Conselho da vovó

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

A visita do presidente Barack Obama à China nesta semana faz com que surjam inevitáveis comparações entre as duas principais potências mundiais. Vocês sabem o que as pessoas costumam dizer: o século 19 pertenceu ao Reino Unido, o século 20 aos Estados Unidos e o século 21 pertencerá à China. Talvez, mais eu ainda não estou pronto para ceder o século 21 à China.

Lembrem-se daquilo que a vovó costumava dizer: nunca entregue um século a um país que censura o Google

Por que não? Isso não tem nada a ver com o fato de estarmos rumando para um mundo hiperintegrado no qual todos os aspectos da produção - matéria-prima, design, manufatura, distribuição, execução, financiamento e criação de marcas - tornaram-se commodities que podem ser acessadas de qualquer lugar por qualquer pessoa. Mas ainda há duas coisas realmente importantes que não podem ser transformadas em commodities. Felizmente os Estados Unidos ainda possuem uma delas: imaginação.

Atualmente aquilo que os cidadãos imaginam é mais importante do que nunca porque hoje em dia eles são capazes de exercitar a sua própria imaginação de forma mais ampla, rápida, profunda e barata do que nunca - como indivíduos. Em tal mundo, sociedades são capazes de incentivar pessoas dotadas da capacidade de imaginar e de criar novas ideias que prosperarão. O Apple iPod pode ser feito na China, mas ele foi sonhado nos Estados Unidos, e é isso o que rende mais lucros. Os Estados Unidos - com a sua sociedade aberta, livre, sem limites e receptiva aos imigrantes - ainda são a maior máquina de sonhos do mundo.

Quem cederia um século no qual a imaginação terá um valor tão grande a uma sociedade autoritária que controla a sua Internet e encarcera prisioneiros políticos? Lembrem-se daquilo que a vovó costumava dizer: nunca entregue um século a um país que censura o Google.

Mas embora a nossa cultura de imaginação ainda seja vibrante, o outro fator crítico que ainda diferencia os países hoje em dia - e ele não é uma commodity - é a boa governança, que é capaz de promover criatividade. E isso nós podemos estar perdendo. Estou falando sobre a capacidade dos líderes de uma sociedade de pensarem em longo prazo, resolverem os seus problemas com a melhor legislação possível e atraírem pessoas capazes para o governo. O que eu temo cada vez mais nos dias de hoje é que os Estados Unidos só sejam capazes de produzir respostas precárias para os seus maiores problemas - educação, dívida, regulação financeira, serviço de saúde, energia e meio ambiente.

Por que? Porque pelo menos seis coisas se integraram para cindir o nosso espaço público e paralisar a nossa capacidade de criar soluções ideais:

1) O dinheiro na política tornou-se tão onipresente que os parlamentares precisam usar a maior parte do seu tempo para obtê-lo, vendendo as suas almas para aqueles que o possuem ou defendendo-se dos grupos de interesse menores ricos capazes de prejudicar o interesse nacional.

2) A divisão discriminatória dos distritos políticos em benefício de certos candidatos significa que cada partido pode agora escolher os seus próprios eleitores sem jamais ter que recorrer ao centro.

3) A cultura de TV a cabo encoraja a gritaria e a segregação de pessoas nas suas próprias câmaras de eco político.

4) Uma campanha presidencial permanente proporciona pouco tempo para a atividade de governar.

5) A Internet, que, segundo o seu melhor aspecto, permite que se fiscalizem as elites e o establishment e abre caminho para novas vozes, e que, de acordo com a sua pior faceta, proporciona uma abrigo para todas as visões extremadas e gera grupos de linchadores virtuais pertencentes a todo o espectro político que atacam quem quer que fuja de suas ortodoxias específicas.

6) Uma comunidade empresarial estadunidense que tornou-se tão globalizada que só vem a Washington para fazer lobby pelos seus interesses estreitos; ela raramente se pronuncia mais em defesa de questões nacionais como serviço de saúde, educação e mercados abertos.

Esses seis fatores estão empurrando o nosso sistema, que foi elaborado para possuir poderes divididos e para forçar partes contrárias a entrar em acordo, para o reino da paralisia. Atualmente, para se realizar algo de grande dimensão, nós temos que criar tantos compromissos e acordos - redigidos em textos de mais de mil páginas - com tantos grupos de interesse diferentes que as soluções são totalmente precárias. O que nós obtemos é simplesmente a soma de todos os grupos de interesse.

A miniversão disso é a Califórnia, que, conforme outros observaram, está se transformando no maior "Estado fracassado" norte-americano. Os californianos acreditavam que poderiam superar o seu sistema não funcional elegendo um forasteiro, um ex-astro de cinema, Arnold Schwarzenegger. Ele liquidaria o sistema, como o Exterminador do futuro. Mas na verdade ele não foi capaz de fazer isso.

Obama foi eleito por razões similares. As pessoas esperavam que a sua história, personalidade e talento retórico únicos poderiam promover a união do país, superar a paralisia e gerar um projeto de construção de país no cenário doméstico. Grande parte do desapontamento que atualmente toma conta dos eleitores de Obama deve-se à descoberta de que talvez ele, assim como Arnold, não possa cumprir a tarefa.

Os líderes da China, usando meios autoritários, ainda podem. Eles não precisam aceitar sempre o precário.

Sendo assim, o que faremos?

A resposta padrão é que necessitamos de líderes melhores. A resposta real é que precisamos de cidadãos melhores. Precisamos de cidadãos que deem a entender aos seus líderes que estão prontos a fazer sacrifícios, e até, sim, a pagar impostos mais elevados, e que não punirão os políticos que lhes pedirem para fazer as coisas difíceis. Caso contrário, amigos, estaremos em apuros. Uma grande potência que só consegue produzir respostas precárias para os seus maiores desafios deixará, com o passar do tempo, de ser uma grande potência - não importando quanta imaginação ela gere.

A vovó também disse isso.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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