De olho no prêmio

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Bagdá, 25 de agosto de 2012. O presidente Barack Obama voou hoje para Bagdá na sua viagem de final de mandato para enfatizar os sucessos da política externa dos Estados Unidos. Em um momento em que as negociações árabe-israelenses continuam estagnadas e o Afeganistão continua lembrando um atoleiro, Obama enalteceu o fim pacífico da presença de tropas de combate norte-americanas no Iraque como a sua única realização no Oriente Médio.

Falando diante de autoridades iraquianas e norte-americanas, e tendo atrás de si uma faixa com a frase "Missão Realmente Cumprida", escrita em árabe e inglês, Obama assumiu o crédito por ajudar o Iraque a alcançar um fim decente - embora extremamente caro - para a guerra iniciada pelo presidente Bush. Assessores disseram que Obama enfatizaria o progresso no Iraque durante a sua campanha pela reeleição.
  • Pablo Martinez Monsivais/AP

    Friedman: Será que Obama poderá dizer em
    2012 que cumpriu sua missão no Iraque?



Será que poderemos de fato ler uma matéria jornalística como esta daqui a três anos? Eu não apostaria nisto. Mas também não afirmaria que não.
Seis anos após a invasão norte-americana, o Iraque continua enervando e atormentando. Observar a política iraquiana é como ver um equilibrista em uma corda bamba passando sobre uma caverna perigosa. A cada passo parece que ele irá cair no abismo, porém, de alguma maneira, ele continua seguindo cambaleante para frente. Nada é fácil quando se tenta transformar um país brutalizado por três décadas de ditadura cruel. É um passo, uma eleição, uma nova lei de cada vez. Cada passo é uma luta. E cada passo é crucial.

O próximo passo é particularmente importante, e é por isso que não podemos deixar que o Afeganistão distraia a atenção dos diplomatas norte-americanos voltada para o Iraque. Lembrem-se: transformemos o Iraque e isso terá um impacto sobre todo o mundo árabe-muçulmano.
Modifiquemos o Afeganistão e isto modificará apenas o Afeganistão.

A equipe de Obama precisa especificamente garantir que os políticos iraquianos que brigam entre si não adiem as próximas eleições, marcadas para janeiro, nem as realizem com base no sistema de "lista fechada" de 2005, que é dominado pelos líderes partidários. Precisamos insistir, com todo o nosso poder de influência, em que seja adotada uma "lista aberta", o que cria mais espaço para o surgimento de caras novas no cenário politico ao permitir que os iraquianos votem em candidatos individuais, e não apenas em partidos. É isso que o líder espiritual iraquiano, grande-aiatolá Ali al-Sistani, está também exigindo. Esse seria um sistema muito mais transparente.

Se conseguirmos obter uma lista de votação aberta, o próximo grande passo será a emergência de partidos iraquianos nessa eleição que disputarão os cargos com base em coalizões não sectárias - nas quais sunitas, xiitas e curdos disputariam juntos. Isso seria algo significativo: o Iraque é um microcosmo de todo o Oriente Médio, e se as facções iraquianas puderem descobrir como governar a si próprias - sem a presença de um ditador de punho de ferro -, a democracia será possível em toda a região.

O que exaspera é o fato de o primeiro-ministro iraquiano, Nouri Kamal al-Maliki, que emergiu do partido xiita Dawa, ter decidido disputar desta vez com aquilo que ele chama de "A Coalizão do Estado da Lei", uma aliança nacionalista pan-iraquiana de cerca de 40 partidos políticos, incluindo líderes tribais sunitas e outras minorias.

Al-Maliki esteve em Washington na semana passada, e eu o entrevistei no Hotel Willard, basicamente para fazer perguntas sobre o seu novo partido. "O Iraque não pode ser governado por apenas uma cor, religião ou facção", explicou ele. "Nós vimos claramente que o sectarismo e o agrupamento étnico ameaçam a nossa unidade nacional. Portanto, acredito que deveríamos aglutinar todas essas cores diferentes e consolidar o Iraque como um país construído segundo o império da lei, a igualdade e a cidadania. O povo iraquiano nos encorajou. Eles desejam isso. Outros partidos também estão se organizando de forma similar. Ninguém mais pode disputar as eleições como um bloco puramente sectário... A nossa experiência é bastante única nesta região".

Sim, sem dúvida. Os iranianos desejam que os partidos xiitas pró-Teerã dominem o Iraque. Além disso, o ditador iraniano detesta a ideia de que o "inferior" Iraque realize eleições reais enquanto o Irã limita o pleito a candidatos pré-selecionados e a seguir frauda os resultados. A maioria dos líderes árabes teme que qualquer democracia multisectária real firme raízes nas vizinhanças.

"A coisa mais perigosa, que ameaçaria os outros, seria se de fato tivéssemos sucesso na construção de um Estado democrático no Iraque", disse al-Maliki, cujo país conta atualmente com cerca de cem jornais. "Os países cujos regimes são construídos com base em um único partido, facção ou grupo étnico sentir-se-iam ameaçados".

Al-Maliki sabe que isso não será fácil: "Saddam governou durante mais de 35 anos", disse ele. "Precisamos de uma ou duas gerações criadas em um ambiente de democracia e respeito aos direitos humanos para que nos livremos dessa orientação".

Se esta eleição for realizada, ela ainda ocorrerá com a presença de tropas dos Estados Unidos no Iraque. O maior prêmio e e o maior desafio surgirão quatro anos depois, caso o Iraque for capaz de fazer uma eleição na qual coalizões multiétnicas baseada em ideias diferentes de governança - e não em sectarismo - disputem o poder, e este seja passado de um governo para outro sem qualquer envolvimento militar dos Estados Unidos. Essa seria a primeira vez na história árabe moderna em que verdadeiras coalizões multisectárias disputariam, e cederiam, o poder sem interferência estrangeira. Isso sacudiria a região inteira.

Sim, concentremo-nos no Afeganistão. Mas não podemos nos esquecer de que algo muito importante - mas bastante frágil e experimental - está ocorrendo no Iraque, e que nós e os nossos aliados ainda precisamos ajudar isso a se concretizar.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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