Brotos verdes na Palestina - Parte II

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Desde o colapso dos acordos de paz de Oslo, em 2000, e do show de horror e violência que se seguiu, houve apenas uma coisa a dizer sobre a Cisjordânia: ali nada muda, exceto para pior. Este já não é mais o caso, para minha surpresa.

Para os palestinos, há muito presos entre assentamentos israelenses em expansão e um exército de ocupação israelense, sujeitos ao desrespeito à lei em suas próprias cidades e à ineficácia de seus representantes políticos, a vida claramente começou a melhorar, graças a um novo círculo virtuoso: um policiamento palestino melhorado que levou a um maior investimento palestino e a um comércio que levou o exército israelense a desmantelar mais pontos de revista na Cisjordânia, o que promoveu mais viagens e comércio palestino.

Como a Cisjordânia hoje fica em grande parte escondida por um muro, os israelenses estão começando a descobrir pelos noticiários o que está acontecendo ali. No dia 31 de julho, muitos israelenses sem dúvida ficaram surpresos de ler no jornal Maariv esta citação de Omar Hashim, vice-diretor da Câmera de Comércio de Nablus, centro comercial da Cisjordânia: "Os comerciantes estão satisfeitos", disse Hashim. "Suas vendas estão subindo. Eles sentem a que vida está voltando ao normal. Há um forte otimismo."

Não se engane: os palestinos ainda querem o fim da ocupação israelense e que seu próprio Estado surja amanhã. Isso não vai acontecer. Mas, pela primeira vez desde Oslo, há uma dinâmica de segurança e economia surgindo na Cisjordânia que tem o potencial - o potencial - de dar aos palestinos pós-Yasser Arafat outra chance de construir uma autonomia de governo, militar e econômica que é pré-requisito para assegurar seu próprio Estado independente. Um parceiro de paz para Israel pode estar novamente se formando.

A chave para este renascimento foi o recrutamento, treinamento e emprego de quatro batalhões de Forças Palestinas de Segurança Nacional - uma medida encabeçada pelo presidente Mahmoud Abbas e o primeiro-ministro Salam Fayyad, da Autoridade Palestina. Treinados na Jordânia em um programa pago pelos EUA, três desses batalhões se espalharam em maio de 2008 e levaram ordem às principais cidades palestinas: Nablus, Jericó, Hebron, Ramallah, Jenin e Bethlehem.

Essas tropas foram calorosamente recebidas pelos moradores e substituíram soldados israelenses e gangues palestinas. Recentemente, as forças de segurança acabaram com uma célula do Hamas em Qalqilya e também sofreram baixas. A morte de combatentes do Hamas não gerou reações, mas a missa para os soldados mortos das forças armadas atraíram milhares de pessoas. Pela primeira vez, ouvi oficiais israelenses dizerem que essas novas tropas palestinas são profissionais de verdade.

O diretor do Ministério de Defesa israelense, general Gabi Ashkenazi, reforçou esse movimento derrubando quase dois terços dos 41 postos de revista que Israel montou em volta da Cisjordânia, muitos desde 2000, para reprimir os homens-bomba palestinos. Esses postos, onde os palestinos frequentemente tinham que esperar duas horas apenas para passar de uma cidade para outra e muitas vezes não podiam ir em seus próprios carros, tinham que ir de taxi em taxi, estrangulava o comércio palestino. Israel novamente está deixando os árabes israelenses irem em seus próprios carros à Cisjordânia nos sábados para fazer compras.

"Dá para sentir o movimento. Não é mais um problema ir de um ponto a outro para reuniões de trabalho e encontros sociais em Ramallah", disse Olfat Hammad, diretor do Centro Palestino de Política e Pesquisa, que mora em Nablus e trabalha em Ramallah. Nablus recentemente abriu seu primeiro multiplex "Cinema City", assim como uma loja de vários andares de móveis para um público principalmente israelense. Os preços de imóveis em Ramallah explodiram.

"Tive um aumento em vendas de 70%. As pessoas estão vindo das aldeias aqui perto e de outras cidades na Cisjordânia e de Israel", disse um proprietário de uma sapataria de Nablus, segundo o Maariv.

Homens e mulheres, contudo, não vivem só de vendas de sapatos. A única forma que os governantes palestinos que administram este espetáculo têm para manter sua legitimidade é eventualmente dar autoridade política, e não apenas de policiamento, à Cisjordânia - ou ao menos um mapa que indica que estão no caminho para isso.

"Nosso povo precisa ver que estamos governando e não somos simplesmente funcionários terceirizados da segurança israelense", disse Fayyad. Khalil Shikaki, que faz pesquisa de opinião na palestina, acrescentou que Abbas e Fayyad querem "transmitir que estão construindo um Estado palestino, não apenas oferecem segurança sem Estado". É por isso que "tem que haver progresso político junto com o progresso na segurança. Sem isso, ficam muito prejudicados".

Os EUA precisam nutrir este ciclo virtuoso: mais dinheiro para treinar soldados palestinos confiáveis, mais estímulo para Israel assumir o risco de eliminar postos de policiamento, mais crescimento econômico palestino e maior velocidade de negociações sobre os contornos de um Estado palestino na Cisjordânia. Hamas e Gaza podem vir mais tarde. Não devemos esperar por eles. Se construirmos, virão.

Tradução: Deborah Weinberg

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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