Que tudo se realize

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

O presidente Obama certamente demonstrou força de liderança ao ir contra a base de seu próprio partido e ordenar um aumento de tropas no Afeganistão. Ele vai ter que ser ainda mais firme, porém, para assegurar que sua política seja executada corretamente.

Já expliquei a razão pela qual me oponho a esse aumento no número de soldados. Mas como a decisão já foi tomada -e não quero que meu país fracasse ou que a presidência de Obama afunde no Afeganistão, aqui vão alguns pensamentos sobre como reduzir as chances que isso tudo acabe mal. Vamos começar lembrando a opinião que o presidente John F. Kennedy compartilhou no dia 2 de setembro de 1963 em uma entrevista com Walter Cronkite:

Cronkite: Senhor presidente, a única guerra quente que temos no momento é, evidentemente, no Vietnã, e estamos com dificuldades lá.
Kennedy:
Não acho que essa guerra possa ser vencida se não for feito maior esforço pelo governo (vietnamita) para conquistar o apoio popular. No final, a guerra é deles. São eles que têm que vencer ou perder. Podemos ajudá-los; podemos dar-lhes equipamentos, podemos enviar nossos homens como assistentes. Mas eles têm que vencê-la, o povo do Vietnã contra os comunistas. Estamos dispostos a continuar ajudando, mas não acho que a guerra possa ser vencida se o povo não apoiar o esforço. Na minha opinião, nos últimos dois meses, o governo (vietnamita) perdeu contato com o povo...

Cronkite: O senhor acha que este governo ainda tem tempo de reconquistar o apoio do povo?
Kennedy:
Acho. Com mudanças na política e talvez de pessoal, acho que pode. Se não fizer essas mudanças, as chances de vencer não seriam muito boas.

O que JFK compreendeu, o que LBJ perdeu e que BHO não pode se esquecer é que a coisa não é sobre quantas tropas enviamos ou quantos prazos estabelecemos. É sobre os parceiros afegãos. O Afeganistão entrou em declínio em grande parte porque o governo do presidente Hamid Karzai não funcionou e se tornou altamente corrupto -mais concentrado em conseguir dinheiro para uso privado do que para governar. É por isso que muitos afegãos que gostaram da chegada de Karzai em 2001 agora de fato estão dando boas vindas à segurança e à justiça do Taleban.

"Em 2001, a maior parte das pessoas olhava para os EUA não apenas como um possível mentor, mas como modelo de democracia", recentemente escreveu no "Los Angeles Times" Pastoon Atif, ex-assistente social de Candahar. "O que recebemos em vez disso foi uma bagunça, na qual os políticos se aproveitaram de forma absurda e sem vergonha de uma riqueza de ajuda estrangeira acompanhada de escassez de regulamentos."

Portanto, nosso objetivo primário tem que ser construir -com Karzai- um governo afegão que é "decente o suficiente" para conquistar a lealdade do povo afegão, para que uma massa crítica possa se "apropriar" dele e portanto lutar para protegê-lo. Somente assim haverá um exército e um Estado afegão "auto-sustentado" para que possamos começar a sair até o prazo do presidente de julho de 2011 -sem deixar para trás um banho de sangue.

Repare nas palavras: "decente o suficiente", "donos" e "auto-sustentado". Sem um governo minimamente decente, os afegãos não vão se sentir donos. Se não se apropriarem da nação, não vão lutar por ela. E se não lutarem, independentemente do progresso que façamos, este não se sustentará. Vai desmoronar assim que sairmos.

Isso é o que me preocupa: o porta-voz do presidente, Robert Gibbs, disse claramente: "Não pode ser construção da nação". O presidente disse no almoço com colunistas na terça-feira que quer evitar "uma expansão da missão" que envolva a "construção do Afeganistão".

Sinto muito: a questão é totalmente de construção de nação. Você não pode treinar o exército e a polícia para substituir nossas tropas se não tiver instalado um Estado básico o qual eles sintam que valha a pena defender. Mas isso vai requerer que Karzai faça uma transformação, a começar pela demissão de seus assessores mais corruptos e nomeação de autoridades nas quais os afegãos possam confiar.

Esse aumento de tropas norte-americanas também dependerá do Paquistão pôr fim a sua obsessão com a Índia, indicou o presidente. Essa obsessão levou o Paquistão a apoiar o Taleban para controlar o Afeganistão como parte de sua estratégia para Índia. O Paquistão combate o Taleban que o ataca, mas alimenta o Taleban que quer controlar o Afeganistão.

Então agora precisamos que este frágil Paquistão pare de procurar profundidade estratégica contra a Índia no Afeganistão e comece a construir uma profundidade estratégica em casa, reanimando sua economia e seu sistema educacional e impedindo os jihadistas de dominarem o território.

Por isso Obama vai ter que se assegurar que, a cada dia, Karzai não fuja da reforma, que o Paquistão não se esquive de fechar os santuários do Taleban e que os aliados não desistam de nos ajudar. Em suma: a estratégia só vai funcionar se Karzai se tornar um novo homem, se o Paquistão se tornar um novo país e se nós de fato tivermos sucesso em algo que o presidente diz que nem vamos fazer: construir uma nação no Afeganistão. Nossa!

Pelo bem dos EUA, espero que tudo se realize.

Tradução: Deborah Weinberg

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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