros fundamentos econômicos, mas algo pior: o quanto ficamos para trás no ensino e quanto isso está nos custando. Esta é a conclusão que tiro de um novo estudo feito pela empresa de consultoria McKinsey, intitulado "O Impacto Econômico na Desigualdade Educacional nas Escolas Americanas".

Apenas um rápido resumo: nos anos 50 e 60, os Estados Unidos dominavam o mundo no ensino fundamental. Nós também dominávamos economicamente. Nos anos 70 e 80, nós ainda tínhamos uma vantagem, apesar de menor, na educação de nossa população ao longo do ensino médio, e os Estados Unidos continuavam liderando o mundo economicamente, apesar de outras grandes economias, como a China, estarem se aproximando. Hoje, nós ficamos para trás tanto em alunos formados no ensino médio per capita quanto na qualidade deles. Haverá conseqüências.

Por exemplo, no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) de 2006, que avaliou o aprendizado aplicado e a capacidade de solução de problemas entre alunos de 15 anos de 30 países industrializados, os Estados Unidos ficaram em 25º em matemática entre 30 e 24º em ciências entre 30. Isso coloca nossos jovens em média equivalentes aos de Portugal e da Eslováquia, "em vez de equivalentes aos estudantes de países que são concorrentes mais relevantes no setor de serviços e empregos de alto valor, como o Canadá, Holanda, Coréia do Sul e Austrália", notou a McKinsey.

Na verdade, nossos alunos de quarta série se comparam nesses testes globais aos de, digamos, Cingapura. Mas nossos alunos colegiais realmente ficam para trás, o que significa que "quanto mais tempo as crianças americanas permanecem na escola, pior é o seu desempenho em comparação aos seus pares internacionais", disse a McKinsey.

Há milhões de crianças que estão em escolas suburbanas modernas "que não têm consciência de quão atrasadas estão", disse Matt Miller, um dos autores. "Elas estão sendo preparadas para empregos de US$ 12 por hora - não de US$ 40 a US$ 50 por hora."

Não se trata de estarmos fracassando de modo generalizado. Há numerosas inovações empolgantes no ensino atualmente nos Estados Unidos - de novos modos de remuneração do professor e escolas "charter" até distritos escolares espalhados por todo o país que estão demonstrando melhorias reais com base em métodos melhores, diretores melhores e padrões mais altos. O problema é que são dispersas demais - deixando todo tipo de desigualdade educacional entre brancos, afro-americanos, latinos e diferentes níveis de renda.

Usando um modelo econômico criado para este estudo, a McKinsey mostrou quanto estas desigualdades educacionais estão nos custando. Suponha, ela notou, "que nos 15 anos após o relatório de 1983, 'Uma Nação em Risco' - que soou o alarme a respeito do 'aumento da mediocridade' no ensino americano", os Estados Unidos tivessem elevado o ensino americano a marcos referenciais de desempenho mais elevados? O que teria acontecido?

A resposta, segundo a McKinsey: Se os Estados Unidos tivessem reduzido a desigualdade internacional de ensino entre 1983 e 1998, e tivesse elevado seu desempenho ao nível de países como a Finlândia e a Coréia do Sul, o PIB dos Estados Unidos em 2008 teria sido entre US$ 1,3 trilhão e US$ 2,3 trilhões maior. Se tivéssemos eliminado a desigualdade educacional racial e os estudantes negros e latinos tivessem alcançado o desempenho dos estudantes brancos em 1998, o PIB de 2008 seria entre US$ 310 bilhões a US$ 525 bilhões maior. Se a desigualdade entre os estudantes de baixa renda e o restante tivesse diminuído, o PIB em 2008 seria maior em US$ 400 bilhões a US$ 670 bilhões.

Há alguns sinais esperançosos. O presidente Barack Obama reconhece que precisamos urgentemente investir dinheiro e energia para transformar as escolas e as melhores práticas, de ilhas de excelência em uma nova norma nacional. Mas precisamos fazê-lo com urgência e diligência que os riscos econômicos e morais exigem.

Com o declínio de Wall Street, entretanto, muito mais jovens com boa formação e idealistas querem tentar lecionar. Wendy Kopp, fundadora da Teach for America, telefonou outro dia para passar as estatísticas a respeito dos formandos em universidades que estão se inscrevendo em sua organização para lecionar em algumas das escolas mais carentes no próximo ano: "Nosso total de inscrições aumentou 40%; 11% de todos os alunos do último ano da Ivy League (grupo de oito universidades privadas do Nordeste dos Estados Unidos) se inscreveram, 16% dos alunos do último ano de Yale, 15% de Princeton, 25% da Spellman e 35% dos alunos afro-americanos do último ano em Harvard. Em 130 faculdades, entre 5% e 15% dos alunos do último ano se inscreveram".

Parte disso, disse Kopp, se deve à falta de empregos em outros lugares. Mas parte se deve à "resposta dos estudantes ao chamado de que este é um problema que nossa geração pode solucionar". Talvez seja, porque hoje, educacionalmente, somos uma nação em risco. Nós somos uma nação em declínio, e nossa nudez está realmente aparecendo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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