Estilo de vida é responsável pelo desastre ambiental no golfo do México

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Meu amigo Mark Mykleby, que trabalha no Pentágono, compartilhou comigo esta carta dele que foi publicada na semana passada no jornal de sua cidade, "The Beaufort Gazette", na Carolina do Sul. É a melhor reação que já vi ao vazamento de petróleo da BP - e também o melhor conselho ao presidente Barack Obama sobre exatamente em quem dar um pontapé naquele lugar.

"Eu gostaria de participar do jogo de acusações que passou a definir nossa abordagem nacional do atual desastre ambiental no golfo do México. Ele não é culpa da BP. Não é culpa do governo. É minha culpa. Eu sou culpado e sinto muito. É minha culpa porque eu não digeri as claras sugestões do mundo de que talvez eu devesse pensar no futuro e modificar o modo insustentável como levo minha vida. Se as mudanças geopolíticas, econômicas e tecnológicas da década de 1990 não o fizeram; se os ataques terroristas de 11 de Setembro não o fizeram; se a atual crise econômica não o fez ; talvez esse vazamento de petróleo seja o catalisador para que eu, como cidadão, me livre do meu estilo de vida baseado no petróleo. 'Cidadão' é a palavra-chave. É o que nós fazemos como indivíduos que importa.

Para os da esquerda, a regulamentação do governo não vai resolver esse problema. O papel do governo deveria ser criar um ambiente de oportunidade para aproveitar a inovação e o empreendedorismo que nos definem como americanos. Para os da direita, se você quer menos governo e impostos, então decida o que você vai abandonar e no que vai contribuir. Aqui está a linha final: se quisermos pôr fim a nossa dependência do petróleo, nós, como cidadãos, precisamos: pedalar para o trabalho, plantar uma horta, fazer alguma coisa. Por isso, mais uma vez, o vazamento de petróleo é minha culpa. Sinto muito. Eu não fiz minha parte. Agora preciso convencer minha mulher a desistir de seu carrão. Mark Mykleby."

Eu acho que a carta de Mykleby toca em algo muito importante: não podemos consertar o que prejudica os EUA a menos que examinemos honestamente nossos próprios papéis na criação desses problemas. Nós - ambos os partidos - criamos um horrível conjunto de incentivos que encorajou nossos melhores alunos a ir para Wall Street para criar instrumentos financeiros malucos em vez de ir para o Vale do Silício criar novos produtos para melhorar a vida das pessoas. Nós - ambos os partidos - criamos incentivos fiscais maciços e dinheiro barato para oferecer hipotecas para pessoas que realmente não tinham meios de sustentá-las. E nós - ambos os partidos - mandamos a BP para o golfo para conseguir para nós o máximo de petróleo possível pelo preço mais barato. (É claro que esperávamos que eles tomassem cuidado, mas quando se perfuram poços de petróleo embaixo de 1.500 metros de água, coisas acontecem.)

Como diria Pogo, encontramos o inimigo e ele somos nós.

Mas isso significa que também somos a solução - se formos sérios. Veja, conseguimos sobreviver ao 11 de Setembro sem deixar que ele destruísse nossa sociedade aberta ou o Estado de direito. Conseguimos sobreviver à quebra de Wall Street sem deixar que ela destruísse nossa economia. Possivelmente sobreviveremos ao vazamento de petróleo da BP sem que ele destrua nossos ecossistemas costeiros. Mas não podemos forçar nossa sorte.

Temos de usar essa janela de oportunidade para nos isolarmos o máximo possível de todas as coisas ruins que podemos controlar e ser sérios para resolver os problemas que podemos controlar. Precisamos tornar todo o nosso país mais sustentável. Por isso vamos aprovar uma lei de energia-clima que realmente reduza nossa dependência do petróleo do Oriente Médio. Vamos aprovar uma reforma dos regulamentos financeiros que realmente reduza a probabilidade de outra crise bancária. Vamos colocar nossa casa fiscal em ordem, enquanto a economia se recupera. E vamos aprovar uma lei de imigração que nos permita atrair os melhores talentos do mundo e continuar sendo o líder mundial em inovação.

Precisamos de todos os anteparos que pudermos conseguir agora, porque vivemos em um mundo de ameaças entrelaçadas em cascata que têm o potencial de virar nosso país de ponta-cabeça a qualquer momento. Não sabemos quando o próximo homem-bomba de Times Square poderá ter sorte. Não sabemos quanto tempo os EUA e Israel vão tolerar o programa nuclear do Irã. Não sabemos se o Paquistão vai se manter unido e o que poderá acontecer com suas armas nucleares. Não sabemos quando a Coreia do Norte vai enlouquecer. Não sabemos se a União Europeia poderá continuar financiando a dívida da Grécia, Hungria e Espanha - e que contágio financeiro poderá provocar se não puder.

"Não é nossa imaginação", diz o consultor de estratégia corporativa Peter Schwartz - há muito mais coisas assustadoras pairando sobre o mundo hoje. Desde o fim da Guerra Fria e a ascensão da internet, perdemos os muros e as superpotências que juntas mantinham os problemas do mundo mais contidos. Hoje, unidades cada vez menores podem provocar confusões cada vez maiores - e qualquer confusão que seja criada hoje se espalha mais depressa e mais longe que nunca.

É por isso que precisamos solucionar os grandes problemas que estão sob nosso controle, e não adiá-los ou fingir que mais soluções dirigidas pelos lobbies, pelo mínimo denominador comum, ainda são satisfatórias. Uma crise é algo terrível de se desperdiçar, mas uma recuperação e um alívio para respirar - que é o que temos neste momento - é algo realmente terrível de desperdiçar. Não queremos olhar para trás neste momento e dizer: como pudemos voltar aos negócios como sempre e aos obstáculos políticos mesquinhos, com tantos cisnes negros circulando à nossa volta? Então realmente vamos chutar a nós mesmos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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