A tecnologia é americana, mas todas as fábricas estão no exterior

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

A Applied Materials é uma das empresas americanas mais importantes da quais você provavelmente nunca ouviu falar. Ela faz as máquinas que produzem os microchips que vão dentro do seu computador. O ramo de chips, entretanto, é volátil, de forma que em 2004, Mike Splinter, o presidente-executivo da Applied Materials, decidiu adicionar uma nova linha de negócios para explorar as capacidades de nanotecnologia da empresa -produzir as máquinas que produzem painéis solares.

Outro dia, Splinter me conduziu em um tour pelas instalações da empresa no Vale do Silício, culminando em uma visita à sua "sala de guerra", onde a Applied mantém uma interação global em tempo real com todas as 14 fábricas de painéis solares que ela construiu ao redor do mundo nos últimos dois anos. Eu só podia rir, porque chorar teria sido embaraçoso demais.

Nenhuma delas fica nos Estados Unidos.

Vamos ver: cinco estão na Alemanha, quatro estão na China, uma está na Espanha, uma está na Índia, outra está na Itália, uma em Taiwan e uma até mesmo em Abu Dhabi. Eu sugeri um novo slogan para a divisão solar da Applied Materials: "Inventada aqui, vendida lá".

O motivo para todos esses países estarem construindo indústrias de painéis solares atualmente é porque a maioria de seus governos implantou os três pré-requisitos para cultivar uma indústria de energia renovável: 1) qualquer empresa ou proprietário residencial pode gerar energia solar; 2) se decidirem fazê-lo, a companhia elétrica precisa conectá-los à rede; e 3) a companhia elétrica precisa comprar a energia por um período previsível e a um preço que seja claramente um bom negócio para a família ou empresa que colocar painéis solares em seu telhado.

Regulamentação, preço e certeza de conectividade, isto é o que a Alemanha implantou e o que explica por que a Alemanha atualmente gera quase metade da energia solar produzida no mundo e, como subproduto, está se transformando no centro mundial de pesquisa, engenharia, manufatura e instalação de energia solar. Com mais de 50 mil novos empregos, o setor de energia renovável na Alemanha só fica atrás no momento da indústria automotiva. Uma coisa que nunca existiu nos Estados Unidos - com nossos subsídios fragmentados, intermitentes, à energia solar - é certeza de preço, conectividade e regulamentação em uma base nacional.

É por isso que, apesar da demanda do consumidor por energia solar ter aumentando de forma incremental aqui, ela não é suficiente para alguém pedir à Applied Materials - a maior fabricante do mundo de equipamento solar - para que construa uma nova fábrica nos Estados Unidos. Assim, no momento, nossos subsídios federais e estaduais para instalação de sistemas solares estão em grande parte pagando o custo de importar painéis solares fabricados na China, por trabalhadores chineses, usando equipamento de manufatura de alta tecnologia inventado nos Estados Unidos.

Tenha um bom dia.

"Cerca de 95% de nossos negócios em energia solar estão fora dos Estados Unidos", disse Splinter. "Nosso maior cliente americano é uma empresa de propriedade alemã no Oregon. Nós vendemos para ela peças de equipamento."

Se você ler algum comentário antiverde hoje, você possivelmente verá referências desdenhosas a "empregos verdes". A frase geralmente vem entre aspas como se fosse algum tipo de fantasia liberal ou programa de bem-estar social escondido (e como se o carvão, petróleo e energia nuclear não recebessem todo tipo de subsídios). Tolice. Em 2008, mais silício foi consumido globalmente na produção de painéis solares do que em microchips, disse Splinter.

"Nós estamos vendo a industrialização da energia solar", ele acrescentou. "Nos últimos 12 meses, isso nos trouxe US$ 1,3 bilhão em receita. É difícil construir um negócio bilionário."

A Applied vende suas fábricas de painéis solares por US$ 200 milhões cada. Os painéis solares podem ser feitos a partir de muitos semicondutores diferentes, incluindo uma película fina aplicada sobre vidro com nanotecnologia e silício cristalino. Na Applied, a produção dessas máquinas complexas exige o melhor talento bem remunerado nos Estados Unidos -pessoas que podem trabalhar no cruzamento de química, física e nanotecnologia.

Se quisermos lançar uma indústria solar nos Estados Unidos, com grande sucesso, nós precisaremos oferecer o tipo de certeza a longo prazo que a Alemanha oferece, ou impor uma obrigação nacional para que nossas companhias elétricas gerem energia solar, como faz a China, ou fazer com que o governo construa fazendas solares gigantes, da forma como construiu a Barragem Hoover, e venda a eletricidade.

Ok, então você não acredita que o aquecimento global é real. Eu acredito, mas vamos presumir que não seja. Aqui está o que é incontestável. O mundo está a caminho de adicionar mais 2,5 bilhões de pessoas até 2050, e muitas aspirarão viver como os americanos, com um estilo de vida de alto consumo de energia. Nesse mundo, a energia renovável - onde o custo variável do seu combustível, sol ou vento, é zero - estará em alta demanda.

A China agora entende isso. Ela não mais acredita que pode chegar à prosperidade poluindo porque sufocaria até a morte. Esta é a mudança mais importante no mundo nos últimos 18 meses. A China decidiu que tecnologia limpa será a próxima grande indústria global e agora está criando um imenso mercado doméstico para energia solar e eólica, o que lhe dará uma grande plataforma de exportação.

Em outubro, a Applied abrirá o maior centro de pesquisa solar do mundo -em Xian, China. É preciso ir onde estão os clientes. Logo, se você gosta de importar petróleo da Arábia Saudita, você adorará importar painéis solares da China.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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