O Afeganistão, a Amazônia e a China

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

"Um milhão de dólares?".

A pergunta foi feita com olhos arregalados e uma voz de incredulidade. O indivíduo que a fez foi Antônio Waldez Goes da Silva, o governador do Estado brasileiro do Amapá, que fica na Amazônia e que conta com o maior parque nacional do mundo. Eu acabara de mostrar a Waldez Goes um artigo recente do "The Hill", o jornal do congresso dos Estados Unidos, que informa que o custo total de manutenção de um soldado norte-americano no Afeganistão por um ano é de US$ 1 milhão (R$ 1,7 milhão).

"E se nós tirássemos apenas um soldado do Afeganistão e lhe déssemos o dinheiro?", eu perguntei ao governador. O que você compraria com essa quantia? Waldez Goes respondeu: "Se você retirasse três soldados de lá, o dinheiro economizado seria suficiente para manter a Universidade Estadual do Amapá funcionando por um ano, de forma que 1.400 alunos poderiam cursar disciplinas sobre desenvolvimento sustentável na Amazônia.

Ok, eu sei. Examinar um orçamento de guerra e assumir que, se o dinheiro não fosse gasto em combate, ele seria destinado a escolas e parques, é algo meio enganoso. E nós temos inimigos reais. Algumas guerras precisam ser travadas, não importa o custo. Mas tais comparações são um lembrete útil de que o nosso debate sobre o Afeganistão não está ocorrendo em um vácuo. Nós teremos que fazer concessões, e atualmente existem outros projetos extremamente importantes necessitando de verbas, conforme o meu colega Nick Kristof observou em relação ao sistema de saúde.

Bem, se os Estados Unidos assumissem a tarefa prioritária de resolver os problemas da Ásia Central, talvez, digamos, a China, poderia ajudar a arcar com os custos de salvar o que restou da Amazônia e das outras grandes florestas tropicais do planeta. Será que o presidente Barack Obama poderia apresentar esta ideia em Pequim?

Um grupo de trabalho intergovernamental para salvar as florestas tropicais calcula que com cerca de US$ 30 bilhões (R$ 51,3 bilhões) nós poderíamos reduzir em 25% o desmatamento em países como o Brasil, a Indonésia e o Congo até 2015. Depois disso, o financiamento advindo dos mercados globais de carbono, mais as reservas desses próprios países, poderiam salvar grande parte do restante. Atualmente a China possui US$ 2,2 trilhões (R$ 3,8 trilhões) em reservas. O que acha disto, Pequim? Por que você não se apresenta e fornece alguns benefícios públicos para o mundo pelo menos uma vez - não porque teria um benefício direto com isso, mas apenas porque tal iniciativa tornaria o mundo um lugar melhor para todos?

Sem dúvidas os Estados Unidos ainda precisariam liderar tais iniciativas. Mas a era de uma China que tira vantagem de tudo sem pagar um centavo precisa acabar. A China deveria pagar a sua parcela justa - e mais -, já que ela se beneficia tanto quanto os Estados Unidos, a Europa e o Japão. De fato, a Fundação da Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, como as florestas tropicais vivas são enormes reservas de carbono - que é liberado quando nós cortamos as árvores - , se nós simplesmente parássemos de desmatar, obteríamos uma grande parcela da redução de emissões de carbono da qual o mundo necessita até 2020.

"E países em desenvolvimento ricos em florestas, como o Brasil, estão atualmente prontos a fazer a sua parte porque eles dependem da água que as florestas tropicais fornecem para a produção de energia e a agricultura, e também porque eles enxergam um novo modelo de crescimento baseado no seu capital natural", afirma Glenn Prickett, vice-presidente da Conservation International e meu companheiro de viagem ao Brasil. "O Brasil desenvolveu a ciência, a vontade política e as regras e instituições básicas para a preservação das suas florestas tropicais. Entretanto, o que o Brasil e outros países dotados de florestas tropicais, como a Indonésia, não têm são as verbas necessárias para aplicar este novo modelo econômico em uma escala ampla".

Eu fiquei surpreso com a quantidade de blocos de construção do "capitalismo natural" que Waldez Goes - cujo Estado fica na foz do Rio Amazonas - está implementando, de forma que ele possa contar com uma economia baseada na preservação das floresta, e não na sua destruição. Waldez Goes está implementando os três "Pês" - criando áreas de florestas protegidas, aumentando a produtividade em terras que já foram desmatadas, de forma que os agricultores não necessitem de mais terras, e criando direitos de propriedade para as terras amazônicas, um setor no qual a situação atual é uma bagunça, que estimula as invasões de terras no estilo do faroeste e assusta os investidores interessados em agricultura sustentável.

Waldez Goes já protegeu 75% do território do seu Estado com a classificação de floresta e criou leis e uma faculdade técnica que fornece educação em extração sustentável de madeira, ecoturismo e desenvolvimento de produtos medicinais e cosméticos derivados de plantas da selva. Mas ele necessita de verbas para implementar e monitorar esses projetos em grande escala e provar que o "capitalismo natural" é capaz de produzir mais do que a versão extrativista do sistema capitalista.

"Sou filho de um seringueiro", explica ele. "Nasci e fui criado na selva, de forma que mesmo antes de me tornar político eu já tinha um forte vínculo com a natureza. O mundo está se deparando com essa rota de desenvolvimento incansável que provoca poluição, degradação ambiental e desmatamento", afirma o governador.

Ele e outros brasileiros desejam provar que é possível obter melhores resultados ao "integrar preservação e desenvolvimento".

As florestas tropicais representam cerca de 5% da superfície da Terra, mas elas abrigam 50% de todas as espécies vivas. A Conservation International tem um lema: "O que é perdido lá é sentido aqui". Se nós perdermos aquilo que restou da Amazônia, todos sentiremos os efeitos climáticos, a mudança do regime das chuvas e a perda da biodiversidade que enriquece o mundo. O Brasil parece estar pronto para fazer a sua parte. Mas nós estamos? E quanto a você, China?

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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