O estranhamento global está aqui

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Dentre os festivais de tolice que periodicamente tomam conta da política americana, certamente a mais tola é a discussão de que como Washington está enfrentando um inverno particularmente nevoso, isso prova que a mudança climática é uma farsa e, portanto, nós não precisamos nos importar com toda essa coisa efeminada de energia renovável, painéis de energia solar e impostos de carbono. Apenas perfure, baby, perfure. 

Quando você vê legisladores como o senador Jim DeMint, da Carolina do Sul, tweetando que “vai continuar nevando até que Al Gore peça arrego”, ou que os netos do senador James Inhofe, de Oklahoma, estão construindo um iglu ao lado do Capitólio com uma grande placa que diz: “A Nova Casa de Al Gore”, você realmente se pergunta se é possível haver uma discussão séria sobre a questão do aquecimento global. 

A comunidade de ciência climática tem parte da culpa. Ela sabia que estava enfrentando forças formidáveis –desde empresas de petróleo e carvão, que financiam os estudos céticos a respeito da mudança climática, até os conservadores, que odeiam qualquer coisa que leve a mais regulamentações do governo, passando pela Câmara do Comércio, que resistirá a qualquer impostos sobre a energia. Portanto, os especialistas em clima não podem se deixar vulneráveis ao citarem pesquisa não revisada por pares ou ao deixarem de responder perguntas legítimas, como aconteceu tanto com a Unidade de Pesquisa Climática, da Universidade de East Anglia, e com o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU. 

Apesar de haver uma montanha de pesquisas de múltiplas instituições a respeito da realidade da mudança climática, o público tem ficado cada vez mais incomodado. O que é real? No meu entender, a comunidade de ciência climática deveria reunir seus maiores especialistas –de lugares como a NASA, dos laboratórios nacionais americanos, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Stanford, do Instituto de Tecnologia da Califórnia e do Centro Hadley britânico– e produzir um relatório simples de 50 páginas. Eles poderiam chamá-lo de “O Que Sabemos”, resumindo tudo o que já sabemos a respeito da mudança climática, em uma linguagem que um aluno da sexta série poderia entender, com notas de rodapé inatacáveis revistas por pares. 

Ao mesmo tempo, eles deveriam acrescentar um resumo de todos os erros e exageros cometidos pelos céticos da mudança climática –e de onde recebem seu financiamento. É hora dos cientistas climáticos deixarem de jogar na defensiva. O físico Joseph Romm, um importante escritor sobre o clima, está postando em seu site (www.climateprogress.org) sua própria listagem dos melhores trabalhos científicos sobre cada aspecto da mudança climática para qualquer um que queira já um resumo rápido. 

Aqui estão os pontos que gosto de destacar: 

1) Evite o termo “aquecimento global”. Eu prefiro o termo “global weirding” (algo como estranhamento global), porque é o que de fato acontece quando as temperaturas globais sobem e o clima muda. O clima fica estranho. Os lugares quentes ficam mais quentes, os úmidos mais úmidos, os secos mais secos e as tempestades violentas se tornam mais numerosas. 

O fato é que tem nevado demais em Washington –enquanto tem chovido nas Olimpíadas de Inverno no Canadá e a Austrália está enfrentando uma seca recorde de 13 anos– tudo de acordo com o que todos os principais estudos sobre a mudança climática preveem: o clima ficará mais estranho; algumas áreas receberão mais precipitações do que nunca; outras ficarão mais secas do que nunca. 

2) Historicamente, nós sabemos que o clima tem aquecido e esfriado lentamente, passando da Era Glacial para períodos mais quentes por causa de, em parte, mudanças na órbita da Terra e, portanto, da quantidade de luz solar que diferentes partes do planeta recebem. Atualmente se debate se os seres humanos –ao emitirem carbono demais e aumentando o cobertor de gases do efeito estufa ao redor do planeta, retendo mais calor– estão exacerbando rapidamente os ciclos de aquecimento naturais a um ponto que leve a perturbações perigosas. 

3) Aqueles que defendem uma ação dizem: “Como o aquecimento causado pelos seres humanos é irreversível e potencialmente catastrófico, vamos comprar um seguro –ao investir em energia renovável, eficiência em energia e transportes coletivos– porque esse seguro também nos deixará mais ricos e mais seguros”. Nós importaremos menos petróleo, inventaremos e exportaremos mais produtos de tecnologia limpa, enviaremos menos dólares ao exterior para comprar petróleo e, mais importante, diminuiremos os dólares que estão sustentando os petroditadores do mundo, que indiretamente financiam os terroristas e as escolas que os criam. 

4) Mesmo se a mudança climática provar ser menos catastrófica do que alguns temem, em um mundo cuja previsão é de que cresça de 6,7 bilhões para 9,2 bilhões de pessoas entre agora e 2050, e mais e mais vão querer viver como os americanos, a demanda por energia renovável e água limpa vai aumentar. Esta obviamente será a próxima grande indústria global. 

A China, é claro, entende isso, e está investindo em peso em tecnologia limpa, eficiência e trens-bala. Ela vê as futuras tendências e está apostando nelas. De fato, eu suspeito que a China esteja discretamente rindo de nós no momento. E o Irã, Rússia, Venezuela e toda a gangue da Opep estão cumprimentando uns aos outros. Nada serve melhor aos interesses deles do que ver os americanos confusos a respeito da mudança climática e, consequentemente, menos inclinados a adotarem tecnologia limpa e mais a permanecerem viciados em petróleo. Sim, senhor, está amanhecendo na Arábia Saudita.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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