A solução para o Iêmen é investir em escolas

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Um dia destes, participei de uma "mastigação de qat" na casa de uma autoridade do Iêmen. Nunca tinha feito isso antes. Qat é a folha levemente alucinógena que os homens iemenitas mastigam depois do trabalho - e às vezes durante. Meus anfitriões insistiram que o qat realmente aguça os sentidos e que você pode mascar e esculpir o minarete de uma mesquita ao mesmo tempo. Eu parei depois de 15 minutos, mas as autoridades, deputados e empresários iemenitas com quem eu estava mastigaram durante três horas - e foram muito racionais nesse percurso.

  • The New York Times

    Crianças pobres brincam perto de uma mesquita em Sana, no Iêmen

A maioria havia estudado nos EUA ou tinha filhos estudando lá, e todos lamentavam como o declínio do sistema educacional iemenita, a proliferação de escolas exclusivamente religiosas e a redução das bolsas para jovens iemenitas estudarem nos EUA estavam produzindo uma geração muito diferente da deles. Falaram com carinho sobre as escolas americanas que se baseavam no mérito, lhes ensinaram a pensar livremente e os prepararam com capacidades para prosperar.

Então aqui está minha nova regra geral: para cada míssil Predator que dispararmos contra um alvo da Al Qaeda aqui, devemos ajudar o Iêmen a construir 50 novas escolas modernas que ensinem ciência, matemática e pensamento crítico - para meninos e meninas.

Se nos mantivermos perto dessa proporção de mortes dirigidas com jardins de infância dirigidos, teremos uma probabilidade de evitar que o Iêmen se torne um campo de treinamento da Al Qaeda. Porque hoje existem cerca de 300 mil iemenitas formados em faculdades e desempregados - em parte por causa da má educação e em parte porque não há empregos -, 15 mil escolares sem frequentar aulas, 65% dos professores só com diplomas colegiais e milhares de crianças aprendendo pouco mais que doutrinas religiosas.

E não admira. A partir da década de 1970, a tendência no Iêmen, Marrocos, Egito e no golfo Pérsico "foi islamizar a educação como uma maneira de combater a esquerda e os pró-comunistas - com a bênção dos EUA", explicou Lahcen Haddad, professor na Universidade de Rabat no Marrocos e especialista em governança na Management Systems International, uma empreiteira americana.

Então, em 1979, depois que a família real saudita foi abalada por um ataque em Meca por seus próprios fundamentalistas wahabitas, o regime saudita, para evitar a raiva de seus wahabitas, "lhes deu rédeas soltas para islamizar a educação e a vida social na Arábia Saudita e nos países vizinhos".

"Missões - culturais e religiosas, semioficiais e particulares - rumaram pelos países islâmicos para disseminar a palavra", disse Haddad. "Seguiram-se livros baratos e os estudantes foram levados à Arábia Saudita para aprender com pregadores e professores wahabitas nas diversas universidades religiosas que brotaram nos anos 80."

O Iêmen, pequeno e com privações econômicas, foi um alvo fácil. A aceitação acrítica das "verdades" do wahabismo tornou-se o principal currículo em muitas escolas iemenitas, acrescentou Haddad, e "destruiu a oportunidade de reunir as técnicas básicas necessárias para treinar a força de trabalho adequada - técnicas como solução de problemas, comunicação, pensamento crítico, debate, organização e trabalho em equipe".

O maior inimigo ideológico dos EUA, o marxismo soviético, produziu sua parcela de radicais violentos, mas também produziu Andrei Sakharov e Alexander Soljenitsin - porque acreditava na ciência, na física, na matemática e nos clássicos da literatura. O islamismo não está produzindo nenhum Sakharov.

A escritora May Yamani, filha do ex-ministro do Petróleo saudita Ahmad Zaki Yamani, não poupou palavras escrevendo no "The Beirut Daily Star": "A Arábia Saudita exportou seu wahabismo e a Al Qaeda para o Iêmen, fundando milhares de madraças, onde se ensina o fanatismo".

Ahmed Sofan, um parlamentar iemenita, disse-me que na década de 1970, se você visitasse uma aldeia de seu eleitorado rural, a maioria das mulheres não usava véu e trabalhava junto com os homens. Hoje não mais, ele disse, "porque hoje temos esse sentido wahabita de conservadorismo religioso, em que as mulheres devem ficar dentro de casa e usar véus".

Added Abdul Karim al-Iryani, um ex-primeiro-ministro, acrescentou: ao crescer, "estudávamos darwinismo em meu colégio sem problemas". Não mais. "O milagre do Leste Asiático não foi possível sem as mulheres", ele acrescentou. "No mundo árabe, se metade de nossa sociedade for excluída, como vamos nos equiparar a esses novos tigres?"

O jornalista iemenita Mohammed al-Qadhi relatou no jornal "The National" que hoje pode haver 10 mil escolas de base religiosa educando a juventude iemenita. Ele citou um alto funcionário da educação iemenita como dizendo: "Agora estamos obrigando essas escolas a ensinar moderação para proteger nossos alunos do extremismo".

Em outras palavras, hoje estamos lutando pelo Oriente Médio de 2020 e 2030. Grandes parcelas dessa geração estão perdidas. Quando fui me encontrar com o presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, em seu palácio de Sana, ele estava reflexivo: "Eu gostaria que esta corrida das armas acabasse e em seu lugar tivéssemos uma corrida pelo desenvolvimento".

É a única maneira de o Iêmen ter um futuro. Por isso, sim, disparem esses Predators onde for preciso, mas ajudem a construir escolas e a financiar bolsas para os EUA onde pudermos. E por favor, por favor, vamos pôr fim ao nosso vício em petróleo, que é o que dá ao ministério religioso e às instituições de caridade sauditas o dinheiro para espalhar o pensamento antimodernista por toda esta região.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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