Homens de verdade taxam a gasolina

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Devemos aos franceses e a outros europeus um segundo olhar quando se trata de sua disposição a exercer o poder no mundo de hoje? Foi realmente justo alguns chamarem os franceses e outros europeus de "macacos rendidos comedores de queijo"? Está na hora de restaurar o termo "francesas" nas "batatas francesas" do refeitório do Congresso dos Estados Unidos, e parar de chamá-las de "batatas da liberdade"?

Por que estou fazendo essas perguntas profundas?

Porque estamos mais uma vez tendo um daqueles debates sobre grandes tropas: devemos mandar mais forças para o Afeganistão, e estamos prontos para fazer o que é necessário para "vencer" lá? Essa discussão será emoldurada de muitas maneiras, mas você pode vigiar esses batedores de peito: "dureza", "coragem", "persistência", "disposição para fazer o que for necessário para realizar grandes ganhos" - todas as qualidades que tendemos a ver em nós, com alguma justificativa, mas não nos europeus.
  • Lisa Poole/AP

    Friedman: "Quando se trata de aumentar os impostos sobre a gasolina, nossos políticos nos dizem que está simplesmente"fora de questão". Então eu repito: quem é realmente o durão?"



Mas nós somos realmente tão duros? Se a medida for a disposição para enviar tropas para o Iraque e o Afeganistão e considerar o uso da força contra o Irã, a resposta é sim. E devemos ser eternamente gratos aos americanos que se dispõem a ir lá travar essas lutas. Mas de outra maneira - quando se trata de fazer coisas que realmente enfraqueceriam as pessoas às quais estamos mandando nossos rapazes e moças combater - somos totalmente fracotes. Na verdade, somos os fracotes do mundo. Somos de fato tão fracotes que nossos políticos têm medo até de falar sobre como somos fracotes.

Como assim? A França gera hoje quase 80% de sua eletricidade em usinas nucleares e conseguiu lidar com todas as questões do lixo radioativo, sem qualquer problema ou pânico. E nós? Obtemos cerca de 20% e não conseguimos ou não quisemos construir uma nova usina nuclear desde o acidente de Three Mile Island em 1979, apesar de aquele acidente não ter causado mortes ou ferimentos em trabalhadores ou vizinhos da usina. Temos medo demais de armazenar lixo nuclear no fundo do monte Yucca em Nevada - totalmente seguro - em uma época em que os prefeitos franceses clamam por reatores em suas cidades para gerar empregos. Em suma, os franceses mantiveram o rumo sobre a energia nuclear limpa, apesar de Three Mile Island e Chernobyl, e nós corremos para nos esconder.

E que dizer da Dinamarca? A pequena e doce Dinamarca, que não faz mal a uma mosca, foi duramente atingida pelo embargo árabe ao petróleo em 1973. Na época a Dinamarca recebia todo o seu petróleo do Oriente Médio. E hoje? Zero. Por quê? Porque a Dinamarca se endureceu. Aplicou a si mesma um imposto sobre o carbono, aproximadamente US$ 5 por galão de gasolina, fez investimentos maciços em eficiência energética e em sistemas para gerar energia a partir do lixo, além de uma descoberta de petróleo no mar do Norte (cerca de 40% de suas necessidades).

E nós? Quando se trata de aumentar os impostos sobre a gasolina ou o carbono - em uma época perfeita como esta, quando os preços já estão baixos -, nossos políticos nos dizem que está simplesmente "fora de questão".

Então eu repito: quem é realmente o durão?

"A primeira regra da guerra é: domine o terreno elevado. Até o mais simples combatente taleban sabe disso", disse David Rothkopf, consultor de energia e autor de "Superclass". "O terreno elevado estratégico no mundo - seja no Oriente Médio ou diante de países difíceis como Rússia e Venezuela - é ser menos dependente do petróleo. No entanto, nós simplesmente nos recusamos a dominá-lo."

Segundo o economista de energia Phil Verleger, um imposto de US$ 1 sobre a gasolina e o diesel captaria cerca de US$ 140 bilhões por ano. Se eu tivesse esse dinheiro, dedicaria US$ 0,45 centavos para pagar o déficit e satisfazer os falcões da dívida, US$ 0,45 para pagar novos tratamentos de saúde e US$ 0,10 para amortecer o peso desse imposto sobre os pobres e os que precisam dirigir longas distâncias.

Esse imposto tornaria nossa economia mais saudável ao reduzir o déficit, estimular a indústria de energia renovável, reforçar o dólar através da redução das importações de petróleo e ajudaria a mudar o peso da saúde pública das empresas para o governo, de modo que nossas empresas possam competir melhor globalmente. Esse imposto tornaria nossa população mais saudável ao expandir a assistência à saúde e reduzir as emissões. Esse imposto tornaria nossa segurança nacional mais saudável ao reduzir nossa dependência de petróleo de países que desenharam um alvo nas nossas costas e ao aumentar nossa força sobre petroditadores como os do Irã, Rússia e Venezuela, encolhendo suas receitas de petróleo.

Em suma, ficaríamos fisicamente mais saudáveis, economicamente mais saudáveis e estrategicamente mais saudáveis. No entanto, surpreendentemente, mesmo falar sobre esse imposto está "fora de questão" em Washington. Não se pode falar nisso. Mas mandar o filho ou a filha de seu vizinho arriscar suas vidas no Afeganistão? Não há problema. Pode falar à vontade, bata no peito.

Não tenho certeza de qual é o número certo de tropas para o Afeganistão; preciso ouvir mais a respeito. Mas tenho certeza disto: algo está errado quando nosso país se dispõe a considerar gastar mais vidas e riquezas no Afeganistão, onde a vitória é altamente incerta, mas não pode sequer falar sobre um imposto de gasolina que é totalmente vitorioso - sem qualquer incerteza.

Então eu pergunto mais uma vez: quem são os verdadeiros macacos rendidos comedores de queijo nesse filme?

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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