Vamos à corrida

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Há muito tempo eu acredito que há duas estratégias básicas para lidar com a mudança climática --a estratégia do "Dia da Terra" e a da "Corrida da Terra". Esta Cúpula do Clima em Copenhague se baseou na estratégia do Dia da Terra. Não foi muito impressionante. A conferência produziu uma série de compromissos confusos, convencionais, limitados, e de modo algum está claro se vão nos aproximar de uma mitigação da mudança climática na escala e na velocidade necessárias.
  • Há muita percepção equivocada quanto aos fatos referentes ao aquecimento global



De fato, qualquer um que assistiu ao modo caótico como essa conferência foi "organizada" e às discussões dos delegados com que terminou, tem de perguntar se este processo de 17 anos da ONU para construir um esquema global para reverter o aquecimento está falido: são países demais (193) e partes móveis demais. Eu saio daqui sentindo com mais força que nunca que os EUA precisam se concentrar em sua própria estratégia da Corrida da Terra. Deixem-me explicar.

A estratégia do Dia da Terra dizia que a maior ameaça para a humanidade é a mudança climática, e nós como comunidade global temos de dar as mãos e atacar esse problema com um mecanismo global coletivo para codificar e verificar as emissões e reduções de dióxido de carbono de todo o mundo e transferir bilhões de dólares em tecnologias limpas para países em desenvolvimento para ajudá-los a participar.

Mas, como disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, nesta conferência, esse esquema do Dia da Terra só funciona "se os países assumirem a responsabilidade de cumprir suas metas" e se os países ricos realmente ajudarem os pobres a comprar fontes de energia limpa.

Isso nunca iria acontecer em escala no atual clima econômico global. A única maneira como poderia acontecer é se tivéssemos "uma tempestade perfeita" --uma tempestade grande o suficiente que finalmente pusesse fim ao debate sobre o aquecimento global, mas não tão grande que desse fim ao mundo.

A menos que uma dessas tempestades que literalmente divida o Mar Vermelho de novo e leve para casa todos os céticos de que a mudança climática catastrófica é um perigo claro e presente, as pressões internas em todos países para evitar reduções de carbono obrigatórias e verificáveis continuarão muito poderosas.

Isso quer dizer que toda essa estratégia de Dia da Terra é um desperdício? Não. A compreensão científica do clima que esse processo da ONU gerou e a incitação geral à ação que ele promove são muito valiosas. E o mecanismo que essa conferência implementou para permitir que os países desenvolvidos e suas empresas compensem suas emissões financiando a proteção às florestas tropicais, se funcionar, será enormemente valioso.

Mas eu sou um sujeito da Corrida da Terra. Acredito que evitar a mudança climática catastrófica é uma questão de uma escala enorme. A única máquina grande o suficiente para impactar a Mãe Natureza é o Pai Cobiça: o mercado. Somente um mercado moldado por regulamentos e incentivos para estimular a inovação maciça em fontes de energia limpas, livres de emissões, pode provocar uma ruptura no aquecimento global. E nenhum mercado pode fazer isso melhor que o americano.

Portanto, o objetivo dos Corredores da Terra é focar em conseguir que o Senado americano aprove uma lei de energia, com um preço em longo prazo do carbono que realmente estimule os EUA a tornarem-se o líder mundial em tecnologias limpas. Se liderarmos pelo exemplo, mais pessoas nos seguirão por imitação do que pela obrigação de algum tratado da ONU.

Na Guerra Fria, tivemos a corrida espacial: quem seria o primeiro a colocar um homem na lua? Somente dois países competiam, e só poderia haver um vencedor. Hoje, precisamos da Corrida da Terra: quem será o primeiro a inventar as tecnologias mais limpas para que homens e mulheres possam viver em segurança aqui na Terra?

Talvez a melhor coisa que o presidente Barack Obama poderia ter feito aqui em Copenhague fosse deixar claro que os EUA pretendem ganhar essa corrida. Tudo o que ele precisava fazer em seu discurso era olhar nos olhos do primeiro-ministro chinês e dizer: "Vou fazer o nosso Senado aprovar uma lei de energia com um preço para o carbono para que possamos derrotá-lo em tecnologia limpa. Este é o meu tiro à lua. O jogo começou".

Porque quando conseguirmos colocar os EUA disputando com a China, a China com a Europa, a Europa com o Japão, o Japão com o Brasil, poderemos rapidamente mover para baixo a curva da inovação-industrialização e reduzir o custo de carros elétricos, baterias, energia solar e eólica, para que estes deixem de ser produtos de luxo para os países ricos, e sim itens que o terceiro mundo pode usar e até produzir.

Se você começar a conversa com "clima", poderá conseguir que a metade dos EUA se apresente para agir. Se você começar a conversa com "criar toda uma nova indústria" --uma que nos torne mais independentes de energia, prósperos, seguros, inovadores, respeitados e capazes de superar a China na próxima grande indústria global--, conseguirá o país inteiro.

Por um bom motivo: mesmo que o mundo nunca se aqueça mais um grau, estima-se que a população aumentará de 6,7 bilhões para 9 bilhões entre hoje e 2050, e cada vez mais pessoas vão querer viver como os americanos. Nesse mundo, a demanda por energia limpa e por carros e edifícios eficientes em consumo energético vai disparar.

Uma Corrida da Terra liderada pelos EUA --construída sobre mercados, concorrência econômica, interesse nacional e vantagem estratégica-- é uma maneira muito mais autossustentável de reduzir as emissões de carbono do que um festival de compromissos voluntários e não compulsórios em uma conferência da ONU. Que comece a Corrida da Terra.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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