Extremistas islâmicos usam a web para recrutar jovens muçulmanos

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Não nos enganemos. Por maior que seja a ameaça que o Afeganistão real representa para a segurança dos Estados Unidos, o "Afeganistão Virtual" atualmente representa um perigo maior. O Afeganistão Virtual é a rede formada por centenas de websites jihadistas que inspira, treina, educa e recruta jovens muçulmanos para se engajarem na jihad contra os Estados Unidos e o Ocidente. Nenhum aumento do número de tropas no Afeganistão real terá probabilidade de se tornar um sucesso auto-sustentável, a menos que haja um aumento paralelo das ações - por parte de lideranças políticas e religiosas árabes e muçulmanas - contra aqueles que promovem o jihadismo violento nas terras muçulmanas e o jihadismo online no Afeganistão Virtual.
  • AP - 12.dez.2009

    Friedman afirma que o governo Obama deveria ter condenado os atentados que atingiram a universidade de Bagdá e o Instituto de Belas Artes, matando pelo menos 127 pessoas e ferindo 400


Na semana passada, cinco homens do norte do Estado de Virgínia foram presos no Paquistão, para onde, segundo a polícia paquistanesa, eles se mudaram com o propósito de juntarem-se à jihad contra as tropas dos Estados Unidos no Afeganistão. Eles inicialmente fizeram contato por e-mail com duas organizações extremistas no Paquistão em agosto. Conforme o "Washington Post" denunciou no último domingo: "'O recrutamento online aumentou exponencialmente devido ao Facebook, ao YouTube e à sofisticação atual dos indivíduos que atuam na Internet'", disse uma autoridade graduada do Departamento de Segurança Interna. 'Os recrutadores estão desempenhando um papel cada vez menos proeminente em mesquitas e centros comunitários, já que locais como esses estão sendo escrutinados. Assim, esses indivíduos têm se voltado para a Internet', afirmou Evan Kohlmann, analista da Fundação NFFA, um grupo privado dos Estados Unidos que monitora websites extremistas".

A equipe de governo de Obama gosta de mencionar quantos "aliados" nós temos dentro da coalizão afegã. Sinto muito, mas nós não necessitamos de mais aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para matarmos mais membros do Taleban e da Al Qaeda. Nós precisamos é de mais aliados árabes e muçulmanos para matarem as suas ideias extremistas, que, graças ao Afeganistão Virtual, estão agora sendo disseminadas para lugares muito mais distantes.

Somente árabes e muçulmanos são capazes de travar a guerra de ideias no seio do islamismo. Nós tivemos uma guerra civil nos Estados Unidos em meados do século 19 porque havia muita gente no país que acreditava em coisas ruins - para ser mais específico, que podia-se escravizar pessoas devido à cor da pele. Nós derrotamos essas ideias e os indivíduos, líderes e instituições que as propagavam, e fizemos isso com tal energia que, cinco gerações depois, alguns dos descendentes desses nossos alvos ainda não perdoaram o norte.

O islamismo necessita de uma guerra civil similar. Essa religião conta com uma minoria violenta que acredita em coisas ruins: que não existe problema algum em matar não muçulmanos - os "infiéis", que não se submetem à autoridade muçulmana - e também os muçulmanos que não aceitam o estilo de vida islâmico mais rígido e que não se submetem ao governo de um califado islâmico.

O que assusta realmente é o fato de esta minoria jihadista violenta parecer gozar de mais "legitimidade" hoje em dia no mundo muçulmano. Poucos líderes políticos e religiosos ousam manifestar-se contra esses indivíduos em público. Os líderes árabes seculares evitam confrontos diretos com esses grupos, dizendo a eles: "Se vocês fizerem algo conosco, nós os prenderemos, mas se nos deixarem em paz e agirem em outro lugar, não haverá problemas".

Quantas fatwas - ou decretos religiosos - foram emitidos por lideranças do islamismo contra Osama Bin Laden ou a Al Qaeda? Pouquíssimas. Onde estava a indignação na semana passada quando, exatamente no dia em que o parlamento iraquiano concordou quanto a uma fórmula para realizar eleições livres e multipartidárias - algo sem precedentes na história moderna do Iraque -, cinco explosões detonadas por extremistas suicidas atingiram ministérios, uma universidade e o Instituto de Belas Artes de Bagdá, matando pelo menos 127 pessoas e ferindo outras 400, em sua maioria crianças?

Além de não ter havido nenhuma condenação significativa por parte do mundo muçulmano - que estava basicamente concentrado em se opor à proibição suíça da construção de novos minaretes de mesquitas -, Washington também não se manifestou sobre o ataque. O presidente Barack Obama não expressou qualquer indignação pública. Já é hora de ele fazer isso.

"Na semana passada os muçulmanos estavam falando sobre os minaretes da Suíça, e não sobre os assassinatos de pessoas no Iraque ou no Paquistão", observou Mamoun Fandy, um especialista em Oriente Médio do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos em Londres. "As pessoas procuram mudar de assunto quando não querem examinar a situação interna e quando elas não têm a coragem moral para emitir uma contra-fatwa que diria: estabilizar o Iraque é uma obrigação islâmica e trazer paz ao Afeganistão é um dos objetivos da umma, ou comunidade, muçulmana".

Então, me digam por favor, como é que nós ajudaremos a construir algo de decente e alto-sustentável no Afeganistão e no Paquistão quando os jihadistas assassinam outros muçulmanos às dezenas e ninguém realmente se manifesta contra isso?

Um estado de espírito corrosivo tomou conta do cenário internacional após o 11 de setembro de 2001. Segundo este estado de espírito, árabes e muçulmanos são apenas objetos, não sendo jamais responsáveis por qualquer coisa que aconteça no mundo, e nós somos os únicos sujeitos, responsáveis por tudo o que ocorre no planeta. Nós os infantilizamos.

Árabes e muçulmanos não são apenas objetos. Eles são sujeitos. Eles desejam, são capazes e precisam ser convocados a assumir responsabilidade pelo seu mundo. Se desejarmos mais do que árabes e muçulmanos uma região pacífica e tolerante, eles agarrar-se-ão aos nossos casacos enquanto nós lutamos, e não se pronunciarão contra os seus piores extremistas. Eles perderão, e nós também perderemos - aqui e lá, no Afeganistão real e no Afeganistão Virtual.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

UOL Cursos Online

Todos os cursos