Obama comete os erros do 11 de Setembro no vazamento de petróleo do Golfo

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Charles Dharapak/AP

    Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, é informado pelo comando da guarda costeira norte-americana em Venice, na Louisiana, sobre a mancha de óleo derramada no Golfo do México

    Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, é informado pelo comando da guarda costeira norte-americana em Venice, na Louisiana, sobre a mancha de óleo derramada no Golfo do México

A forma como o presidente Barack Obama tem lidado com o vazamento de petróleo no golfo tem sido decepcionante. 

Eu digo isso não porque endosso as críticas desonestas dos conservadores de que o vazamento de petróleo no golfo é de alguma forma o Katrina de Obama, e que ele está exibindo a mesma incompetência que George W. Bush exibiu após aquele furacão. Pelo contrário, a equipe de Obama tem feito um bom trabalho na coordenação da limpeza até agora. O presidente está em cima disso desde o início. 

Não, o vazamento de petróleo no Golfo não é o Katrina de Obama. É seu 11 de Setembro –e é decepcionante vê-lo cometer o mesmo erro que George W. Bush cometeu em seu 11 de Setembro. O 11 de Setembro de 2001 foi um daqueles raros eventos sísmicos que criam a possibilidade de mobilizar o país a fazer algo realmente importante e duradouro, o que é difícil demais de ser feito em tempos normais. 

O grande fracasso do presidente Bush não foi o Iraque, o Afeganistão ou o Katrina. Foi seu fracasso de imaginação após o 11 de Setembro para mobilizar o país a apoiar uma iniciativa realmente grande de construção de nação nos Estados Unidos. Eu sugeri um “Imposto Patriota” de US$ 1 por galão de gasolina, que poderia ter simultaneamente reduzido nosso déficit, financiado pesquisa básica em ciência, diminuído nossa dependência de petróleo importado dos mesmos países cujos cidadãos executaram o 11 de Setembro, fortalecido o dólar, estimulado a eficiência em energia, a energia renovável e desacelerado a mudança climática. Foi o momento “Nixon com a China” do homem do petróleo do Texas –e Bush o perdeu. 

Se tivéssemos feito isso naquela manhã de 12 de setembro –quando a gasolina custava em média US$ 1,66 o galão– a maioria dos americanos teria apoiado. Eles queriam fazer algo e fortalecer o país que amavam. Em vez disso, Bush disse para alguns poucos de nós irem para a guerra e o restante ir às compras. Assim, hoje, a gasolina custa o dobro nas bombas, com grande parte desse aumento indo para países hostis aos nossos valores, enquanto a China está rapidamente se transformando na líder mundial em energia solar, eólica, carros elétricos e trens de alta velocidade. Belo trabalho. 

Infelizmente, o presidente Obama parece disposto a desperdiçar seu 11 de Setembro ambiental com um fracasso de imaginação do nível de Bush. Até o momento, a política de Obama é: “Pense pequeno e carregue um grande porrete”. Ele está acertadamente batendo nos executivos das companhias de petróleo. Mas ele não está oferecendo nenhuma grande estratégia para colocar um fim ao nosso vício em petróleo. Os senadores John Kerry e Joe Lieberman apresentaram seu novo projeto de lei de energia, que o presidente apoiou, mas apenas de modo tépido. Por que tépido? Porque Kerry-Lieberman adota taxas altamente importantes sobre as emissões de carbono, algo que a Casa Branca teme que será explorado pelos republicanos nas eleições de novembro. O Partido Republicano, ela teme, gritará “imposto” sobre o carbono para todo democrata que apoiar esse projeto de lei, e Obama, após já ter pressionado os democratas a darem um voto difícil na reforma da saúde, sente que não pode pedir isso de novo. 

Eu não aceito. Após este vazamento de petróleo histórico, a política certa –um projeto de lei para ajudar a acabar com nosso vício em petróleo– também é a politicamente correta. As pessoas estão à frente de seus políticos. Assim como os militares americanos. Há muitos conservadores que apoiariam um imposto sobre o carbono ou sobre a gasolina se ele fosse compensado por um corte no imposto de renda deduzido na fonte ou nos impostos corporativos, de forma que estimularíamos novos empregos e limparíamos o ar ao mesmo tempo. Se os republicanos rotularem os democratas de “taxadores da gasolina”, então os democratas os rotulariam de “conservadores pró-Opep” ou “Amigos da BP”. 

Por que Obama está jogando na defensiva? Quanto petróleo precisa vazar no golfo, quanta vida selvagem precisa morrer, quantas mesquitas radicais precisam ser construídas com nosso compra de gasolina para produzir mais homens-bomba de Times Square, antes de se tornar politicamente “seguro” para o presidente dizer que acabará com nosso vício em petróleo? De fato, onde está a “Lei Obama para Acabar com o Vício em Petróleo”? Por que tudo tem que vir da Câmara e do Senado? O que ele quer? Qual é a visão dele? Quais são seus limites? Eu não sei. Mas eu sei que sem um preço fixo de longo prazo ao carbono, nenhum dos importantes investimentos do presidente em pesquisa e desenvolvimento de energia limpa resultará em algo. 

Obama formou uma grande equipe capaz de ajudá-lo a expor seu argumento –John Holdren, consultor de ciência; Carol Browner, consultora de energia; o secretário de Energia, Steven Chu, um ganhador do Prêmio Nobel; e Lisa Jackson, chefe da Agência de Proteção Ambiental. Mas eles foram terrivelmente subutilizados pela Casa Branca. Eu conheço espécies ameaçadas de extinção que são vistas com mais frequência pelo público do que eles. 

Obama não é apenas nosso coordenador de super desastre. “Ele é nosso líder”, notou Tim Shriver, o presidente das Paraolimpíadas. “E ser um líder significa dizer ao restante de nós qual é nosso trabalho, o que precisamos fazer para tornar este um momento transformador.” 

Por favor, não nos diga que nosso papel é apenas odiar a BP, fazer compras no Mississippi ou aguardar pela investigação de uma comissão. É claro que não podemos eliminar a exploração de petróleo ou a dependência da noite para o dia, mas será que podemos finalmente começar? Sr. presidente, seus conselheiros estão errados: os americanos estão ávidos por sua liderança neste assunto. O senhor vai canalizar a boa vontade deles em algo que fortaleça nosso país –a “Lei Obama para Acabar com o Vício em Petróleo”– ou também vai desperdiçar seu 11 de Setembro?

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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