Precisaremos inventar um novo caminho para voltar à prosperidade

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Há algumas semanas eu estava em uma conferência em São Petersburgo, na Rússia, e entrevistei Craig Barrett, o ex-presidente da Intel, sobre como os Estados Unidos deveriam sair da atual crise econômica. A primeira proposta dele foi a seguinte: todo adolescente norte-americano que quisesse tirar uma carteira de motorista precisaria concluir o segundo grau. Sem diploma não haveria carteira. Por que desejaríamos colocar um adolescente que é quase incapaz de somar, ler ou escrever na direção de um carro?

Agora, o que isto tem a ver com nos retirar da Grande Recessão? Muita coisa. Historicamente, as recessões são períodos em que novas companhias, como a Microsoft, surgem no cenário, e as boas companhias se distinguem das suas concorrentes. Isso faz sentido. Quando os tempos são difíceis, os indivíduos procuram formas novas e mais baratas de fazer coisas antigas. A necessidade gera invenções.

Portanto, o país que usar esta crise para tornar a sua população mais inteligente e inovadora - e proporcionar ao seu povo mais ferramentas e pesquisa básica para a invenção de novos produtos e serviços - será aquele que não só sobreviverá, mas também prosperará no decorrer do percurso.

Talvez sejamos capazes de estimular uma rota para que voltemos à estabilidade, mas para retornarmos à prosperidade precisaremos inventar um novo caminho. É preciso que todo indivíduo, em todos os níveis, torne-se mais inteligente.

Eu ainda acredito que os Estados Unidos, com as suas liberdades sem paralelos, a sua indústria de capital de risco, as universidades de pesquisas e a sua abertura para novos imigrantes contam com as melhores vantagens para este momento - a fim de inovarmos mais do que os nossos concorrentes. Mas, neste instante, temos que aproveitar ao máximo essas vantagens.

Tenho a impressão de que a Rússia está nitidamente desperdiçando esta crise. O preço do petróleo voltou a subir muito rapidamente de US$ 30 para US$ 70, de maneira que desapareceu a pressão para que a Rússia de fato reformasse e diversificasse a sua economia. Por ora, a luta pela alma econômica pós-comunista da Rússia - se ela penderá mais para a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) do que para Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um país que obtém mais riqueza com a exploração das suas reservas minerais do que com o aproveitamento das suas cabeças - parece estar terminada.

No centro de exposições de São Petersburgo, onde foram exibidas amostras da economia russa, os dois maiores quiosques pertenciam à Gazprom, a companhia estatal de petróleo e gás, e ao Sberbank, o maior banco estatal da Rússia. Praticamente não havia companhias russas que fabricam de fato algum produto. Atualmente, dois terços das exportações da Rússia consistem de petróleo e gás. A Gazprom produz o dinheiro, e o Sberbank o empresta.

Conforme disse um banqueiro ocidental, quando o barril de petróleo custava US$ 35, a Rússia "não tinha escolha", a não ser reformar e diversificar a sua economia e aplicar o império da lei e os incentivos que estimulariam de fato os pequenos negócios. Mas, com o barril a US$ 70, é necessário um enorme ato de "vontade política", algo que dificilmente será demonstrado pela aliança entre o petróleo e a KGB que atualmente domina o Kremlin. Um excesso de lei e transparência reduziria a liberdade de ação da classe dirigente.

A China também está cortejando problemas. Recentemente - em nome da censura à pornografia - a China bloqueou o acesso ao Google e exigiu que os computadores vendidos no país viessem com o filtro de Internet "Barragem Verde e Escolta da Juventude" a partir de 1º de julho. O Barragem Verde pode também ser usado para bloquear informações políticas, e não apenas a "Playboy". Assim que se começa a censurar a Web, restringe-se a capacidade de imaginar e inovar. O que as autoridades estão dizendo aos jovens chineses é que, se eles desejarem de fato explorar novos conhecimentos, será preciso sair do país.

Nós deveríamos estar tirando proveito disso. Este é o momento no qual deveríamos estar grampeando um green card ao diploma de todo estudante estrangeiro que obtivesse um grau avançado em qualquer universidade dos Estados Unidos. Além disso, deveríamos acabar com todas as restrições aos vistos H-1B para trabalhadores das áreas de conhecimentos que desejassem vir para cá. O número de empregos que eles inventariam seria muito maior do que a quantidade que ocupariam. Os melhores cérebros do mundo estão à venda. Compremos mais destes cérebros!

Barrett argumenta que deveríamos também usar esta crise para: 1) exigir que todo Estado equipare os seus padrões educacionais aos melhores do mundo, e não aos padrões do Estado vizinho; 2) duplicar o orçamento para pesquisa científica básica na Fundação Nacional da Ciência, no Departamento de Energia e no Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia; 3) reduzir os índices de impostos corporativos; 4) reformular a lei Sarbanes-Oxley de forma que ficasse mais fácil abrir pequenas empresas; 5) encontrar uma forma economicamente efetiva de fornecer serviços de saúde a todos os norte-americanos.

Neste momento precisamos fazer tudo o que pudermos para conectar mais cérebros a mais capital a fim de fomentar mais rapidamente novas companhias. Conforme disse Jeff Immelt, o presidente da General Electric, em um discurso na última sexta-feira, "este momento constitui-se em uma oportunidade para transformar a adversidade financeira em vantagem nacional, para criar inovações de valor duradouro para o nosso país".

Porém, às vezes eu temo que a nossa capacidade de imprimir dinheiro represente para os Estados Unidos aquilo que o dinheiro do petróleo representa para a Rússia. Basta ver os bilhões de dólares que nós acabamos de imprimir para salvar a pele de dois dinossauros: a General Motors e a Chrysler.

Ultimamente tem-se falado muito em imprimir dólares e pouco na criação do nosso próximo Thomas Edison, Bob Noyce, Steve Jobs, Bill Gates, Vint Cerf, Jerry Yang, Marc Andreessen, Sergey Brin, Bill Joy e Larry Page. O acréscimo de novos nomes a essa lista é o único estímulo que tem importância. Caso contrário, seremos simplesmente uma Rússia dotada de uma máquina de imprimir dinheiro.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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