Uma incerteza realmente incomum rege a situação econômica dos EUA e Europa

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Berlim (Alemanha)
  • Shawn Thew/EFE

    Obama assina versão final da reforma da saúde dos EUA

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No decorrer das últimas semanas eu tive a oportunidade de conversar com autoridades econômicas importantes nos Estados Unidos e na Alemanha, e creio que descobri em que situação nós nos encontramos. Nós nos encontramos mais ou menos no seguinte pé: as coisas estão melhorando, exceto onde elas não estão melhorando. Os bailouts (operações de resgate financeiro de empresas em dificuldades) estão funcionando, exceto onde eles não estão funcionando. Devagar, as coisas melhorarão, a menos que elas, devagar, piorem. E nós deveremos saber o que acontecerá em breve, a menos que não venhamos a saber.

Não é de se admirar que as empresas estejam exibindo tamanha relutância em contratar funcionários diante de tanta “incerteza incomum”, conforme o presidente do Fed (o banco central dos Estados Unidos) define a situação. Um dos motivos pelos quais isso é tão incomum é o fato de nós não estarmos apenas tentando nos recuperar de uma crise financeira provocada pelo empréstimo maluco de dinheiro para a aquisição de imóveis. Nós estamos tendo também que lidar com três enormes problemas estruturais que se acumularam durante várias décadas e que atingiram, ao mesmo tempo, um ponto crítico.
E, conforme tem repetido Mohamed El-Erian, o diretor-executivo da Pimco, “Problemas estruturais necessitam de soluções estruturais”. Não existe nenhuma solução rápida. Nos Estados Unidos e na Europa, nós precisaremos de alguns grandes consertos estruturais para retornarmos à rota do crescimento sustentável – mudanças que exigirão um grau de consenso político e de sacrifícios que encontra-se terrivelmente ausente até este momento na maioria dos países.

O primeiro grande problema estrutural são os Estados Unidos. Nós acabamos de encerrar mais de uma década de crescimento alimentado por dívidas, durante a qual nós tomamos dinheiro emprestado da China para que pudéssemos nos presentear com uma redução de impostos e outras regalias, sem que tivéssemos, entretanto, reduzido os gastos ou feito investimentos de longo prazo em novos catalizadores de crescimento. Agora o nosso governo está mais endividado e tem mais obrigações futuras do que nunca – como a ampliação dos benefícios referentes à prescrição de medicamentos via Medicare, a ampliação do sistema de saúde, a ampliação da guerra no Afeganistão, ampliação dos pagamentos do Social Security (porque os baby boomers, os membros da geração nascida entre 1946 e 1964, estão prestes a se aposentar) e menos crescimento econômico real para cobrir todos esses custos.

Os Estados Unidos provavelmente irão precisar de alguns estímulos extras para estimular a criação de empregos, mas neste momento qualquer estímulo precisa ser dirigido para investimentos capacitadores de crescimento que gerarão um valor maior do que os seus custos. Caso contrário, tais estímulos só farão com que a dívida cresça. Isso significa investimentos em construção de capacitação profissional e de infraestrutura, bem como incentivos fiscais para a criação de novos negócios e a promoção das exportações. Para que um estímulo econômico seja aprovado pelo congresso, ele terá que ser acompanhado de cortes de gastos e/ou aumentos de impostos implementados para quando a situação econômica melhorar.

Segundo, o ponto de inflexão da solvência dos Estados Unidos está coincidindo com um ponto de inflexão tecnológico. Graças à difusão da Internet, ao crescimento da computação em nuvem e das redes sociais, e à transição dos desktops e laptops para iPads e iPhones, a tecnologia está destruindo em um ritmo mais acelerado empregos mais antigos e de menor qualificação que pagavam um salário decente, e ao mesmo tempo criando empregos que pagam um salário decente, mas que exigem um nível educacional mais elevado do que nunca.

Só existe uma maneira de enfrentar esse desafio: mais inovações para estimular novas indústrias e empregos capazes de pagar aos trabalhadores US$ 40 (R$ 70) por hora, juntamente com uma iniciativa substancial para treinar mais norte-americanos, com o objetivo de ganhar esses empregos dos nossos concorrentes mundiais. Não existe nenhuma outra maneira.

Mas a economia global necessita também de uma Europa saudável, e o terceiro desafio estrutural com o qual nós nos deparamos é o fato de a União Europeia, um mercado enorme, estar enfrentando aquilo que o ex-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, John Kornblum, chama de a sua primeira “crise existencial”. Pela primeira vez, observou ele, a União Europeia “depara-se com a possibilidade de entrar em colapso”. A Alemanha deixou claro que, para que a zona do euro continue existindo, ela terá que se nortear pela ética de trabalho alemã, e não pela grega. Mas será que os parceiros da Alemanha na zona do euro serão capazes de elevar os seus padrões? Isso é algo de incerto.

Acompanhar o ritmo da Alemanha não será fácil. Uma década atrás, a Alemanha era “o problema da Europa”. Mas isso não ocorre mais. Os alemães superaram aquela situação. Os sindicatos trabalhistas abriram mão de aumentos de salário e permitiram que as empresas aumentassem a competitividade e a flexibilidade da mão-de-obra, enquanto o governo subsidiava firmas para manter trabalhadores qualificados empregados durante a crise econômica. Agora a Alemanha está em ascensão, mas o país também enfrenta problemas estruturais. O seu crescimento depende de exportações para a China, e a Alemanha é a maior financiadora da Grécia. “Mesmo assim, a Alemanha não é mais aquele país com os estudantes mais velhos e os aposentados mais novos”, afirma Kornblum.

Contrastando com isso, os dois grandes partidos dos Estados Unidos ainda se agarram a crenças religiosas centrais como se nada tivesse mudado. Os republicanos tentam minar as iniciativas do presidente sempre que têm oportunidade e oferecem a sua receita do tipo reduções-de-impostos-resolverão-tudo – sem jamais especificarem de que serviços abrirão mão para que se possa arcar com os custos disso. O presidente Barack Obama nos deu um sistema expandido de saúde antes de expandir os recursos econômicos para sustentar esse sistema.

A gente ainda tem a impressão de que os nossos políticos estão dizendo: “Esperem um momento, parem tudo, nós temos que trabalhar juntos”. Será que essas pessoas não têm os seus próprios planos de aposentadoria 401(k) e filhos preocupados com o desemprego?

O presidente precisa levar as lideranças sindicalistas, empresariais e parlamentares a Camp David e não voltar de lá sem conseguir um grande acordo relativo a impostos, promoção do comércio, energia, estímulos econômicos e cortes orçamentários que deem ao mercado alguma certeza de que nós estamos nos movimentando juntos – não em relação a um bailout, mas sim no que se refere a um renascimento econômico para o século 21.

Vocês poderão dizer: “Não há chances de que isso aconteça”. Bom, neste caso o que eu posso dizer é que nós deveremos nos preparar para um longo período de desemprego persistente e de um crescimento econômico anêmico.
 

Tradutor: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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