Documentário mostra a realidade da relação entre Israel e os habitantes de Gaza

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Said Khatib /AFP

    Um fazendeiro palestino inspeciona um poço de água em uma construção destruída por um ataque de Israel, na cidade de Rafah, que fica na Faixa de Gaza

    Um fazendeiro palestino inspeciona um poço de água em uma construção destruída por um ataque de Israel, na cidade de Rafah, que fica na Faixa de Gaza

Eu acabei de assistir a um documentário dirigido por Shlomi Eldar, o repórter da rede de notícias israelense Canal 10 para a Faixa de Gaza. Intitulado “Precious Life” (“Vida Preciosa”), o filme narra a história de Mohammed Abu Mustafa, um bebê palestino de quatro meses que sofre de uma rara deficiência imunológica. Comovido com o sofrimento do bebê, Eldar ajuda Mohammed e a mãe dele a irem da Faixa de Gaza para o Hospital Tel Hashomer para que a criança receba um tratamento de medula capaz de salvar a sua vida. A operação custa US$ 55 mil (R$ 96 mil). Eldar fez um apelo por doações na TV israelense e em uma questão de horas um judeu israelense cujo próprio filho foi morto durante o serviço militar doou todo o dinheiro.

No entanto, o documentário passa por uma reviravolta dramática quando a mãe do bebê palestino, Raida, que está sendo desprezada pelos outros cidadãos da Faixa de Gaza devido ao fato de o seu filho ter recebido tratamento em Israel, afirma impulsivamente que espera que, quando cresça, a criança torne-se um homem-bomba suicida para ajudar a recuperar Jerusalém. Raida diz a Eldar: “Desde o menor bebê, menor até do que Mohammed, até a pessoa mais velha, nós nos sacrificaremos por Jerusalém. Nós sentimos que temos o direito de fazer isso. Temos liberdade para sentir raiva. Portanto, sintamos raiva”.

Eldar ficou arrasado com a declaração da mulher, e parou de fazer o filme. Mas esse não é um filme de propaganda israelense. O drama da salvação do garoto palestino em um hospital israelense é contraposto às retaliações israelenses aos foguetes lançados da Faixa de Gaza; retaliações que matam famílias palestinas inteiras. O médico Raz Somech, o especialista que trata Mohammed como se este fosse o seu próprio filho, é convocado para serviço militar de reserva na Faixa de Gaza quando as filmagens estão pela metade. A corrida de israelenses e palestinos para salvar uma vida é inserida na rotina mais ampla das duas comunidades que se destroem mutuamente.

“Está claro para mim que a guerra na Faixa de Gaza foi justificada – nenhum país pode permitir que o ataquem com foguetes Qassam –, mas eu não vi muita gente entristecida devido à perda de vidas do lado palestino”, declarou Eldar ao jornal israelense Haaretz. “Como estávamos tão furiosos com o Hamas, tudo o que a população israelense desejava era arrasar com a Faixa de Gaza... Foi só depois do incidente envolvendo o doutor Abu al-Aish – o médico da Faixa de Gaza com quem eu falei ao vivo na televisão imediatamente após um projétil de artilharia ter atingido a casa dele, matando as suas filhas; ele estava gritando de desespero e medo – que eu descobri a maioria silenciosa israelense que sente compaixão pelas pessoas, incluindo os palestinos. Eu descobri que muitos telespectadores israelenses compartilham os meus sentimentos”. Assim, Eldar terminou o documentário sobre como a vida de Mohammed foi salva em Israel.

O seu filme não editado reflete o Oriente Médio que eu conheço – um lugar repleto de surpreendente compaixão, mesmo entre inimigos, e de uma crueldade estarrecedora, mesmo entre vizinhos.

Eu escrevo sobre isso porque existe algo de podre no ar. Eu me refiro a uma tendência, tanto deliberada quanto involuntária, de deslegitimar Israel – de transformar Israel em um Estado pária, especialmente após a guerra de Gaza. Nós escutamos o diretor Oliver Stone dizendo coisas malucas sobre como Hitler matou mais russos do que judeus, mas, não obstante, os judeus conquistaram mais atenção por dominarem a mídia e porque o lobby deles controla Washington. Ouvimos o primeiro-ministro britânico descrevendo a Faixa de Gaza como um enorme “campo de prisioneiros” israelense e o primeiro-ministro da Turquia afirmando ao presidente de Israel: “Quando o negócio é matar, vocês sabem muito bem como fazer isso”. Vemos cantores cancelando shows em Tel Aviv. Quem tivesse acabado de chegar de Marte poderia achar que Israel é o único país do mundo que matou civis em guerras – jamais o Hamas, o Hezbollah, a Turquia, o Irã, a Síria ou os Estados Unidos.

Eu não estou aqui para defender o mau comportamento de Israel. Muito pelo contrário. Eu argumento há muito tempo que os assentamentos coloniais israelenses na Cisjordânia são suicidas para Israel como democracia judaica. Eu acredito que os amigos de Israel precisam dizer isso com a maior frequência e intensidade possível.

Mas existem dois tipos de crítica. A crítica construtiva começa deixando claro: “Eu sei em que mundo vocês estão vivendo”. Eu sei que o Oriente Médio é um local em que sunitas massacram xiitas no Iraque, o Irã mata os seus próprios eleitores, a Síria supostamente assassina o primeiro-ministro do país vizinho, a Turquia massacra os curdos e o Hamas lança foguetes indiscriminadamente e se recusa a reconhecer a existência de Israel. Eu sei de tudo isso. Mas o comportamento de Israel, às vezes, só piora a situação – tanto para palestinos quanto para israelenses. Se dissermos aos israelenses que entendemos o mundo em que eles vivem, e a seguir fizermos críticas, eles escutarão.

A crítica destrutiva fecha os ouvidos dos israelenses. Ela diz aos israelenses: não há como explicar o comportamento de vocês, e os seus erros são tão unicamente errados que eles eclipsam todos os erros dos outros. A crítica destrutiva classifica a Faixa de Gaza de prisão israelense, sem sequer mencionar que caso o Hamas tivesse decidido – após Israel ter se retirado unilateralmente da Faixa de Gaza – transformar o território em um Dubai, em vez de em uma Teerã, Israel também teria se comportado de forma diferente. A crítica destrutiva só fortalece os elementos mais destrutivos em Israel, que argumentam: “Nada que Israel faz tem importância, sendo assim por que mudar?”.

Que tal todos respirarem fundo, colocarem uma cópia de “Precious Live” nos seus aparelhos de DVD e assistirem a esse documentário sobre o Oriente Médio real? E, caso alguém ainda queira fazer uma crítica (como eu quero), que faça uma crítica construtiva. Uma quantidade bem maior de israelenses e palestinos dará ouvidos a quem agir dessa maneira.

Tradutor: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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