No que realmente acreditam

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Se você acompanhar o debate em torno do projeto de lei de energia e clima em avaliação no Congresso você verá que os oponentes dessa legislação agora estão fazendo duas alegações. Uma é de que o globo vem esfriando ultimamente, e não se aquecendo, e a outra que os EUA simplesmente não podem pagar qualquer tipo de imposto sobre o carbono.

Contudo, aquilo que não estão dizendo, mas acreditam é que: o mundo vai enfrentar uma praga gigantesca, como a peste negra, que vai dizimar 2,5 bilhões de pessoas de hoje até 2050; eles acreditam que é muito melhor para os EUA que o mundo seja dependente do petróleo - uma commodity em grande parte controlada por países que nos odeiam e que só vai subir de preço com o aumento da demanda - em vez de outras tecnologias de energia limpa que são controladas por nós e que só vão baixar de preço com o aumento da demanda. Por fim, acreditam que as pessoas no mundo em desenvolvimento estão felizes na pobreza - basta dar-lhes um pouco de água corrente e eletricidade e estarão bem. Nunca vão querer viver como nós.

Sim, os oponentes de um imposto sobre o carbono para estimular alternativas ao petróleo devem acreditar nessas coisas todas, porque esta é a única forma de seus argumentos fazerem sentido. Deixe-me explicar primeiro como vejo a questão.

Sou um defensor atroz da energia limpa. Verde para mim não é apenas reciclar o lixo e sim sobre renovar os EUA. Por isso que digo que o "verde é o novo vermelho, branco e azul". Meu argumento é simples: acredito que a mudança climática é real. Você não? Isso é com você. Mas há dois outros grandes problemas resultantes da administração energética que você simplesmente não pode negar. E a forma de renovar os EUA é assumirmos a liderança e inventarmos as tecnologias para tratar desses problemas.

A primeira é que o mundo está ficando super-populoso. De acordo com um relatório populacional da ONU de 2006, "a população mundial provavelmente vai aumentar em 2,5 bilhões de pessoas, ultrapassando os atuais 6,7 bilhões para 9,2 bilhões em 2050. Este aumento é equivalente ao tamanho total da população mundial em 1950 e será absorvido em grande parte pelas regiões menos desenvolvidas, cuja população deve crescer de 5,4 bilhões em 2007 para 7,9 bilhões em 2050".

As implicações de termos mais 2,5 bilhões de bocas para alimentar, vestir, abrigar e transportar para energia, clima, água e poluição serão assustadoras. E isso vai acontecer, a não ser que, como parecem acreditar aqueles que se opõem a qualquer medida, uma pandemia ou um surto global de abstinência congelem a população mundial - para sempre.

Agora, deixe-me acrescentar algo. O mundo está ficando mais plano - cada vez mais pessoas hoje podem ver como vivemos, aspirar ao nosso estilo de vida e até tomar nossos empregos para que possam viver como nós. Então, não apenas estaremos acrescentando 2,5 bilhões de pessoas a mais até 2050, mas muitas vão viver como os "norte-americanos" - com casas, carros e Big Mcs do tamanho norte-americano.

"O que acontece quando as nações em desenvolvimento com frotas crescentes adquirem dezenas de milhões de carros movidos a petróleo ao mesmo tempo em que a economia mundial se recupera e não há um amplo salto na oferta de petróleo?", pergunta Felix Kramer, especialista em carros elétricos que defende a mudança da frota de automóveis dos EUA para que seja cada vez mais ser movida por fontes renováveis. O que acontece, é claro, é que o preço do petróleo fura o teto - a não ser que desenvolvamos alternativas. Os petro-ditadores do Irã, Venezuela e Rússia esperam que não, pois ficarão mais ricos.

Então, ou os oponentes de um projeto de lei sério de energia/clima com um preço sobre o carbono não se importam com nosso vício em petróleo e dependência dos petro-ditadores ou realmente acreditam que não vamos acrescentar mais 2,5 bilhões de pessoas que querem viver como nós. Assim, o preço do petróleo não subiria muito e, portanto, não precisaríamos aumentar os impostos para estimular alternativas limpas, renováveis e eficientes.

Os verdes pensam diferente. Acreditamos que, em um mundo que está ficando mais quente e populoso, com mais "norte-americanos", a próxima grande indústria global será a da TE, ou tecnologia da energia, baseada em energia limpa e eficiente. Tem que ser. E acreditamos que o país que inventar e empregar mais TE vai ter a maior segurança econômica, energética e nacional, além de empresas inovadoras e respeito global. E acreditamos que esse país deve ser os EUA. De outra forma, nossos filhos nunca vão apreciar o padrão de vida que tivemos. E acreditamos que a melhor forma de promover a TE é estabelecer um preço fixo de longo prazo para o carbono - junto com o impressionante estímulo da turma de Obama para a tecnologia verde - e depois deixar o livre mercado e a inovação fazerem o resto.

Como eu disse, você não acredita no aquecimento global? Está errado, mas vou deixar você apreciar sua opinião até que sua casa de praia seja levada pelas águas. Mas se você também não acredita que o mundo está ficando mais populoso com mais pessoas aspirando ao estilo de vida norte-americano - e que ignorar isso dará força aos nossos piores inimigos, enquanto responder com energia limpa vai dar força às nossas melhores tecnologias - então você é propositalmente cego e está prejudicando o futuro dos EUA.

Tradução: Deborah Weinberg

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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