Mais poesia, por favor

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Cada vez mais, ultimamente, as pessoas me perguntam: o que você acha que o presidente Barack Obama realmente pensa a respeito desse ou daquele assunto? Eu considero essa pergunta estranha. Como é que um presidente que tratou de tantas questões de peso, com políticas muito específicas - e até mesmo recebeu um Prêmio Nobel por todas as esperanças que reacendeu - ainda conta com tantas pessoas que perguntam no que ele realmente acredita?

Eu não acho que Obama tenha um problema de comunicação. Ele já fez muitos discursos e deu muitas entrevistas explicando amplamente suas políticas e justificando a necessidade delas. Em vez isso, ele tem um problema de "narrativa".
  • Manuel Balce Ceneta/AP - 26.set.2009

    Thomas Friedman: "Eu sempre acreditei que o presidente Obama foi eleito porque a maioria dos americanos teme que os Estados Unidos estão se tornando uma potência em declínio"

Ele não amarrou todos seus programas a uma única narrativa, que mostre os elos entre suas políticas de saúde, bancárias, econômicas, climáticas, energéticas, de educação e relações exteriores. Essa narrativa permitiria a cada questão e cada eleitorado reforçar um ao outro e evocar o tipo de empolgação popular que o elegeu.

Sem isso, entretanto, a eloquência do presidente, sua habilidade única de inspirar as pessoas a se levantarem e trabalhar por ele, foi minimizada ou perdida na mata cerrada dos detalhes tecnocráticos. Suas políticas ousadas mas discretas estão começando a parecer um plano de trabalho que se arrasta, ou busca infinitamente um meio-termo, para chegar ao fim apenas por chegar ao fim - não por serem os blocos de construção de um grande projeto nacional.

E qual é esse projeto? Qual é a narrativa? Simplesmente, uma construção de nação em casa. É uma construção de nação nos Estados Unidos.

Eu sempre acreditei que Obama foi eleito porque a maioria dos americanos teme que estamos nos tornando uma potência em declínio. Tudo, de nossas escolas aos nossos sistemas de energia e transportes está caindo aos pedaços e precisando de reinvenção e revigoração. E o que as pessoas mais querem de Washington hoje é construção de nação em casa.

Muitas pessoas, incluindo os conservadores, votaram em Obama porque, em seus corações, eles sentiram que ele podia nos unir em apoio a este projeto melhor do que qualquer outro candidato. Muitos são o que eu chamaria de "centristas Warren Buffett". Eles não são bilionários, mas são pessoas que acreditam no que Buffett diz, que tudo o que ele conseguiu na vida se deve principalmente ao fato de ter nascido neste país - os Estados Unidos da América - nesta época, com todas as suas vantagens e oportunidades.

Eu acredito nisso. E acredito que sem uma América forte - o que, no seu melhor, pode fornecer mais bens e benevolências aos seus próprios cidadãos e ao mundo do que qualquer outro país - nossos filhos e muitos outros ao redor do mundo não terão essas oportunidades.

Eu estou convencido de que este tipo de construção de nação em casa é exatamente o que Obama está tentando fazer e deveria ser seu chamado: nós precisamos de atendimento de saúde universal porque fortaleceria nosso tecido social e permitiria às nossas empresas competir melhor globalmente.

Nós precisamos melhorar nossas escolas porque nenhuma criança nos Estados Unidos do século 21 deve ficar para trás e porque não podemos competir pelos melhores novos empregos sem fazê-lo. Nós precisamos de uma economia mais verde, não apenas para minimizar a mudança climática, mas porque o crescimento mundial de 6,7 bilhões para 9,2 bilhões de pessoas até 2050 exigirá mais e mais energia limpa a égua, e o país que desenvolver as energias mais limpas terá a maior segurança em energia, segurança nacional, empresas inovadoras e respeito global.

Mas para cumprir esta agenda é necessário um público motivado e um espírito de sacrifício compartilhado. É onde a narrativa se torna vital. As pessoas precisam sentir profundamente porque este projeto de construção de nação, com todos seus fios variados, é tão importante - porque vale a pena o sacrifício. Um motivo para os independentes e conservadores que votaram em Obama terem sido facilmente induzidos contra ele pela "Fox News" e pelas pessoas que o rotulam de "socialista" é porque ele não expressou o verdadeiro empreendimento de construção de nação, realmente patriótico, no qual está envolvido.

"A eleição de Obama marcou uma mudança - da política que celebrava os interesses privados para uma política que reconhece a necessidade de um governo eficaz e propósitos públicos maiores. Do outro lado do espectro político, as pessoas entendem que a reforma nacional exige grande ambição e um tipo melhor de político", disse o teórico político de Harvard, Michael Sandel, autor de novo best seller -"Justice: What's the Right Thing to Do?"- que pede pela elevação de nosso discurso público.

Mas para cumprir essa promessa, acrescentou Sandel, Obama precisa trazer o idealismo cívico de sua campanha para sua presidência. Ele precisa de uma narrativa que faça com que os mesmos eleitores que o elegeram pressionem a favor de sua agenda ambiciosa - contra todas as forças da inércia e da ganância privada.

"Não é possível construir uma nação sem um sacrifício compartilhado", disse Sandel, "e não se pode inspirar um sacrifício compartilhado sem uma narrativa que apele ao bem comum - uma narrativa que nos desafie a sermos cidadãos engajados em um empreendimento comum, não apenas consumidores à procura do melhor negócio para nós. Obama precisa energizar a prosa de sua presidência recapturando a poesia de sua campanha".

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

UOL Cursos Online

Todos os cursos