Para onde "nós" fomos?

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Detesto escrever sobre isto, mas realmente já vi essa cena antes e é de fato perturbadora.

Estive em Israel entrevistando o primeiro-ministro Yitzhak Rabin pouco antes de ele ser assassinado, em 1995. Tomamos uma cerveja em seu gabinete. Ele precisava de uma. Lembro-me do ambiente feio em Israel na época - um clima em que colonos e políticos de extrema-direita faziam o possível para deslegitimar Rabin, que estava comprometido a trocar terra por paz como parte dos acordos de Oslo. Eles questionavam sua autoridade. Acusavam-no de traição. Criaram imagens que o mostravam como um oficial das SS nazistas e gritavam ameaças de morte em manifestações. Seus adversários políticos consentiam com tudo.

  • Manuel Balce Ceneta/AP - 26.set.2009

    Obama está tendo sua legitimidade atacada por uma campanha concertada da direita. O que deve mudar são pessoas que cruzam a linha entre criticar o presidente e incentivar o impensável



E ao fazê-lo criaram um ambiente político venenoso que foi interpretado por um colono judeu de extrema-direita como uma licença para matar Rabin - ele deve ter ouvido "Deus estará do seu lado" - e então fez isso.

Outros já comentaram essa analogia, mas eu quero acrescentar minha voz porque os paralelos entre Israel na época e os EUA hoje fazem virar meu estômago: não tenho problemas com qualquer das críticas substanciais ao presidente Barack Obama, da direita ou da esquerda. Mas está acontecendo uma coisa muito perigosa. As críticas da extrema-direita começaram a tocar na deslegitimação e a criar o mesmo tipo de clima que existia em Israel na véspera do assassinato de Rabin.

Que tipo de loucura é essa que leva alguém a criar uma pesquisa no Facebook perguntando "Obama deve ser morto?" As opções eram: "Não, Talvez, Sim e Sim se ele cortar meu seguro-saúde". O Serviço Secreto está investigando. Espero que coloquem o imbecil na cadeia e joguem fora as chaves, porque isso é exatamente o que foi feito com Rabin.

Mesmo que você não se preocupe que alguém possa tirar desses ataques violentos uma licença para tentar ferir o presidente, você deve se preocupar com o que está acontecendo na política americana de modo geral.

Nossos líderes, e até o presidente, não podem mais pronunciar a palavra "nós" de cara limpa. Não existe mais "nós" na política americana em um momento em que "nós" temos esses problemas enormes - o déficit, a recessão, a assistência à saúde, a mudança climática e as guerras no Iraque e no Afeganistão - que "nós" só poderemos administrar, quanto mais solucionar, se houver um "nós" coletivo em ação.

Às vezes me pergunto se George H. W. Bush, o presidente "41", será lembrado como nosso último presidente "legítimo". A direita quis destituir Bill Clinton e o perseguiu desde o primeiro dia com o falso "escândalo" Whitewater. George W. Bush foi eleito sob uma nuvem por causa da confusa votação na Flórida, e seus críticos da esquerda nunca o deixaram esquecer isso.

E hoje Obama está tendo sua legitimidade atacada por uma campanha concertada da direita. Eles estão usando tudo, desde acusações de que ele é um "socialista" de armário, a chamá-lo de "mentiroso" no meio de uma sessão conjunta do Congresso e até fabricar dúvidas sobre se ele nasceu nos EUA e se é mesmo cidadão. Esses ataques não vêm apenas da margem. Agora eles vêm de Lou Dobbs na CNN e de membros da Câmara dos Deputados.

Mais uma vez, ataquem as políticas do homem e até seu caráter o quanto quiserem. Sei que a política é um negócio duro. Mas se destruirmos a legitimidade de mais um presidente para liderar ou unir o país para o que a maioria dos americanos mais quer neste momento - a construção de uma nação em casa -, teremos sérios problemas. Não podemos passar 24 anos sem um presidente legítimo - não sem sermos inundados pelos problemas que acabaremos adiando porque não podemos abordá-los racionalmente.

O sistema político americano foi, como diz o ditado, "criado por gênios para que pudesse ser movido por idiotas". Mas um coquetel de tendências políticas e tecnológicas convergiu na última década e possibilita que idiotas de todas as cores políticas dominem e paralisem o gênio de nosso sistema.

Esses fatores são: o excesso maluco de dinheiro na política; a manipulação de distritos políticos, tornando-os permanentemente republicanos ou democratas e eliminando o centro político; um ciclo de notícias 24 horas por dia que torna toda política uma batalha diária de táticas que superam o pensamento estratégico; e uma blogosfera que na melhor das hipóteses enriquece nossos debates, acrescentando novas contestações ao establishment, e na pior delas vulgariza nossos debates em um nível totalmente diferente, dando um novo poder a prevaricadores anônimos de enviar mentiras para todo o mundo. Finalmente, acima de tudo, hoje temos uma campanha presidencial permanente que incentiva todo o partidarismo, o tempo todo, entre nossos principais políticos.

Eu afirmaria que, juntas, essas mudanças compõem uma diferença de grau que é uma diferença de tipo - um tipo diferente de cenário político americano que me faz imaginar se ainda podemos discutir seriamente questões sérias e tomar decisões com base no interesse nacional.

Não podemos mudar isso da noite para o dia, mas o que podemos e devemos mudar são as pessoas que cruzam a linha entre criticar o presidente e tacitamente incentivar o impensável e o imperdoável.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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