Friedman: uma concessão tortuosa

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Considerando a situação, o presidente Barack Obama fez o melhor que podia ao decidir banir o uso da tortura, divulgar os memorandos de tortura de Bush para o escrutínio público, e não processar os advogados e interrogadores responsáveis por essa estratégia. Mas não há nenhum motivo para ficarmos felizes com nada disso.

Afinal, não estamos falando apenas de "interrogatórios reforçados". Lawrence Wilkerson, ex-chefe de gabinete do secretário de Estado Colin Powell, testemunhou no Congresso que mais de cem prisioneiros morreram sob custódia dos EUA no Iraque e no Afeganistão, 27 desses casos foram declarados como homicídios cometidos por militares. Esses homens foram supostamente chutados até a morte, assassinados a tiros, sufocados ou afogados. Veja bem, nós matamos os presos, e apenas um punhado dessas mortes resultou em algum tipo de punição para os oficias norte-americanos.

A decisão do presidente de expor, porém não processar, os responsáveis por essa estratégia é com certeza insatisfatória; parte do abuso envolveu um tipo de brutalidade que não tinha nada a ver com os perigos reais e imediatos. Então, por que justificar a atitude condescendente de Obama? Dois motivos: o primeiro é porque, se a lógica da justiça fosse aplicada às últimas consequências, seria necessário levar George W. Bush, Donald Rumsfeld e outras autoridades a julgamento, o que esfacelaria o país inteiro; e o outro é que a Al Qaeda era de fato um inimigo único, e a era pós-11 de setembro foi uma guerra extremamente confusa sob vários aspectos.

Em primeiro lugar, a Al Qaeda não podia ser detida com as estratégias usuais. A arma preferida pela Al Qaeda era o suicídio. Seus militantes estavam prontos para tirarem suas próprias vidas - como fizeram em 11 de setembro e antes disso contra os alvos americanos na Arábia Saudita, Quênia, Tanzânia e Iêmen - muito antes de termos sequer ameaçado matá-los. Conseguimos deter os russos porque eles amavam seus filhos mais do que nos odiavam; eles não queriam morrer. Os militantes da Al Qaeda nos odeiam mais do que amam seus próprios filhos. Eles glorificam o martírio e deixam a família para trás.

Em segundo lugar, Osama bin Laden e a Al Qaeda queriam dar um golpe devastador nos EUA. Eles "estavam envolvidos num esforço extraordinariamente sofisticado e profissional para comprar armas de destruição em massa. Nesse casso, material nuclear", disse Michael Scheuer, antigo especialista da CIA em bin Laden, ao programa "60 Minutos" em 2004. "Ao final de 1996, estava claro que essa organização era diferente de qualquer outra que já havíamos visto."

Em terceiro lugar, a Al Qaeda vem de uma corrente do Islã radical que acredita que têm o aval religioso para matar qualquer um, inclusive muçulmanos. A Al Qaeda explodiu mesquitas, templos e funerais muçulmanos no Iraque. Ela não respeita nenhum limite ou restrição religiosa. Um de seus líderes cortou a cabeça de Daniel Pearl com uma faca de cozinha - em vídeo.

Por fim, as táticas da Al Qaeda são elaboradas para serem usadas contra, e para desestabilizar, exatamente aquilo que nós somos: uma sociedade aberta. Ao transformar seres humanos em mísseis ambulantes e instrumentos de nosso cotidiano - como carros, sapatos, telefones celulares e mochilas - em bombas, a Al Qaeda ataca a principal característica que mantém nossa sociedade aberta: a confiança. Se tivermos que temer a pessoa que está ao nosso lado num avião ou a explosão de um cinema, é impossível haver uma sociedade aberta.

E portanto, o ambiente pós-11 de setembro continua perigoso. Mais um atentado como aquele poderia fechar nossa sociedade mais um pouco. Outro 11 de setembro e as pessoas serão obrigadas a tirarem mais do que os sapatos no aeroporto. Podemos nos dar ao luxo de ter esse debate sobre tortura agora porque não houve um segundo atentado, e não foi por falta de vontade ou tentativa. Se houvesse, a maioria dos americanos teria dito ao governo (e ainda diria): "Faça o que for necessário".

Então, a concessão de Obama é o melhor que podemos fazer nesse momento: temos que intimar aqueles que confrontam a Al Qaeda todos os dias na frente de batalha para agirem de uma forma que respeite aquilo que nós somos, mas também para nunca esquecerem quem são seus inimigos. Eles não são criminosos de colarinho branco. Eles não ligam se nós torturamos ou não - bin Laden declarou guerra contra nós quando Bill Clinton ainda era presidente.

Acredito que o motivo mais importante pelo qual não houve outro 11 de setembro, além da melhoria da segurança e dos serviços de inteligência, é que a Al Qaeda está focada principalmente em derrotar os Estados Unidos no coração do mundo árabe-muçulmano - particularmente no Iraque. A Al Qaeda sabe que, se puder destruir os esforços dos EUA (que ainda são um plano a longo prazo) de construir uma sociedade decente e moderna no Iraque, destruirá todos os aliados dos EUA na região.

Por outro lado, se nós, ao lado dos iraquianos, derrotarmos a Al Qaeda e construirmos uma sociedade decente e pluralista no seio do mundo árabe, isso será um golpe devastador. Por mais estranho que pareça, o momento mais perigoso para nós acontecerá caso a Al Qaeda seja derrotada no Iraque. Porque será então que os reminiscentes da Al Qaeda tentarão uma estratégia desesperada - ou seja, lançar uma bomba numa cidade americana - para encobrir sua derrota pelos muçulmanos e árabes moderados em seu próprio território.

Por esse motivo é que aqueles entre nós que ultrapassaram a linha podem permanecer impunes, porque ainda temos inimigos que não respeitam nenhum limite. Numa guerra horrenda como esta, cada um faz o seu melhor. Foi o que Obama fez.

Tradução: Eloise De Vylder

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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