As nossas três bombas

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Eu sou um baby boomer (membro da geração nascida entre 1946 e 1964, período de grande crescimento demográfico nos Estados Unidos) de 56 anos de idade, e, ao olhar atualmente em torno de mim fica muito claro que as coisas foram mais fáceis para a minha geração: nós crescemos à sombra de apenas uma bomba - a bomba nuclear. Ou seja, na nossa época, era como se houvesse apenas uma grande ameaça capaz de desencadear uma alteração não linear, de 180 graus, na trajetória das nossas vidas: a possibilidade de os soviéticos nos atingirem com uma bomba nuclear. As minhas filhas não tiveram tanta sorte.

A juventude de hoje está crescendo à sombra de três bombas - e qualquer uma delas pode explodir a qualquer momento e desencadear uma verdadeira mudança não linear e radical nas trajetórias das nossas vidas.

A primeira, é claro, ainda é a ameaça nuclear, que, para a minha geração, centrava-se em apenas um inimigo aparentemente racional, a União Soviética, com o qual nós compartilhávamos uma doutrina de destruição mútua assegurada. Atualmente, a ameaça nuclear pode vir de todos os tipos de Estados ou terroristas, incluindo jihadistas suicidas para os quais a garantia de destruição constitui-se em um prazer, e não em um elemento de dissuasão.

Mas hoje em dia existem duas outras bombas que pairam sobre as cabeças dos nossos filhos: a bomba da dívida e a bomba climática.

À medida que continuamos a jogar carbono na atmosfera em níveis sem precedentes, nós não temos como saber em que instante uma próxima molécula de carbono emitida alterará algum ecossistema e desencadeará um evento climático não linear - como o derretimento da tundra siberiana e a liberação do seu metano, ou a secagem Rio Amazonas ou o derretimento do gelo oceânico que cobre o Polo Norte no verão. E quando um ecossistema entra em colapso, isso pode gerar mudanças imprevisíveis em outros ecossistemas, em um processo capaz de alterar todo o planeta.

Isso também é verdade em relação à bomba da dívida dos Estados Unidos.
Para recuperarmo-nos da Grande Recessão, teríamos que nos endividar ainda mais. Basta apenas examinar o atual preço recorde do ouro, em um período de deflação, para saber que muita gente está preocupada com a possibilidade de que o nosso próximo dólar de dívida - desequilibrada pelas reduções de gastos ou novos rendas com impostos - gere um movimento não linear de afastamento em relação ao dólar, torpedeando a moeda norte-americana.

Se as pessoas perderem a confiança no dólar, poderemos entrar em um ciclo de retroalimentação, da mesma forma que ocorre com o clima, no qual o dólar em queda empurraria para cima as taxas de juros, que elevariam o custo de longo prazo do serviço da nossa já maciça dívida, que aumentaria as projeções de déficit, que enfraqueceria ainda mais o dólar. Se o mundo não se dispuser a financiar os nossos déficits, exceto a taxas de juros muito mais elevadas, isso sem dúvida reduzirá a capacidade do nosso governo de fazer investimentos públicos e, com certeza, também reduzirá o padrão de vida dos nossos filhos.

Infelizmente, um número excessivo de conservadores, que jamais arriscar-se-iam a emitir uma dívida tão grande a ponto de liquidar o dólar, afirmam alegremente em relação ao carbono: "Emitam quanto quiserem. Não se preocupem, Tudo isso é uma fraude". E uma quantidade também excessiva de liberais, que jamais arriscar-se-iam a emitir um excesso de carbono, diriam sobre a emissão de mais dívida: "Gastem. Temos muita margem de manobra para estímulo sem que coloquemos o dólar em risco".

Devido a essa cisão, o nosso governo não tem sido capaz de implementar políticas de longo prazo necessárias para nos proteger da detonação da nossa crescente bomba da dívida e nem da bomba climática. Assim sendo, estamos de fato colocando o futuro dos nossos filhos nas mãos das forças mais impiedosas do planeta: o Mercado e a Mãe Natureza.

Conforme gosta de dizer o ambientalista Rob Watson, "A Mãe Natureza consiste apenas de química, biologia e física". É isso essencialmente que ela é. Não dá para trapaceá-la, nem convencê-la com palavras. Não é possível dizer a ela, "Ei, Mãe Natureza, estamos passando por uma recessão terrível. Será que você poderia tirar umas férias de um ano?".

Não, ela fará tudo o que for ditado pela química, a biologia e a física, com base na quantidade de carbono que nós jogarmos na atmosfera. E Watson gosta de acrescentar: "A Mãe Natureza sempre faz a jogada final, e é sempre uma jogada que vale mil pontos".

O mesmo vale para o mercado. O mercado é apenas uma foto tirada de segundo a segundo do equilíbrio entre ganância e medo. Não é possível também convencê-lo com conversa. E nunca se sabe quando esse equilíbrio entre ganância e medo em relação ao dólar despencará para o lado do medo de uma forma não linear.

É por isso que eu fiquei encorajado ao ver o liberal Centro para o Progresso Norte-americano declarar na semana passada que, embora o estímulo seja vital para a recuperação da nossa economia, o tamanho dos déficits orçamentários projetados exige que nós comecemos também a pensar sobre aumentos de impostos de base ampla e reduções de alguns gastos e programas sociais apoiados pelos liberais. Eu fico igualmente encorajado ao ver republicanos como o governador Arnold Schwarzenegger rogando ao seu partido que comece a levar a sério a questão climática.

Mas nós precisamos também agir. Se não fizermos isso, deixaremos os nossos filhos à mercê do Mercado e da Mãe Natureza, que decidirão os seus futuros.

Este momento me faz lembrar de uma imagem que John Holdren, o assessor científico do presidente, utiliza ao discutir a ameaça da alteração climática, mas ela também aplica-se ao dólar: "Estamos dirigindo um carro com os freios ruins em meio a uma neblina e em rota de colisão com uma montanha. Nós sabemos com certeza que a montanha está lá na frente. Só não sabemos exatamente onde. A prudência sugeriria que nós começássemos a frear".

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

UOL Cursos Online

Todos os cursos