Os perdedores resistem

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Após passar uma semana viajando pela linha de frente da "guerra contra o terror" -do porta-aviões USS Ronald Reagan além da costa do Irã, até o norte do Iraque, ao Afeganistão e ao noroeste do Paquistão- eu posso relatar confortavelmente o seguinte: os bandidos estão perdendo.

Sim, os dominós que você vê caindo no mundo muçulmano atualmente são os governos e grupos extremistas islâmicos. Eles fracassaram em convencer as pessoas, tanto com seus argumentos quanto com seu desempenho no poder, de que suas versões puritanas do Islã são a resposta. Após perderem o argumento, entretanto, os radicais ainda resistem, graças às armas e barris de petróleo -e o farão por algum tempo.

Porque, apesar dos radicais terem fracassado miseravelmente, nossos aliados -os muçulmanos modernistas, pró-americanos, os árabes moderados- de sua parte realmente não preencheram a lacuna com reforma e bom governo. Eles estão vencendo por falta de adversário. Mais a respeito depois.

Por ora, entretanto, é óbvio que em toda parte em que chegaram ao poder pelo voto ou à força, os radicais islâmicos -no Irã, Paquistão, Afeganistão, Líbano ou Gaza- sobrevalorizaram as cartas que tinham na mão, arrastaram suas sociedades para guerras inúteis ou se envolveram em violência niilista que, atualmente, está produzindo uma ampla rejeição por parte da maioria dos muçulmanos.

Pense nisto: no final dos anos 70, dois líderes fizeram viagens históricas -o presidente Anwar Sadat voou do Egito para Israel, e o aiatolá Khomeini voou de Paris para Teerã. Nos últimos 30 anos, as políticas no Oriente Médio e no mundo muçulmano tem sido, de muitas formas, uma luta entre as visões opostas deles.

Sadat argumentava que o futuro deve enterrar o passado e que árabes e muçulmanos devem construir seu futuro baseado na paz com Israel, integração com o Ocidente e o abraçar da modernidade. Khomeini argumentava que o passado deve enterrar o futuro e que os persas e muçulmanos devem enterrar seu futuro na hostilidade com Israel, se isolar do Ocidente e que a modernidade deve se subordinar a um Islã puritano.

Em 2009, a luta entre essas duas tendências pendeu para os sadatistas. O fato dos teocratas que governam o Irã terem sido obrigados a fraudar a eleição para permanecer no poder e terem reprimido à força a dissensão de milhões de iranianos -segundo o Comitê de Proteção aos Jornalistas, o Irã ultrapassou a China como principal encarcerador de jornalistas do mundo, com 41 atualmente atrás das grades- é o sinal mais visível disso. O incendiar pelo Taleban das escolas seculares que competem com suas mesquitas, e seu comércio de heroína para levantar dinheiro, também não são exatamente sinais de triunfo intelectual.

No mesmo dia em que o presidente Barack Obama falou ao mundo muçulmano da Universidade do Cairo, Osama Bin Laden divulgou uma longa declaração em sites islâmicos e na "Al-Jazeera". Como notou o especialista egípcio em Oriente Médio, Mamoun Fandy: "Obama derrotou Osama com as mãos nas costas. Pergunte a qualquer um sobre o conteúdo do discurso de Obama e a pessoa dirá. Pergunte a respeito do que Osama disse, e a maioria responderá: 'Ele fez um discurso?'"

Nas eleições de janeiro passado no Iraque, partidos nacionalistas e muçulmanos moderados derrotaram os partidos religiosos radicais e sectários, enquanto no Líbano, uma coalizão pró-Ocidente derrotou a liderada pelo Hizbollah.

Aqui no Paquistão, a reação contra o Taleban está aumentando entre a crescente classe média. Ela começou em março, quando um vídeo de celular de uma adolescente presa e espancada do lado de fora de sua casa, no Vale do Swat paquistanês, por um comandante taleban, se espalhou de forma viral pelo país. Em maio, o exército paquistanês iniciou uma ofensiva contra os militantes do Taleban que assumiram o controle de cidades-chave na Província da Fronteira Noroeste e pareciam estar se deslocando para a capital, Islamabad.

Eu acompanhei o almirante Mike Mullen, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, quando ele visitou um vasto, quente e empoeirado campo de refugiados em Jalozai, para onde cerca de 116 mil refugiados fugiram da Província da Fronteira Noroeste, enquanto o exército paquistanês entrava em suas cidades para esmagar o Taleban em uma operação popular.

"As pessoas estão totalmente contra eles, mas o Taleban não se importa", me disse um professor paquistanês, Abdul Jalil, 41 anos, enquanto fazia uma pausa na aula do alfabeto urdu para meninos em uma tenda abafada. "Eles são muito cruéis. Eles cortam a cabeça das pessoas."

Se ainda resta alguma energia aos radicais islâmicos, ela vem não do poder das ideias ou de exemplos de boa governança, mas sim do atiçar das rixas sectárias. No Afeganistão, o Taleban explora as queixas nacionalistas dos pashtuns, e no Iraque, os jihadistas sunitas extraem energia matando xiitas.

A única forma de realmente secar seu apoio, entretanto, é árabes e muçulmanos modernistas de fato implantarem ideias melhores, produzindo governança menos corrupta e mais consensual, com melhores escolas, mais oportunidades econômicas e uma visão do Islã que seja percebida como autêntica, porém abraçando a modernidade. É nisso que "nossos" aliados no Egito, Palestina, Iraque, Afeganistão e Paquistão têm consistentemente fracassado. Até que isso aconteça, os radicais islâmicos estarão falidos, mas não deixarão o mercado.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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