Mesmo com o fracasso em Copenhague, EUA deveriam seguir exemplo energético da Dinamarca

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Enquanto eu ouvia a ministra da economia e negócios da Dinamarca descrever como seu país usava impostos mais altos sobre a energia para estimular a inovação na energia verde e então reciclava as receitas dos impostos de volta para a indústria dinamarquesa e consumidores, para tornar mais fácil que eles produzam e comprem novas tecnologias limpas, tudo soou, bem, inteligente. Soou como se os dinamarqueses tivessem olhado para si próprios após o embargo ao petróleo de 1973, descoberto que dependiam totalmente do Oriente Médio e colocado em prática uma estratégia de longo prazo para tornar a Dinamarca mais segura energeticamente e iniciar, ao mesmo tempo, uma nova indústria.
  • Peter Dejong/Ap - 19.dez.2009

    Fábrica atrás do centro de eventos Bella Center, em Copenhague (Dinamarca), onde ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15). Segundo o colunista do NYT, mesmo com o fracasso da conferência, os Estados Unidos devem se espelhar nas ações da Dinamarca para a geração de energia limpa e sustentável



Quanto mais eu ouvia a ministra dinamarquesa, Lene Espersen, mais eu pensava no meu próprio país, onde várias vezes ouvi de políticos americanos que propor até mesmo um aumento de dez centavos por galão nos impostos sobre a gasolina para tornar os Estados Unidos mais independentes energeticamente e estimular a eficiência de combustível está "fora de cogitação" -- um ato, com certeza, de suicídio político.

Mas não na Dinamarca. Então, perguntei à ministra: "Diga, de que planeta vocês são?"

Espersen riu. Eu não. Por quanto tempo os americanos vão continuar achando que podem prosperar no século 21 quando fazer as coisas certas - seja pela energia, pela saúde, educação ou déficit - está "fora de cogitação"? Elas foram banidas por uma coalizão de lobistas cheios de dinheiro, apresentadores de talk shows tagarelas que insultam qualquer um que cruzar seu caminho, consultores políticos que alertam que pedir aos americanos para fazerem algo importante, porém difícil, torna qualquer um inelegível, e cidadãos que já nem pedem mais as coisa boas, pois acreditam que isso é impossível.

Desculpe, mas não há ideias boas que comprovadamente funcionam em outras sociedades democráticas/capitalistas que os americanos podem se dar ao luxo de descartar - não quando eles precisam construir uma economia do conhecimento, com bons trabalhos, e todo mundo está tentando fazer o mesmo.

"As taxas verdes já são altas", disse Espersen. "Embora saibamos que isso não é popular entre os negócios e a indústria, tem feito toda a diferença para nós. Isso forçou nossos negócios a se tornarem mais eficientes energeticamente e inovadores. Isso quer dizer que, de repente, estávamos inventando coisas que ninguém tinha inventado antes porque nossos negócios precisavam ser competitivos".

O Instituto de Estudo Ambiental e de Energia, um centro de pesquisa apartidário, e a embaixada da Dinamarca recentemente realizaram uma coletiva sobre como a Dinamarca está trabalhando para se tornar uma economia de baixo carbono. Aqui vão alguns pontos importantes:

Embora ainda gere a maior parte de sua eletricidade pelo carvão, "desde 1990 a Dinamarca reduziu suas emissões de gases do efeito estufa em 14%. No mesmo período, o consumo de energia dinamarquês permaneceu constante e o PIB da Dinamarca cresceu mais de 40%. A Dinamarca é o país com maior eficiência energética da União Eropeia, graças ao preço do carbono, através de impostos adicionais de energia e carbono, o sistema 'limitar e trocar', regulamentações rígidas de construção e programas de energia. Recursos renováveis atualmente fornecem quase 30% da eletricidade da Dinamarca. A energia eólica é a maior fonte de eletricidade renovável, seguida pela biomassa... Hoje, Copenhague só coloca 3% de seu lixo em aterros e incinera 39% para gerar eletricidade para milhares de lares".

O governo dinamarquês direciona o rendimento dos impostos de energia "de volta para a indústria, separando grande parte para subsidiar inovações ambientais", escreveu Monica Prasad, docente do Instituto de Pesquisa de Políticas da Northwestern University em um artigo publicado no dia 25 de março de 2008 no The New York Times. Assim, "empresas dinamarquesas são empurradas para longe do carbono e puxadas em direção à inovação ambiental, e a economia do país não fica em desvantagem competitiva".

É por isso que a Dinamarca, com apenas 5 milhões de pessoas, se orgulha de ter as empresas pioneiras em energia eólica, biocombustível e aquecimento, resfriamento e de eficiência no mundo. Tecnologias de energia são representam 11% das exportações do país. A exportação de petróleo e os impostos sobre a energia também subsidiam transporte coletivo e eficiência energética, mantendo as contas baratas para os consumidores dinamarqueses.
  • Pawel Kopczynski/Reuters - 02.dez.2009

    Vista panorâmica para as torres de resfriamento de uma usina termelétrica a carvão, a estação de energia Vattenfall lenhite Jaenschwalde, na Alemanha Oriental. A fumaça é refletida na água de um lago perto de Cottbus, na Alemanha Oriental. De acordo com Friedman, os Estados Unidos insistem em opções erradas de energia

De onde os políticos dinamarqueses conseguem a coragem para fazer as coisas certas - mesmo que dolorosas? "Não temos muitos recursos", disse Ida Auken, porta-voz do partido dinamarquês verde/socialista, SF. "Temos um welfare state que devemos manter, então pensamos à frente o tempo todo e não ficamos presos ao passado. É daí que temos coragem. Vemos isso funcionar há 30 anos. É um bom negócio. Construtoras dinamarquesas estão implorando por padrões mais rígidos em relação às construções, pois sabem que, se elas puderem se tornar eficientes, elas podem competir em qualquer lugar do mundo".

Americanos, o fato de que a recente cúpula sobre o clima de Copenhague foi um fracasso em termos de resolução de nossos problemas climáticos não significa que vocês podem ignorar esses problemas - ou que vocês podem ignorar que países individualmente, como a Dinamarca, têm lidado com tais problemas de forma eficaz. Com o desemprego na Dinamarca na casa dos 4%, em comparação aos 10% dos Estados Unidos, talvez os americanos pudessem pelo menos considerar ou cogitar algumas dessas ideias.

Tradução: Gabriela d'Avila

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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