A economia do faça você mesmo

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Caso você não tenha notado, atualmente a economia dos Estados Unidos está sendo atingida por dois tsunamis ao mesmo tempo: a Grande Recessão e a Grande Inflexão.

A Grande Inflexão é a difusão maciça de tecnologias inovativas de baixo custo e dinâmicas - dos computadores de mão aos websites que oferecem qualquer serviço imaginável - acompanhada de conectividade barata. Elas estão transformando a forma como os negócios são feitos. A Grande Recessão você já conhece.

A "boa notícia" é que a Grande Recessão está obrigando as companhias a tirarem vantagem da Grande Inflexão com uma rapidez inédita, o que está tornando-as mais inovadoras. A má notícia é que os mercados de crédito e os empréstimos bancários ainda encontram-se reduzidos, de forma que muitas companhias não podem tirar proveito dos seus grandes ganhos em produtividade e gerar os novos empregos dos quais nós necessitamos desesperadamente.

Dois exemplos, um grande e um pequeno: o primeiro é o meu colega de infância, Ken Greer, que é dono de uma agência de marketing em Mineápolis, a Greer & Associates. A Grande Recessão o forçou a reduzir radicalmente o tamanho da sua agência, mas a Grande Inflexão fez com que ele se tornasse radicalmente mais produtivo. Ele me ilustrou isso ao me falar sobre um filme que fez recentemente para uma empresa sem fins lucrativos.

"O orçamento era de cerca de 20% daquilo que normalmente cobraríamos", contou-me Greer. "Após uma reunião com o cliente, quase todas as nossas comunicações foram feitas por e-mail. O roteiro foi escrito e aprovado por meio de uma ferramenta colaborativa fornecida pelo www.box.net. Internamente, todos pudemos ter acesso ao roteiro, independentemente de onde estivéssemos, fazer sugestões e chegar a um trabalho final acompanhado de transparências - fácil, conveniente e gratuito. Não contávamos com verbas suficientes para fazer uma nova filmagem, mas tampouco tínhamos dinheiro para obter fotografias da forma antiga - pagando royalties de US$ 100 a US$ 2,000 (R$ 174,50 a R$ 3.490) por imagem. Nós descobrimos uma fonte, a istockphoto.com, que ofereceu excelentes fotos por uns poucos dólares. Pudemos analisar previamente e com facilidade todas as imagens, inseri-las no nosso programa para nos assegurarmos de que elas funcionariam, comprá-las online e baixá-las pela Internet em versões de alta resolução - tudo isso em uma questão de segundos", explicou Greer.

"O nosso roteiro previa a utilização de quatro a cinco vozes. Em vez de contratarmos vozes locais de talento - que custariam de US$ 250 a US$ 500 a hora (R$ 436 a R$ 873) -, nós buscamos na Internet vozes de alta qualidade pelas quais pudéssemos pagar. Descobrimos vários sites que ofereciam diversas formas de narrações ou comentários. Nós selecionamos o www.voices.com. Em menos de um minuto nós criamos uma conta, enviamos as nossas exigências e solicitamos um orçamento. Dentro de cinco minutos já tínhamos de dez a 15 "candidatos" - que cobravam 10% daquilo que Greer teria pago por um "talento vivo".

"E o melhor foi que em uma questão de minutos tínhamos amostras de leitura que puderam ser inseridas no filme para determinarmos se as vozes se encaixavam. Nós selecionamos os nossos finalistas, passamos a eles instruções mais específicas e dentro de algumas horas o produto final nos foi enviado pela Internet em arquivos de MP3. Fomos capazes de obter todos os sotaques étnicos que desejávamos. Para as músicas, usamos um site chamado www.audiojungle.net, onde é possível analisar milhares de trechos de músicas e efeitos sonoros com um clique do mouse, e a seguir comprá-los por centavos".

Por ter sido capaz de acessar essas ferramentas baratas, Greer pôde concentrar-se no seu produto mais valioso: a imaginação. O cliente recebeu um produto melhor por menos dinheiro. Mas ele não criou muitos empregos novos. Para isso, é preciso que a economia volte a aquecer-se. "Se pelo menos pudéssemos pegar algum dinheiro e investir", diz Greer. "Tudo voltaria a funcionar como antes".

Farooq Kathwari, que há muito tempo é o presidente da Ethan Allen Interiors, teve que acelerar a reinvenção da sua companhia pelos mesmos motivos. No ano passado, ele reduziu a sua força de trabalho em 25% e abriu várias fábricas nos Estados Unidos, em um processo que incluiu a transferência da fabricação de estofamentos para uma instalação moderníssima no Estado da Carolina do Norte, permitindo que a Ethan Allen reduzisse substancialmente o seu tempo de produção. O trabalho de estofamento que exige mais mão-de-obra é feito na nova fábrica da companhia no México, e os componentes são enviados para a instalação da Carolina do Norte para lá se termine de montar os produtos.

"Cinco anos atrás, seriam necessárias 20 horas de trabalho para a fabricação de um sofá de alta qualidade. Agora, devido aos nossos investimentos em tecnologia e a uma força de trabalho mais reduzida e qualificada, o tempo de produção do mesmo sofá é de apenas três horas", explica Kathwari.

Sempre que pode, Kathwari diz que usa a tecnologia para reduzir os custos e aumentar a qualidade para manter a sua posição competitiva nos mercados mundiais. Isso permitiu à Ethan Allen manter reservas monetárias suficientes para sobreviver. "Atualmente nós produzimos todos os nossos programas de publicidade na própria empresa, incluindo comerciais de televisão de âmbito nacional, a uma fração do custo de alguns anos atrás - da mesma forma que o seu amigo está fazendo", diz Kathwari. "Os nossos sócios reconhecem que a reinvenção é vital para a nossa sobrevivência".

Tendo em vista o seu novo estado de hiper-eficiência, qualquer lucro nos negócios ajudaria de fato as finanças da Ethan Allen e estimularia contratações de novos empregados, mas para isso é necessário que os mercados de crédito afrouxem regras para os seus clientes e donos de negócios.

"O crédito ainda é uma questão vital, e não está havendo concessão de crédito ao nível mais básico da cadeia de negócios - ou quando há, o crédito é muito caro", afirma Kathwari.

Estranhos tempos: a Grande Recessão e a Grande Inflexão estão tornando as nossas companhias extremamente enxutas, inovadoras e produtivas. Mas como o crédito ainda está difícil, somos como um super-atleta dotado de um coração fraco. É preciso que o crédito volte a ser bombeado para os nossos músculos industriais.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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