O Grande Jogo no Afeganistão

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

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    O especialista Misha Pemble-Belkin (esq.) e outros soldados de sua companhia durante um combate no posto avançado de Restrepo no vale Korengal, no Afeganistão

    O especialista Misha Pemble-Belkin (esq.) e outros soldados de sua companhia durante um combate no posto avançado de Restrepo no vale Korengal, no Afeganistão

O tesouro de informações do WikiLeaks relativo ao fracassado esforço de guerra dos Estados Unidos no Afeganistão tem provocado muitas reações, mas na minha opinião ele contém uma mensagem clara. Na verdade, a mensagem é nada mais do que uma antiga dica que os seus pais podem lhe ter dado antes que você entrasse na universidade: “Se você está em um jogo de pôquer e não sabe quem é o o mau jogador, então o mau jogador provavelmente é você”.

E no caso do Grande Jogo da Ásia Central, o mau jogador somos nós.

Até onde eu posso afirmar com base nos documentos do WikiLeaks e de outras fontes, nós estamos pagando ao exército e ao serviço de inteligência do Paquistão para que eles tenham duas faces. Caso contrário, eles teriam uma face só e estariam 100% contra nós. Provavelmente o mesmo pode ser dito quanto ao presidente do Afeganistão, Hamid Karzai. Mas o fato é que todos lá estão usando uma máscara – ou duas.

A China apoia o Paquistão, procura obter contratos de mineração no Afeganistão e deixa os Estados Unidos transformarem o Afeganistão em um território seguro para as companhias chinesas, tudo isso enquanto riem dos percalços dos Estados Unidos em Cabul, porque tudo o que prejudique as forças armadas dos Estados Unidos deixa as forças armadas chinesas felizes. Enquanto isso, os Estados Unidos enviam os seus soldados para lutarem no Afeganistão ao mesmo tempo em que rejeitam uma política energética que começaria a reduzir o nosso consumo de petróleo, que indiretamente ajuda a financiar exatamente aquelas escolas e combatentes do Taleban contra os quais os Estados Unidos estão lutando.

Sendo assim, porque suportamos tamanha duplicidade? Será que o presidente Barack Obama é simplesmente um tolo?

Não, o quadro é mais complicado. Esse jogo duplo remonta ao 11 de setembro de 2001. Aquele ataque terrorista foi basicamente executado e financiado por radicais paquistaneses e sauditas. E nós respondemos invadindo o Iraque e o Afeganistão. Por que? A resposta resumida é: porque o Paquistão possui armas nucleares e a Arábia Saudita tem o petróleo que nós desejamos.

Assim, nós tentamos provocar um impacto sobre eles de forma indireta. Nós esperávamos que a construção de um governo democratizante decente no Iraque influenciasse reformas na Arábia Saudita e em outros países. E, após expelirmos a Al Qaeda do Afeganistão, nós permanecemos lá para estabilizar o país, em grande parte por temermos que a instabilidade no Afeganistão pudesse se espalhar para o Paquistão e possibilitar que radicais islamitas assumissem o controle sobre Islamabad e as suas armas nucleares.

Essa estratégia não funcionou de fato porque o Paquistão e a Arábia Saudita se fundamentam em um sistema de barganha de poder que é a fonte das suas patologias e dos nosso medos.

O Paquistão, 63 anos após a sua fundação, ainda tem como principal objetivo não fazer parte da Índia. O exército paquistanês é obcecado por aquilo que diz ser a ameaça representada pela Índia – e manter essa ameaça viva é o que mantém o exército paquistanês no controle do país e dos seus recursos básicos. A ausência de uma democracia estável ou de um sistema de educação pública decente no Paquistão somente faz com que aumentem os quadros do Taleban e de outras forças de resistência islâmica no país. O Paquistão acredita que precisa controlar o Afeganistão para contar com “profundidade estratégica” porque, caso a Índia dominasse o Afeganistão, o Paquistão ver-se-ia imprensado entre os dois países.

Mas se o Paquistão construísse a sua identidade com base no seu próprio povo talentoso e visse a sua profundidade estratégica não no Afeganistão, mas sim na qualidade das suas escolas, fazendas e indústrias, ele poderia criar uma democracia estável – e nós nos preocuparíamos mais com as armas nucleares do Paquistão do que nos preocupamos com as da Índia.

A Arábia Saudita é construída em torno de uma barganha de poder entre a moderada família al-Saud e o establishment fundamentalista wahhabista: os al-Saud ficam com o governo e os wahhabistas podem impor à sociedade o islamismo mais puritano – e exportá-lo para mesquitas e escolas de todo o mundo muçulmano, incluindo o Paquistão, com o dinheiro obtido com a venda de petróleo ao Ocidente.

Assim, as armas nucleares do Paquistão são um problema para nós devido à natureza daquele regime, e a riqueza petrolífera da Arábia Saudita representa um problema devido também à natureza do regime saudita. Nós optamos por fazer um jogo duplo com ambos os países porque acreditamos que as alternativas seriam ainda piores.

Assim, nós pagamos ao Paquistão para nos ajudar no Afeganistão, ainda que saibamos que parte desse dinheiro está matando os nossos próprios soldados, porque tememos que, se simplesmente nos retirássemos, acabaríamos permitindo que os islamitas paquistaneses controlassem o arsenal atômico do país. E nós mandamos dinheiro à Arábia Saudita em troca de petróleo, ainda que estejamos cientes de que parte desse dinheiro acabará financiando exatamente aqueles indivíduos que estamos combatendo, porque confrontar os sauditas quanto às suas exportações ideológicas parece ser algo muito desestabilizador (os viciados nunca contam a verdade para os seus fornecedores).

Mas existe alguma outra opção? Sim. Se nós não podemos simplesmente nos retirar, devemos pelo menos reduzir as nossas apostas. Devemos limitar a nossa presença e os nossos objetivos no Afeganistão ao mínimo necessário para assegurar que a confusão naquele país não se alastre para o Paquistão ou possibilite um retorno da Al Qaeda. E nós deveríamos diminuir a nossa dependência do petróleo de forma que sofrêssemos menos impacto com aquilo que acontece na Arábia Saudita, e desta forma reduzíssemos as verbas que vão parar nas mãos de gente que nos odeia, e fizéssemos com que a reforma econômica e política fosse uma necessidade para eles, e não um hobby.

Mas nós não contamos nem com o dinheiro, nem com os recursos humanos nem com o tempo necessário para transformar totalmente os países mais problemáticos da região. Essa transformação só acontecerá quando eles quiserem. Porém, nós temos a tecnologia, a necessidade e os elementos inovadores para nos protegermos deles – e para aumentar a pressão para que eles desejem mudar – com o desenvolvimento de fontes alternativas ao petróleo. É hora de darmos início a essa mobilização. Eu estou cansado de ser o mau jogador nesse jogo.

Tradutor: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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