'Revolução' de Mousavi terá o mesmo efeito que Khomeini conseguiu no regime do xá?

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

A revolta popular que se desenrola no Irã no momento é realmente notável. É a mais rara dentre as coisas raras - mais rara do que neve na Arábia Saudita, mais improvável do que encontrar um sanduíche de presunto no Muro das Lamentações, mais incomum do que praticar esqui aquático no Saara. É uma revolta popular em um Estado do petróleo do Oriente Médio.

Por que isso é tão incomum? Por que na maioria dos Estados do Oriente Médio, o poder vem do cano de uma arma e do barril de petróleo -uma combinação muito difícil de derrotar.

O petróleo é um motivo chave para a democracia ter tanta dificuldade de despontar no Oriente Médio, exceto em um dos poucos Estados sem petróleo: o Líbano. Porque assim que reis e ditadores tomam o poder, eles podem se entrincheirar, não apenas aprisionando seus adversários e matando seus inimigos, mas também comprando as pessoas e usando a riqueza do petróleo para construir imensos aparatos de segurança interna.

Há apenas um precedente de autocrata financiado pelo petróleo no Oriente Médio derrubado por uma revolução popular, e não por um golpe militar, e isso aconteceu no... Irã.

Lembre-se que em 1979, quando o povo iraniano se ergueu contra o xá do Irã em uma Revolução Islâmica comandada pelo aiatolá Khomeini, o xá controlava o exército, a polícia secreta Savak e uma vasta rede de apoio financiada pelo petróleo. Mas a certa altura, um número suficiente de pessoas tomou as ruas e desafiou sua autoridade, e também levando bala, quebrou o encanto do xá. Todos os homens e cavalos do xá não puderam trazer seu regime de volta.

A Revolução Islâmica aprendeu com o xá. Ela tem usado sua riqueza do petróleo -o Irã é o quinto maior produtor de petróleo do mundo, exportando cerca de 2,1 milhões de barris por dia a cerca de US$ 70 o barril- para comprar uma grande parte da população com moradias baratas, empregos públicos e alimentos e gasolina subsidiados. Ele também usou seu petróleo para erguer uma vasta força militar -mais especificamente a Guarda Revolucionária e a milícia Basij- para se manter no poder.

Portanto, a grande pergunta atualmente no Irã é: a revolução verde liderada por Mir Hossein Mousavi, apoiada pelas massas de manifestantes de rua, pode fazer ao regime islâmico o que Khomeini e o povo iraniano fizeram ao regime do xá - quebrar seu encanto a ponto de todos seus barris e balas se tornem insignificantes?

Os mulás que governam o Irã sempre foram impiedosos. Mas eles disfarçavam isso um pouco com falsas eleições. Eu digo falsas eleições porque apesar do regime poder contar os votos precisamente, ele controla rigidamente quem pode concorrer. As escolhas eram entre preto escuro e preto claro.

O que aconteceu desta vez é que a raiva contra o regime se tornou tamanha -devido aos quase 20% de taxa de desemprego e uma crescente população jovem cansada de ver as opções de sua vida sendo limitadas pelos teocratas- que dada a escolha entre o candidato preto escuro do regime e um candidato preto claro do regime, milhões de iranianos votaram no preto claro: Mousavi. O povo iraniano transformou o homem do regime em seu próprio candidato e ele parece ter sido transformado pelo povo. Foi quando o regime entrou em pânico e fraudou a eleição.

O dramaturgo Tom Stoppard já observou que a democracia não se trata da votação, "mas da contagem". Os mulás do Irã sempre se mostraram dispostos a permitir o voto, desde que a contagem dos votos não importasse, porque um homem do regime sempre venceria. Mas o que aconteceu desta vez foi que na pequena fenda no espaço que o regime teve que permitir até mesmo para uma falsa eleição, uma espécie de contrarrevolução nasceu.

Sim, seu líder, Mousavi, certamente é menos liberal do que a maioria de seus seguidores. Mas bastou seu tom mais claro de preto para atrair e dar voz a tamanha frustração acumulada e esperança por mudança entre tantos iranianos que ele se transformou em um candidato independente e, assim, seus votos simplesmente não podiam ser contados -porque deixaram de ser apenas votos nele, mas sim um referendo contra todo o regime.

Mas agora, tendo depositado seus votos nas urnas, os iranianos que desejam mudança terão que votar de novo com seus corpos. Um regime como o do Irã só pode ser derrubado ou alterado se iranianos suficientes votarem como fizeram em 1979 -na rua. Isso é o que o regime mais teme, porque ou terá que atirar contra seu próprio povo ou ceder o poder. Por isso não foi por acaso que o "líder supremo", o aiatolá Khamenei, alertou aos manifestantes em seu discurso de sexta-feira que "o desafio das ruas é inaceitável". Este é um homem que sabe como conseguiu seu emprego.

Assim, o desafio está lançado. Se os reformistas quiserem mudanças, eles terão que formar uma liderança, apresentar sua visão para o Irã e manter os eleitores nas ruas -incessantemente. Apenas se continuarem demonstrando com seus corpos, e assim dizer ao seu regime, "não podemos ser comprados e não seremos intimidados", é que seus votos serão de fato contados.

Eu torço e temo por eles. Qualquer moderação real por parte da liderança do Irã teria um efeito altamente positivo sobre o Oriente Médio. Mas nós e os reformistas não podemos ter ilusões a respeito dos barris e balas que estão enfrentando.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

UOL Cursos Online

Todos os cursos