Bem-vindos aos anos magros dos Estados Unidos

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Uma pequena reportagem de Tracy, na Califórnia, chamou minha atenção na semana passada. A emissora local, a “CBS 13”, noticiou: “Os moradores de Tracy agora terão que pagar toda vez que discarem 911 para uma emergência médica. Mas há duas opções. Os moradores podem pagar uma taxa anual voluntária de US$ 48, que permite ligarem para o 911 quantas vezes for necessário. Ou há a opção de não pagarem a taxa anual. Em vez disso, serão cobrados US$ 300 caso eles telefonem pedindo ajuda”.

 

Bem-vindos aos anos magros.

 

Sim, senhor, nós tivemos nossos 70 anos gordos na América, graças à “Greatest Generation” (a Maior Geração) e o tesouro de liberdade e prosperidade que ela construiu para nós. E nesses 70 anos, liderança –seja do país, uma universidade, uma empresa, um Estado, uma caridade ou prefeitura– envolvia dar coisas, construir coisas a partir da estaca zero, reduzir impostos, conceder subvenção ou fazer doações.

 

Mas agora parece que entramos em uma nova era, “onde a grande tarefa do governo e da liderança será tirar as coisas das pessoas”, disse Michael Mandelbaum, um especialista em política exterior da Universidade Johns Hopkins.

 

De fato, liderar agora significa demitir, cortar ou reduzir serviços, programas e pessoal. Nós passamos da era das benesses do governo para a era da retribuição por parte dos cidadãos, da era dos acompanhantes voam gratuitamente para a era de pagar por cada mala.

 

Vamos torcer para que nossos anos magros só cheguem a sete. Isso dependerá muito de nós e se nos ergueremos à altura dos desafios econômicos deste momento. Nossos pais realmente foram a Maior Geração. Nós, a propósito, de muitas formas, somos o que o escritor Kurt Andersen chamou de “Geração Gafanhoto”, devorando de forma faminta toda a prosperidade que nos foi legada. Agora, nós e nossos filhos precisamos juntos ser a “Regeneração” –uma geração que renova, refresca, reenergiza e reconstrói os Estados Unidos para o século 21.

 

A má sorte do presidente Barack Obama foi a de ter aparecido no momento em que passávamos dos anos gordos para os anos magros. Seu dever é liderar a Regeneração. Ele claramente entende isso em sua cabeça, mas ainda precisa dar plena voz a isso. Na verdade, a coisa que mais me desconcerta a respeito de Obama é como um político que fala tão bem, que está tentando fazer tantas coisas de valor, não consegue chegar a uma narrativa clara, simples e repetível para explicar suas políticas –quando é tão óbvio.

 

Obama venceu a eleição porque conseguiu “alugar” um número significativo de eleitores independentes –incluindo tipos empresariais republicanos que nunca tinham votado em um democrata em suas vidas– porque sabiam em suas entranhas que o país estava no caminho errado e necessitava desesperadamente de uma construção de nação em casa, e que John McCain não era o homem para isso.

 

Eles acharam que Obama, apesar de suas credenciais liberais, tinha talentos, temperamento, voz e valores únicos para unir o país para este novo programa Apollo –não para nos levar à Lua, mas para o século 21.

 

Entretanto, em vez de promover uma construção de nação nos Estados Unidos –sua narrativa abrangente– e então encaixar a reforma da saúde, energia, educação, infraestrutura, competitividade e redução do déficit sob esta marca, o presidente tem buscado cada uma delas separadamente. Isso fez cada iniciativa parecer apenas uma obsessão liberal individual para atender ao eleitorado democrata –não um ingrediente essencial da estratégia de construção de nação– e, portanto, fácil de ser obstruída, atacada ou difamada pelos oponentes e lobistas.

 

Assim, o “Obamismo” parece na pior hipótese uma confusão, na melhor uma lista de coisas a fazer –uma que foi dominada pela reforma da saúde em vez da inovação e dos empregos– e não um grande projeto inspirador capaz de promover o potencial ainda vasto de grandeza dos Estados Unidos.

 

Claro, assumir a presidência no amanhecer dos anos magros não é tarefa fácil. O presidente precisa persuadir o país a investir no futuro e a pagar pelo passado –a gastança do passado– ao mesmo tempo. Nós temos que pagar por mais novas escolas e infraestrutura do que nunca, aceitando ao mesmo mais cortes de direitos do que nunca, quando a confiança da população no governo está mais baixa do que nunca.

 

Além disso, o Partido Republicano nunca foi mais irresponsável. Tendo ajudado a elevar o déficit a novas alturas durante os recentes anos Bush, os republicanos agora não estão dispostos a assumir nenhuma responsabilidade de enfrentar isso caso envolva aumentos de impostos. Ao mesmo tempo, a ascensão da TV a cabo transformou a política em nosso país em outro esporte popular, como luta livre. O “C-SPAN” (o canal legislativo) é uma “ESPN” com apenas duas equipes. Nós o assistimos por entretenimento, não para soluções.

 

Apesar de que ajudaria se o presidente expressasse uma narrativa mais convincente, eu não tenho ilusão de que isso por si só solucionaria todos os problemas dele e nossos. No final tudo volta para nós: nós temos que exigir a verdade de nossos políticos e estarmos prontos para aceitá-la nós mesmos. Nós simplesmente não temos outra presidência para desperdiçar. Não há mais anos gordos de reserva. Se Obama fracassar, nós todos fracassaremos.
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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