Qual partido irá construir a ponte dos Estados Unidos para o século 21?

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Não sou especialista em política norte-americana, mas sei alguma coisa sobre buracos. E observando a forma como o Partido Republicano está reagindo à aprovação do projeto de lei para a saúde pública, parece que ele está violando a primeira regra dos buracos: “Quando você estiver dentro de um, pare de cavar.”

Sim, eu sei, as pesquisas mostram que o Partido Republicano não está se prejudicando com a estratégia do “basta dizer não”. Mas tampouco há uma ideologia a caminho. Os republicanos terão que se sair com mais do que “basta-dizer-não-para-tudo-exceto-para-baixar-os-impostos-e-perfurar-mais” para lançar um candidato convincente à presidência em 2012. Eis o motivo:

Se você olhar para trás, pode argumentar que George W. Bush levou a Revolução Reagan – com sua ênfase na redução de impostos, na desregulação e na visão do governo como um problema e não como solução – à sua conclusão lógica, e até um pouco além. Mas com o crescimento do déficit e a crise financeira causada por um excesso de desregulação, o reaganismo chegou ao seu limite. Enquanto isso, a aprovação da reforma da saúde do presidente Obama está levando a Revolução de Franklin Roosevelt e o New Deal à sua conclusão lógica. Não haverá maiores direitos para os norte-americanos. O mercado de bônus garantirá isso.

Em outras palavras, os dois grandes partidos concluíram agora suas antigas missões do século 20, estabelecidas pela primeira vez por seus ícones. A verdadeira questão é qual partido irá construir a ponte dos Estados Unidos para o século 21 – uma que fortaleça nossa capacidade de competir na economia global, e ao mesmo tempo tenha uma disciplina fiscal bem maior.

Obama está pelo menos tentando executar um programa para perseguir o sonho norte-americano nessas novas circunstâncias. Não concordo com todas as políticas – gostaria de ver muito mais ênfase na inovação e nas pequenas empresas – mas ele está claramente tentando. Não tenho a mesma impressão dos republicanos, e especialmente daqueles liderados pelos integrantes das Tea Parties.

O “Obamismo” postula que vivemos numa economia global hipercompetitiva, em que para ser bem sucedido um país precisa reunir a força de trabalho mais escolarizada, criativa e diversa, com a melhor infraestrutura – banda larga, portos, aeroportos, trens de alta velocidade e boa governança. E estamos num mundo em aquecimento que passará de 6,8 bilhões de habitantes para 9,2 bilhões em 2050, então a demanda por energia limpa está explodindo. Portanto, a TE – tecnologia energética – será a próxima grande indústria global.

Então, o governo importa. Ele precisa incentivar as empresas a construírem suas fábricas nesse país – numa época em que todas as outras nações estão dando incentivos; ele precisa recrutar imigrantes altamente capacitados; precisa estabelecer os mais elevados parâmetros de educação e financiar pesquisas básicas; precisa estabelecer as leis certas para a energia, que irão estimular mais companhias de tecnologia limpa.

E – algo que nem os democratas nem os republicanos encararam até agora – teremos de pagar por tudo isso ao mesmo tempo que aumentamos alguns impostos, cortamos outros, e abrimos mão de alguns serviços para custear novos investimentos necessários em infraestrutura e educação. Não podemos mais aceitar um Partido Republicano que quer cortar impostos, mas nunca especifica quais serviços pretende eliminar, ou um Partido Democrata que quer aumentar os serviços cobrando impostos só dos ricos.

“A reforma da saúde foi o ato final do New Deal”, argumenta Edward Goldberg, professor de negócios globais no Baruch College e está escrevendo um livro sobre a globalização e a política dos EUA. “O século 21 exigirá uma mistura de cortes, investimentos, inovação e empreendedorismo muito maior do que qualquer coisa que já sonhamos”. Dizer simplesmente que o governo não é a resposta é tolice, acrescenta ele, “quando estamos envolvidos em quatro guerras – Iraque, Afeganistão, a Grande Recessão e a readaptação da economia norte-americana”. O bom governo precisa ser um líder ou um parceiro silencioso em todos esses projetos.

Um dos motivos pelos quais o Partido Republicano não conseguiu gerar uma proposta para o século 21 é que a globalização fragmentou o partido. Sua ala corporativa multinacional/Wall Street entende que precisamos de imigração, comércio livre, tecnologia limpa e apoio do governo para uma melhor infraestrutura e das pesquisas científicas que são a fonte da inovação. A ala Tea Party se opõe praticamente a todas essas coisas. Tudo o que une as duas alas é o seu desejo comum por impostos mais baixos – ponto final.

A globalização também enfraqueceu os democratas trabalhistas e sindicalistas, mas eles absorveram um novo eleitorado criado pela globalização – o que Goldberg chama de “Newocracy” [“Neocracia”] - que combina o gerente da corporação multinacional, o empreendedor e o engenheiro de tecnologia, e aqueles que aspiram ser membros da meritocracia.”

Antigamente esses “neocratas” teriam se inclinado para os republicanos, mas agora muitos tendem para o lado e Obama. Eles não concordam com tudo o que o presidente propõe, mas sentem que ele está trabalhando na construção daquela ponte para o século 21, enquanto os Republicanos/Tea Party simplesmente não estão no jogo. Hoje, não temos um verdadeiro partido de oposição com seu projeto próprio para o século 21. Temos apenas uma oposição.

Tradutor: Eloise De Vylder

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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