Rachaduras na camarilha do Irã

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Pela primeira vez desde que o Irã começou a enriquecer urânio que poderia ser usado em uma arma nuclear, nós temos um brilho de esperança de uma solução diplomática para este problema - desde que não sejamos diplomáticos demais, desde que possamos fazer o regime iraniano entender que sanções econômicas duras são uma certeza e que uma ação militar por parte de Israel é uma possibilidade real.

O motivo para agora termos uma pequena chance - e realmente enfatizo pequena - de um acordo negociado é porque o programa nuclear do Irã sempre foi uma estratégia de sobrevivência para a camarilha do poder de Teerã: o que Karim Sadjadpour, um especialista em Irã do Fundo Carnegie, chama de "o pequeno cartel de clérigos linhas-duras e novos ricos da Guarda Revolucionária que dirige atualmente o Irã".
  • AFP - 08.abr.2008

    O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad visita as instalações de um usina nuclear de Natanz (Irã)



Após roubar as eleições de junho, este cartel governante agora está mais impopular e ilegítimo do que nunca. O presidente Mahmoud Ahmadinejad não consegue realizar um comício em Teerã sem ouvir cantos de "morte ao ditador" mais do que "morte à América". Como resultado, seu governo não teria condições de suportar sanções realmente duras que tornariam a vida no Irã não apenas politicamente miserável, mas ainda mais miserável economicamente - e sua camarilha ditatorial ainda mais impopular.

Eu não exageraria nisso porque este regime nunca se importou em infligir dor em seu povo, mas desta vez ele pode estar mais vulnerável. É por isso que podemos estar em uma posição de dizer ao regime iraniano que o aumentar de seus estoques de urânio pouco enriquecido fora do controle internacional, e enfrentar sanções econômicas reais, poderia ameaçar sua sobrevivência mais do que ajudar.

Em 1º de outubro, William Burns, o subsecretário de Estado americano, se juntará a diplomatas do Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China para conversações com o negociador nuclear chefe do Irã, para ver se algum acordo é possível.

Apesar de sanções reais serem necessárias para explorar este momento, elas não são suficientes. Nós também precisamos manter viva a perspectiva de que Israel poderia fazer alguma loucura. Eu não defendo uma ação militar israelense contra o Irã e espero que estejamos dizendo isso a Israel de modo privado.

Mas eu acredito que as autoridades americanas, particularmente o secretário de Defesa, Robert Gates, precisam parar de dizer isso publicamente. Gates é um articulador de poder inteligente. Ele sabe. Se for pedida uma opinião a qualquer funcionário do governo americano sobre se Israel deve ser autorizado a atacar as instalações nucleares do Irã, há apenas uma resposta certa. Citar o comentário de 2005 do ex-vice-presidente Dick Cheney, de que Israel "poderia decidir agir primeiro" para impedir o Irã de obter armas nucleares, e não dizer mais nada. Por que devemos tranquilizar o Irã?

Eu espero que, a esta altura, a repressão homicida ao movimento democrático popular no Irã pelo cartel de governo do país, financiado pelo petróleo, tenha removido as últimas escamas dos olhos daqueles observadores do Irã que pensam que este é apenas um regime pobre, incompreendido, que realmente deseja reparar suas relações com o Ocidente, e que apenas precisamos aprender a falar com ele de modo apropriado.

Este é um regime brutal, cínico, corrupto e antissemita, que explora a causa palestina e mantém deliberadamente uma postura hostil em relação ao Ocidente para justificar seu controle do poder. Um regime que trata seu próprio povo com tamanha força coerciva não abandonará seu programa nuclear apenas com conversa. Negociar com um regime desses sem a realidade de sanções e a possibilidade de força é como jogar beisebol sem um taco.

Os Estados Unidos estão sendo aconselhados a explorar uma variedade de sanções, incluindo encorajar a fuga de capital do Irã, portanto criando uma corrida à moeda iraniana. Também está considerando uma proibição global a empresas realizarem negócios com a indústria do petróleo do Irã, o que seria um duro golpe contra o regime, porque sua indústria do petróleo - que fornece grande parte da receita do governo- precisa de modernização e necessita de financiamento e ajuda tecnológica estrangeira.

Ao melhorar as relações com a Rússia, o presidente Barack Obama fez um bom trabalho em aumentar sua força frente ao Irã. Mas com o início das negociações, há outra dimensão que temos que manter em mente: as autoridades de Obama querem ser cuidadosas em não dizer que só se importam com um acordo que neutralize as armas nucleares do Irã e, se obtivermos isso, estaremos satisfeitos com aqueles que estão no poder em Teerã. Isso seria um golpe contra os democratas iranianos. Isso será difícil.

"O governo Obama deve conciliar como negociar com um regime em desgraça, que apresenta desafios urgentes de segurança nacional, e ao mesmo tempo não trair um movimento democrático cujo sucesso só teria implicações enormemente positivas para os Estados Unidos", disse Sadjadpour.

"Se negligenciarmos sermos duros em relação aos direitos humanos", ele acrescentou, "nossa mensagem ao povo iraniano será: 'Nós não nos importamos com vocês. Nós só nos importamos com as armas nucleares', No final, é preciso que os próprios iranianos mudem sua história. Nós não podemos querer mais do que eles. Mas deve ser um imperativo da política externa americana não fazer nada que possa atrapalhar o sucesso do movimento verde ou alterar sua trajetória. Nós não podemos esquecer que o problema que temos com o Irã tem mais a ver com o caráter do seu regime do que com suas ambições nucleares".

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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