A terra 'Sem Serviço'

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Se você viajar por tempo suficiente e para lugares distantes - como de jato para Johannesburgo, de avião turbo-hélice para o norte de Botsuana e então com um monomotor para o Delta do Okavango - ainda assim você poderá encontrar. É aquele local especial que nos mapas medievais estaria hachurado e rotulado: "Aqui há dragões!" Mas na era pós-moderna, é um local onde meu BlackBerry, meu laptop e até meu telefone por satélite me deram a mesma mensagem: "Sem Serviço".
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Sim, Dorothy, em algum além do arco-íris, ainda há uma "Terra Sem Serviço" - onde as única "web" é a teia das aranhas, onde a única "rede" é que envolve sua cama para impedir que você seja picado por mosquitos, onde o único "sinal" ao amanhecer é o grito das águias pescadoras africanas e dos babuínos, onde o único GPS pertence à leoa medindo instintivamente a distância entre ela e o antílope que ela espera que será sua próxima refeição, e onde "conectividade" refere-se apenas à complexa cadeia alimentar que liga presas e predadores e sustenta este notável ecossistema.

Eu confesso, eu cheguei com aparelhos suficientes para me manter conectado apenas ao e-mail. Eu não estava à procura da Terra "Sem Serviço". Mas os administradores do Delta do Okavango e o Wilderness Trust - a organização sul-africana de preservação que realiza safáris para apoiar seu trabalho de preservação da natureza - leva o termo vida selvagem muito a sério. A equipe em nosso campo na ponta noroeste de Chief's Island, a maior ilha no delta, tinha um rádio, mas fora isso os únicos sons que podiam ser ouvidos eram o da orquestra sinfônica da Mãe Natureza, e as únicas paisagens, entardeceres e combinações de cores eram pintados pela mão de Deus.

Logo, goste ou não, vir para cá força você a pensar sobre as bênçãos e maldições da "conectividade". "Sem Serviço" é algo pelo qual os viajantes do mundo desenvolvido agora pagam para poder escapar da modernidade, com seus grilhões de e-mail. Para grande parte da África, entretanto, "Sem Serviço" é uma maldição - porque sem mais conectividade, sua população não pode escapar da pobreza. É possível haver um equilíbrio entre os dois?

Para o turista normalmente muito conectado, a primeira coisa que se nota na Terra Sem Serviço é quão rapidamente sua audição, olfato e visão melhoram em um ato de evolução darwiniana instantânea. É impressionante o quanto é possível ouvir quando não se tem um iPod em seus ouvidos ou quão longe é possível ver quando não se olha para uma tela de computador. Na natureza selvagem, a diferença entre ver e ouvir com acuidade é a diferença entre sobrevivência e extinção para os animais, a diferença entre uma experiência recompensadora e uma oportunidade perdida para fotógrafos e guias.

Foi nosso guia avistando um antílope semicomido no alto de uma árvore que atraiu nossa atenção para seu predador, um leopardo, que lambia calmamente suas patas perto dali e depois bocejava após sua refeição. O estômago do felino subia e descia, ainda digerindo sua presa. O leopardo tinha sufocado o antílope -ainda era possível ver as marcas em seu pescoço- e então o arrastou árvore acima, o segurando em sua mandíbula, o colocando perfeitamente no V entre dois galhos. E lá o antílope estava pendurado, com a cabeça de um lado, as patas do outro e metade de seu corpo devorado. O restante ficaria para o almoço de amanhã do leopardo, guardado no alto, onde as hienas não poderiam pegá-lo.

Mas apesar de manter o "Sem Serviço" na natureza selvagem ser essencial para o setor de ecoturismo africano, o restante do continente necessita desesperadamente de maior conectividade. Eric Cantor, que dirige o Laboratório de Aplicação da Fundação Grameen, em Uganda, explica que diferença imensa que celulares e acesso à Internet podem fazer para a população africana.

"Um produtor de banana antes limitado a aguardar pela passagem do caminhão do comprador por sua fazenda para vender a colheita da semana, agora usa um mercado por celular para avisar sobre a disponibilidade de seu estoque, para procurar compradores no mercado ou obter transporte por caminhão para um mercado maior", disse Cantor. "Eles também podem comparar os preços para obter maior poder de negociação. Adolescentes tímidos demais para perguntar aos pais sobre causas e sintomas de doenças sexualmente transmissíveis podem pesquisar as informações com privacidade e melhorar as consequências para sua própria saúde. Um agricultor sem dinheiro e que precisa de uma solução para a praga que está atacando sua plantação principal, pode encontrar uma que emprega materiais disponíveis localmente.

Botsuana, com aproximadamente o tamanho do Estado do Texas, felizmente conta com diamantes suficientes para poder dedicar 40% de seu território a reservas naturais. Sua conectividade urbana com o mercado global de diamantes permite que o país mantenha sua natureza selvagem "Sem Serviço". O Zimbábue, por outro lado, virtualmente se transformou em um país "Sem Serviço" após décadas de ditadura de Robert Mugabe e, em consequência, tanto seu povo quanto sua vida selvagem são espécies ameaçadas.

Quanto mais existirem países africanos onde "Sem Serviço" é uma opção, não um destino - uma oferta para os ecoturistas desfrutarem, não uma condição a ser superada pelos empreendedores - mais esperança este continente terá de melhorar ao mesmo tempo suas maravilhas naturais e as condições para sua população.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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