Não bom o bastante

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Se o presidente Barack Obama pode encontrar uma forma de equilibrar o número preciso de tropas que estabilizarão o Afeganistão e o Paquistão, sem colocar os Estados Unidos em um Vietnã ali, então ele de fato merece um Prêmio Nobel -de física.

Eu não tenho problema com o fato do presidente não estar decidindo isso de forma apressada. Ele e nós conviveremos com esta decisão por muito tempo. Da minha parte, eu gostaria que houvesse menos conversa a respeito de quantos soldados a mais enviaremos e um foco maior em que tipo de governo afegão nós temos como parceiro.

Porque quando você está montando uma campanha de contrainsurreição, o governo local é a ponte crítica entre suas tropas e suas metas. Se aquele governo é podre, todo o empreendimento está condenado.

Monitores eleitorais independentes sugerem que até um terço dos votos dados na eleição de 20 de agosto está manchado e que o presidente Hamid Karzai aparentemente promoveu uma imensa fraude para permanecer no poder. Ainda assim, ele é supostamente a ponte entre nosso aumento de tropas e nossa meta de estabilizar o Afeganistão. Sem chance.

Eu entendo o que está em jogo na estabilização do Afeganistão e do Paquistão. O general Stanley McChrystal, nosso maior comandante lá e que está pedindo milhares de soldados adicionais, não está errado quando diz que muita coisa ruim aconteceria em caso da perda do Afeganistão para o Taleban. Mas eu me pergunto: como termos sucesso com um governo tão manchado quanto o de nosso parceiro?

Eu sei que Thomas Jefferson não estava na cédula. Mas há uma imensa diferença entre "bom o bastante" e disfuncional e corrupto. Independente do que possamos achar, há muitos afegãos que consideram nossos parceiros, Karzai e sua equipe, péssimos.

Por isso não basta simplesmente enviarmos mais tropas. Se vamos renovar nosso compromisso no Afeganistão, nós temos que exibir visivelmente ao povo afegão que esperamos um tipo diferente de governança de Karzai, ou de quem quer que esteja no governo, e nos recusarmos a prosseguir sem isso. Não precisa ser uma Suíça, mas precisa ser bom o bastante -isto é, um governo sob o qual os afegãos estejam dispostos a viver. Sem isso, o envio de mais tropas apenas adiará a derrota.

Eu não sei ao certo se Washington entende o quanto a insurreição liderada pelo Taleban é cada vez mais uma insurreição contra o comportamento do governo Karzai -não contra a religião ou civilização de seus parceiros internacionais. E muitos afegãos agora nos culpam por termos instalado e mantido esse governo.

Karzai já está tentando minar um maior escrutínio internacional dessa eleição fraudulenta e buscando evitar um segundo turno. Na segunda-feira, seu aliado na Comissão de Queixas Eleitorais, Mustafa Barakzai, renunciou, alegando "interferência estrangeira". Isso é Karzai tentando voltar sua população contra nós, para nos impedir de limpar uma eleição que ele contaminou.

Conversando com especialistas em Afeganistão em Cabul, Washington e Berlim, um quadro está surgindo: o governo Karzai tem muito em comum como uma família mafiosa. Enquanto um governo "normal" obtém receita das pessoas -na forma de impostos- e então a distribui para suas instituições locais e regionais na forma de verbas orçamentárias, este governo afegão opera de forma oposta. O dinheiro flui do interior para o escalão superior na forma de pagamentos para os gabinetes comprados ou "presentes" para camaradas.

O que flui de Cabul, dizem os especialistas, é permissão para subtração livre, proteção em caso de processos e punição em caso da autoridade se opor ao sistema ou sair da linha. No "Mundo Karzai", ao que parece, os cargos são vendidos (para pessoas que as compram visando ter lucro) ou concedidos a amigos, ou dados para comprar rivais.

Nós temos que ser muito cuidadosos em não sermos vistos apoiando este sistema.

Enquanto visitava o Afeganistão em julho passado, eu encontrei um governador-chave de província que toda autoridade americana me disse ser o melhor e mais honesto no Afeganistão -e então, elas acrescentaram: "Nós temos que enfrentar Karzai todo dia para impedir que ele seja demitido". É o que acontece com aqueles que contrariam o sistema de Karzai.

Isso é loucura. Nós temos sido educados demais e preocupados demais em não parecermos um poder colonial ao lidarmos com Karzai. Eu não enviaria um soldado a mais para lá até que esse sujeito, se de fato conquistar a presidência, adote passos visíveis para limpar seu governo de modo a ser respeitado pelo povo afegão.

Se Karzai disser não, então só há uma resposta: "Você está por conta própria, colega. Tenha uma boa vida com o Taleban. Nós não podemos e nem iremos dar mais sangue e tesouro americanos a um governo que se comporta como uma família da Máfia. Se você não acha que partiremos -veja isso".(Som dos helicópteros.)

Então, por favor, me poupe dos sermões a respeito de quão importantes são o Afeganistão e o Paquistão hoje. Eu entendo o que está em jogo. Mas não podemos querer um Afeganistão mais decente do que o próprio presidente do país. Se o fizermos, nós não teremos um parceiro local real que será capaz de manter a fidelidade das pessoas, e não teremos sucesso -seja com mais tropas, mais aeronaves não-tripuladas ou mais dinheiro.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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