EUA precisam acabar com vício no petróleo que financia a ditadura islâmica do Irã

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Há muita conversa inútil sobre o que o presidente Barack Obama deveria dizer a respeito da incipiente "Revolução Verde" do Irã. Lamento, mas os reformistas iranianos não precisam de nossos elogios. Eles precisam da única coisa que poderíamos fazer, sem disparar um tiro, que realmente enfraqueceria os teocratas iranianos e os forçaria a desacorrentar seu povo. E o que é? Acabar com nosso vício no petróleo que financia a ditadura islâmica do Irã. O lançamento de uma verdadeira Revolução Verde nos Estados Unidos seria a melhor forma de apoiar a "Revolução Verde" no Irã.

A internet durante a onda de protestos

O petróleo é a poção mágica que permite que os xás de turbante do Irã -o "xá Khamenei" e o "xá Ahmadinejad"- esnobem o mundo e muitos de seu próprio povo. O presidente Mahmoud Ahmadinejad se comporta como alguém que confunde sorte com capacidade. Por coincidência, ele presidiu o Irã durante um período de altas recordes dos preços do petróleo. Logo, apesar de presidir uma economia que não faz nada que o mundo deseja, ele pode nos dizer sobre como o Ocidente está em declínio e como o Holocausto foi um "mito". Acredite, com um barril a US$ 25, ele não mais declarará que o Holocausto foi um mito.

A equipe Obama deseja buscar um diálogo com o Irã a respeito de seu programa nuclear, independente de quem vença ali. Sem problema. Mas a questão não é dialogar ou não dialogar. A questão é quem estará em vantagem. Eu adoro conversar com as pessoas - especialmente no Oriente Médio- sob uma condição: a de que estejamos em vantagem. Enquanto os preços do petróleo estiverem altos, o Irá terá muita vantagem e será capaz de resistir a fazer concessões em seu programa nuclear. Com o petróleo a US$ 70 o barril, nossas sanções econômicas contra o Irã são um incômodo; a US$ 25, elas realmente doem.

"As pessoas não mudam quando você lhes diz que deveriam; elas mudam quando dizem a si mesmas que precisam", observou Michael Mandelbaum, um especialista em política externa da Universidade Johns Hopkins. E nada dirá aos líderes do Irã que precisam mudar do que um colapso nos preços do petróleo.

Obama já deu início a algumas excelentes iniciativas para economia de energia. Mas precisamos de mais. A imposição imediata de um "Imposto da Liberdade" de US$ 1 por galão de gasolina - com desconto aos pobres e idosos- seria triplamente positivo: estimularia já mais investimento em energia renovável; estimularia mais demanda por veículos eficientes em energia, que as renascidas General Motors e Chrysler supostamente devem fabricar; e reduziria nossas importações de petróleo de um modo que certamente afetaria o preço global e enfraqueceria todos os petroditadores.

É assim que -como Bill Maher gosta de dizer- fazemos os bandidos "lutarem contra todos nós".

Claro, levaria tempo para influenciar o regime, mas, diferente de apenas palavras, teria um impacto. Eu acredito na "Primeira Lei da Petropolítica", que estipula que o preço do petróleo e o andamento da liberdade nos Estados petrolíferos -Estados totalmente dependentes das exportações de petróleo para condução de suas economias- operam em correlação inversa. Quando o preço do petróleo cai, a liberdade cresce, porque os líderes precisam educar e desacorrentar seu povo para inovar e negociar. Quando o preço do petróleo sobe, a liberdade diminui porque basta aos líderes espetar um tubo no chão para permanecerem no poder.

Prova A: a União Soviética. Os altos preços do petróleo nos anos 70 fizeram com que o Kremlin escorasse indústrias ineficientes, ampliasse os subsídios, adiasse reformas econômicas reais e invadisse o Afeganistão. Quando os preços do petróleo caíram para US$ 15 o barril no final dos anos 80, o Império soviético petrificado ruiu.

Em um discurso de 2006 intitulado "O Colapso de um Império: Lições para a Rússia Moderna", Yegor Gaidar, um vice-primeiro-ministro da Rússia no início dos anos 90, notou que "o início do colapso da União Soviética pode ser rastreado até 13 de setembro de 1985. Nessa data, o xeque Ahmed Zaki Yamani, o ministro do petróleo da Arábia Saudita, declarou que a monarquia decidiu alterar radicalmente sua política para o petróleo. Os sauditas deixaram de proteger os preços do petróleo, e a Arábia Saudita rapidamente recuperou sua fatia do mercado mundial".

"Nos seis meses que se seguiram", acrescentou Gaidar, "a produção de petróleo na Arábia Saudita aumentou quatro vezes, enquanto os preços do petróleo caíram aproximadamente na mesma proporção em termos reais. Como resultado, a União Soviética perdeu aproximadamente US$ 20 bilhões por ano, dinheiro sem o qual o país simplesmente não podia sobreviver".

Se pudéssemos derrubar o preço do petróleo, a República Islâmica -que tem comprado seu povo com subsídios e empregos há anos- enfrentaria as mesmas pressões. Os aiatolás teriam que começar a pensar em cortar os subsídios aos iranianos, o que tornaria os xás de turbante ainda mais impopulares, ou empoderar o talento humano do Irã -homens e mulheres- e lhes dar livre acesso ao aprendizado, ciência, comércio e colaboração com o restante do mundo, o que permitiria a esta antes grande civilização persa prosperar sem o petróleo.

Falando sério: uma Revolução Verde americana para acabar com nosso vício em petróleo -paralela à Revolução Verde do Irã para acabar com sua teocracia- nos ajuda, ajuda a eles e aumenta as chances de que independente de quem vença a disputa pelo poder ali, terá que ser um reformista. O que estamos esperando?

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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