A América versus a Narrativa

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

O que devemos pensar sobre o major Nidal Malik Hasan, que aparentemente matou 13 pessoas inocentes em Fort Hood?

Esta é a minha opinião: Hasan pode ser mentalmente desequilibrado - e suponho que qualquer um que atire em pessoas inocentes o seja. Mas quanto mais você lê sobre seu apoio aos homens-bombas muçulmanos, sobre como ele participou de um seminário sobre saúde pública com uma apresentação intitulada "Por que a guerra ao terrorismo é uma guerra ao islamismo" e sobre seus contatos com Anwar al-Awlaki, o religioso iemenita famoso por usar a web para apoiar a violência jihadista contra os EUA - mais parece que Hasan era apenas mais um jihadista furioso incitado a agir pela "Narrativa".
  • Jack Plunkett/AP

    O sargento Anthony Sills conforta sua esposa em frente à base militar de Fort Hood, no Texas

O que é assustador é que, apesar de ele ter nascido, sido criado e educado nos EUA, a Narrativa ainda o pegou. A Narrativa é o coquetel de meias verdades, propaganda e mentiras deslavadas sobre os EUA que ganhou força no mundo árabe muçulmano desde o 11 de Setembro. Propagada por sites jihadistas na web, pregadores em mesquitas, intelectuais árabes, estações de notícias via satélite e livros - e tacitamente endossada por alguns regimes árabes -, essa narrativa afirma que os EUA declararam guerra ao Islã como parte de uma grande "conspiração americana-cruzadista-sionista" para dominar os muçulmanos.

Sim, depois de duas décadas em que a política externa dos EUA foi amplamente dedicada a resgatar muçulmanos ou tentar ajudá-los a livrar-se da tirania - na Bósnia, em Darfur, Kuwait, Somália, Líbano, Curdistão, no Paquistão pós-terremoto, na Indonésia pós-tsunâmi, Iraque e Afeganistão -, ganha força uma narrativa que diz que os EUA se dedicam a derrubar os muçulmanos.

Apesar de a maioria dos muçulmanos que são mortos hoje o serem por homens-bombas jihadistas no Paquistão, Iraque, Afeganistão e Indonésia, não se tem essa impressão ao ouvir o seu mundo. A narrativa dominante lá é que o 11/9 foi uma espécie de fraude: o ataque não provocado dos EUA ao Islã é a história real, e os muçulmanos são as vítimas reais - da perfídia americana.

Não tenham dúvida: nós demos um forte soco no mundo árabe e muçulmano depois do 11/9, em parte para enviar uma mensagem de dissuasão, mas basicamente para destruir dois regimes tirânicos: os taleban e os baathistas - e para trabalhar com os afegãos e iraquianos para construir um tipo de política diferente. No processo, fizemos algumas coisas idiotas e ruins. Mas para cada Abu Ghraib nossos soldados e diplomatas cometeram um milhão de atos de bondade destinados a dar aos árabes e muçulmanos uma melhor chance de êxito na modernidade e de eleger seus próprios líderes.

A Narrativa foi criada por jihadistas para obscurecer isso.

Está funcionando. Como me disse um especialista em contraterrorismo nascido na Jordânia, que pediu para ficar no anonimato: "Essa narrativa hoje é onipresente nas comunidades árabes e muçulmanas da região e nas comunidades migrantes em todo o mundo. Essas comunidades são bombardeadas com essa narrativa em doses enormes e diárias. [Ela diz que] o Ocidente, e agora principalmente os EUA e Israel, é única e completamente responsável por todos os males dos mundos árabe e muçulmano. Ironicamente, a vasta maioria dos canais de mídia dirigidos para essas comunidades é de propriedade do governo árabe - principalmente do Golfo".

Essa narrativa beneficia os governos árabes. Ela permite que eles desviem para os EUA todas as queixas de suas populações sobre por que seus países são atrasados. E ela beneficia a Al Qaeda, que não precisa mais de muita organização - basta forçar a narrativa pela web e pela TV via satélite, deixá-la aquecer os muçulmanos humilhados, frustrados ou socialmente alienados, e um ou dois deles abrirão fogo por conta própria. Veja Nidal Malik Hasan.

"Árabes liberais como eu estão tão furiosos quanto um terrorista e tão decididos a mudar a situação", disse meu amigo jordaniano. A única diferença "é que enquanto nós escolhemos a educação, o conhecimento e o sucesso para promover a mudança, um terrorista, tendo acreditado na narrativa, tem a sensação de impotência e o desespero que são inculcados em nós desde a infância, que o levam a acreditar que só há um caminho, o da violência".

O que fazer? Muitos árabes muçulmanos sabem que o que prejudica suas sociedades é mais que o Ocidente, e que a Narrativa é apenas uma fuga para não se autoanalisarem honestamente. Mas nenhum de seus líderes ousa ou se importa em abrir essa discussão. Em seu discurso no Cairo em junho passado, o presidente Barack Obama efetivamente construiu uma conexão com a corrente dominante muçulmana. Talvez ele pudesse acender o debate fazendo à mesma platéia esta pergunta:

"Sempre que algo como Fort Hood acontece, vocês dizem: 'Isso não é o islã'. Eu acredito. Mas vocês continuam nos dizendo o que o islã não é. Vocês precisam nos dizer o que ele é, e nos mostrar como suas interpretações positivas estão sendo promovidas em suas escolas e mesquitas. Se isso não é o islã, então por que um milhão de muçulmanos lotam as ruas para protestar contra as charges dinamarquesas do profeta Maomé, mas nenhum vai às ruas para protestar contra os homens-bombas muçulmanos que explodem outros muçulmanos, pessoas de verdade criadas à imagem de Deus? Vocês precisam explicar isso para nós - e para vocês mesmos."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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