EUA podem perder corrida ambiental e tecnológica para a China

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

C.H. Tung, o primeiro chefe do executivo nomeado pela China após a transferência de soberania em 1997, fez um resumo de três frases da história econômica moderna do país: "A China estava dormindo durante a Revolução Industrial; estava começando a despertar durante a Revolução da Tecnologia da Informação e pretende participar integralmente da Revolução Verde."
  • AFP - 05.nov.2009

    Pedestres caminham perto de usina eólica em Dali, na província de Yunnan, sudoeste da China. Na província chinesa de Yunnan, a energia está sendo produzida em parques eólicos, em barragens e em depósitos de lixo, adotando tecnologias renováveis e de menor impacto ambiental



Dá para ver. Visitando a China hoje, estou mais convencido do que nunca que, quando os historiadores olharem para o final da primeira década do século 21, vão dizer que a coisa mais importante a acontecer não foi a Grande Recessão, mas o Grande Salto Chinês. Os líderes em Pequim claramente compreendem que a revolução da Tecnologia Energética (TE) é tanto uma necessidade quanto uma oportunidade e não pretendem perdê-la.

Nós, por outro lado, vamos nos concentrar no Afeganistão.

Está certo, este foi um golpe baixo. Vamos então analisar o seguinte: Andy Grove, co-fundador da Intel, gostava de dizer que as empresas atingem "pontos de inflexão estratégicos", quando os fundamentos de um negócio mudam e então, ou a empresa faz uma decisão dura de investir em um momento difícil e assim assume um caminho mais promissor, ou não faz nada e murcha. O mesmo é verdade para os países.

Os EUA estão em tal ponto de inflexão estratégico. Ou instauramos um preço para as emissões de carbono e os incentivos corretos para assegurar que os EUA sejam o principal competidor/parceiro da China na revolução da TE, ou gradualmente vamos perder essa indústria para Pequim, e os bons empregos e a segurança energética irão com ela.

Será que o presidente Barack Obama vai terminar a reforma da saúde e depois colocar de lado a legislação pendente de energia -e o preço do carbono- que o Congresso já aprovou, para chegar ao meio do mandato sem que os republicanos gritem "novos impostos"? Ou vai aproveitar o momento antes das eleições legislativas do meio de seu mandato -possivelmente sua última oportunidade para reunir a maioria no Senado, inclusive alguns republicanos, para adotar um imposto sobre o carbono -e instalar um verdadeiro movimento americano para a inovação em energia limpa e em segurança energética?
  • AFP - 05.nov.2009

    Telefone celular tela de vídeo apresentado em feira de telecomunicação em Xangai, China. Segundo o colunista do jornal "The New York Times", o gigante asiático acordou e está prestes a tomar o lugar dos EUA na produção de tecnologia de ponta


Eu fiquei chocado quando soube do volume de projetos de energia eólica, solar, nuclear e de transporte de massa e de queima de carvão mais eficiente que brotaram na China apenas no ano passado.

Este foi o email de Bill Gross, que dirige a eSolar, uma empresa promissora de energia solar e térmica da Califórnia: No sábado, em Pequim, ele anunciou "o maior acordo solar térmico de todos os tempos. É de 2 gigawatt, US$ 5 bilhões (em torno de R$ 10 bilhões) para construir usinas na China usando nossa tecnologia da Califórnia. A China está sendo ainda mais agressiva do que os EUA. Pedimos um empréstimo para um projeto de 92 megawatt no Novo México e, em menos tempo do foi necessário para vencer o primeiro estágio da análise do pedido, a China assinou, aprovou e está pronta para iniciar a construção neste ano de um projeto 20 vezes maior!"

Sim, a mudança climática é uma preocupação para Pequim. Além disso, seus líderes sabem que o país está no meio da maior migração da população rural para centros urbanos na história da humanidade. Isso está criando um pico na demanda de energia, que a China está determinada a suprir com fontes mais limpas e produzidas no país, para que sua economia no futuro seja menos vulnerável a choques de fornecimento e não polua até a morte.

Só no último ano, apareceram tantos novos fabricantes de painéis de energia solar na China que o preço da energia solar caiu de US$ 0,59 por quilowatt hora para US$ 0,16, de acordo com Keith Bradsher, chefe do escritório do "The Times" em Hong Kong. Enquanto isso, a China na semana passada testou o trem bala mais rápido do mundo -350 km por hora- de Wuhan para Guangzhou. Como observou Bradsher, a China "quase terminou a construção da rota de trem de alta velocidade de Pequim a Xangai a um custo de US$ 23,5 bilhões (em torno de R$ 47 bilhões). Os trens vão cobrir o percurso de 1.120 km em apenas 5 horas, o que atualmente leva 12 horas. Em comparação, os trens da Amtrak exigem ao menos 18 horas para cobrir distância similar de Nova York a Chicago."

A China também está envolvida na expansão nuclear mais rápida do mundo. Deve construir 50 novos reatores nucleares até 2020; o resto do mundo combinado talvez construa 15.

"Até o final desta década, a China estará dominando a produção global de todo tipo de equipamento energético", disse Andrew Brandler, diretor executivo do CLP Group, o maior fornecedor de energia elétrica de Hong Kong.

No processo, a China também vai tornar as tecnologias energéticas mais baratas para si e para todos os outros. Até mesmo os especialistas chineses dizem que isso pode acontecer mais rápido e mais eficazmente se a China e os EUA trabalharem juntos -com os EUA se especializando em pesquisa e inovação, áreas que ainda são fracas na China, assim como em investimentos conjuntos e serviços para as tecnologias limpas, e a China se especializando em produção em massa.

Este é um ponto de inflexão estratégico. Está claro que os EUA se importam com a segurança energética, prosperidade econômica e qualidade do meio ambiente, precisam implementar um preço para o carbono de longo prazo que fomente e recompense a inovação em energia limpa. Não podemos nos dar ao luxo de cochilar com a China bem acordada e revigorada.

Tradução: Deborah Weinberg

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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