Desculpas não aceitas

Umberto Eco

Umberto Eco

Você algum dia tentou procurar no Google o termo "eu pedi desculpas", "nós pedimos desculpas", ou algo semelhante? Quem fizer tal coisa obterá milhões de resultados. Em alguns dos primeiros sites de língua italiana que eu pesquisei, descobri um pedido de desculpas da Igreja Católica às vítimas de padres pedófilos, as desculpas de Gwyneth Paltrow a ativistas dos direitos dos animais por ter usado uma peça de pele em uma propaganda, as da Igreja Anglicana a Darwin pela reação inicial hostil às teorias do naturalista, as do Estado de Virgínia pela escravidão, as da Warner Brothers aos fãs de Harry Potter pelo atraso do lançamento do filme "Harry Potter and the Half-Blood Prince" ("Harry Potter e o Enigma do Príncipe"), as da Apple aos seus clientes devido ao atendimento ruim, as de um agressor italiano a um imigrante chinês por tê-lo espancado, as desculpas oficiais do governo canadense a ex-alunos índios de escolas residenciais pelo sofrimento infligido a pelo menos 150 mil crianças, desculpas similares do governo australiano à população aborígene, as de Rahm Emanuel - chefe de gabinete do presidente eleito Barack Obama - a um grupo anti-discriminatório árabe-americano pelos comentários feitos pelo seu pai, e as da Fiat a Pequim devido a uma referência ao Tibete nas propagandas do novo automóvel Lancia Delta da empresa.

Como os milhões de pedidos de desculpas na Internet incluem muitos que foram feitos no decorrer dos anos, você também encontrará as desculpas do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi a sua mulher por ter paquerado outras mulheres, as do papa Bento 16 aos muçulmanos por ter citado passagens de um texto medieval que muitos consideraram ofensivo, e as do papa João Paulo 2º a Galileu pelo fato de a igreja ter condenado o cientista italiano por heresia (e no momento em que Galileu foi desculpado a Terra voltou alegremente a girar em torno do Sol).

Mas eis a última notícia: em uma entrevista ao apresentador de notícias da rede de televisão ABC, o presidente George W. Bush esteve próximo de desculpar-se junto ao povo norte-americano por ter criado a Guerra do Iraque (que custou a vida de milhares de soldados norte-americanos, de algumas centenas de soldados aliados e de vários milhares de civis iraquianos, além de ter resultado em uma quantidade muito maior de pessoas feridas). Ele chegou até a admitir que Saddam Hussein não estava fabricando armas nucleares. Tudo foi culpa da "inteligência" (não confundir com "cérebros").

Não sei se essa moda de desculpas deveria ser atribuída à humildade cristã ou simplesmente à pura insolência: uma pessoa faz algo que não devia ter feito e depois diz que sente muito, lavando as mãos quanto ao assunto. Isso me faz lembrar da velha piada do caubói que cavalga pela pradaria e que de repente ouve uma voz que lhe diz que siga para Abilene. Quando ele chega lá, a voz lhe diz para entrar no saloon e apostar toda o seu dinheiro no número cinco na roleta. Hesitante, mas seduzido pela voz celestial, o caubói obedece. A bola para no número 18. A voz sussurra: "Sinto muito, nós perdemos".

Mas tem coisa pior. Algumas pessoas são tão cara-de-pau que sequer dizem que sentem muito. Estamos vivendo em um período de sem-vergonhice. Pessoas sob investigação por fraude frequentam calmamente clubes noturnos ou restaurantes badalados ou aparecem na televisão. Elas chegam até mesmo a dar autógrafos. Indivíduos responsáveis pela ruína financeira de famílias inteiras continuam voando por aí nos seus jatos particulares.

E há também aqueles que até o momento estão passando impunes pela história. Quando Bush lançou o ataque contra o Iraque, muita gente protestou e até os franceses se desvincularam da guerra. Naquele momento, muitos comentaristas europeus virtuosos rotularam imediatamente aqueles que se preocupavam com uma invasão norte-americana de terroristas e quinta-colunas pagos por Osama Bin Laden. E isto aconteceu na Europa, e não nos Estados Unidos, onde todos ficaram abalados após o 11 de setembro e as batatas fritas deixaram de chamar-se "French fries", para tornarem-se "freedom fries" (literalmente, "batatas francesas" e "batatas da liberdade").

Mas isso não é tudo. Quando Bush anunciou triunfalmente que a guerra no Iraque tinha sido vencida (uma outra mentira patética e evidente para qualquer pessoa dotada de bom senso), os seus apoiadores italianos escreveram artigos irônicos dirigidos aos que tinham dúvidas quanto à ação bélica norte-americana, dizendo: "Viram só? Nós tínhamos razão". Tratava-se de um argumento demente. Mesmo que a guerra tivesse sido ganha, isso não teria significado que havia bons motivos para que ela fosse iniciada. Hitler venceu todas as suas batalhas durante os primeiros anos da sua campanha, mas ele estava errado. Eu adoraria ver como os desavergonhados aqui na Itália reagirão quando Bush desculpar-se realmente pelos seus erros.

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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