O novo antissemitismo

Umberto Eco

Umberto Eco

No mês passado, em resposta à guerra em Gaza entre Israel e o Hamas, o pianista Daniel Barenboim pediu a intelectuais de todo o mundo que assinassem uma declaração exigindo uma nova iniciativa para resolver o conflito (ela foi recentemente publicada no "The New York Review of Books"). À primeira vista a intenção é quase ruidosamente óbvia: a meta básica é empregar todos os meios possíveis para pressionar por uma mediação vigorosa. Mas o que é significativo é que um grande artista israelense é o responsável por essa iniciativa.

É um sinal de que as mentes mais lúcidas de Israel e seus maiores pensadores estão pedindo às pessoas para pararem de questionar que lado está correto e que lado está errado, e em vez disso trabalharem para uma coexistência entre os dois povos. Neste sentido, seria possível entender os protestos políticos contra o governo israelense, não fosse pelo fato de que essas manifestações costumam estar impregnadas de antissemitismo.

Quando não são os próprios manifestantes que expressam uma posição explicitamente antissemita, então é a imprensa. Eu vi artigos que mencionam -apesar de ser a coisa mais óbvia no mundo - "manifestações antissemitas em Amsterdã" e coisas semelhantes. A esta altura isso parece tão normal que parece anormal considerá-la anormal. Mas vamos nos perguntar se definiríamos uma manifestação contra o governo Merkel na Alemanha como sendo antiariano, ou uma manifestação contra Berlusconi na Itália como antilatina.

Neste pequeno espaço é impossível resumir os séculos do problema do antissemitismo, seus ressurgimentos ocasionais, suas várias raízes. Quando uma posição sobrevive por 2 mil anos, ela cheira à fé religiosa - a crenças fundamentalistas. O antissemitismo poderia ser definido como uma das muitas formas do fanatismo que envenenou nosso mundo ao longo de séculos. Se muitas pessoas acreditam na existência de um diabo que trama para nos conduzir à danação, por que também não acreditariam em uma conspiração judaica para conquistar o mundo?

O antissemitismo, como todas as posturas irracionais e de fé cega, está cheio de contradições; seus adeptos não as percebem, mas as repetem sem qualquer embaraço. Por exemplo, nas obras antissemíticas clássicas do século 19, dois lugares comuns eram empregados como exigia a ocasião. Um era o de que os judeus, que viviam em lugares escuros e apertados, eram mais suscetíveis do que os cristãos a infecções e doenças (e, portanto, eram perigosos). Por motivos misteriosos, o segundo dizia que os judeus eram mais resistentes a pragas e outras epidemias, assim como sensuais e assustadoramente fecundos, e portanto eram invasores ameaçadores ao mundo cristão.

Outro lugar comum eram amplamente empregado tanto pela esquerda quanto pela direita, e como exemplo cito um clássico do antissemitismo socialista (Alphonse Toussenel, "Les Juifs, Rois de l'Époque", 1847) e um clássico do antissemitismo legitimista católico (Henri Gougenot des Mousseaux, "Le Juif, le Judaisme et la Judaisation des Peoples Chretiens", 1869). Ambos os livros argumentam que os judeus não praticavam a agricultura e, portanto, eram distantes da vida produtiva dos países nos quais residiam. Por outro lado, eles eram supostamente dados às finanças, e isso significa a posse de ouro. Portanto, sendo nômades por natureza, e atraídos por suas esperanças messiânicas, eles poderiam abandonar prontamente os Estados que os acolheram e poderiam facilmente levar todas as riquezas consigo. Eu não vou comentar o fato de outras obras antissemitas daquele período, até e incluindo o notório "Os Protocolos dos Sábios de Sião", acusarem os judeus de tentar colocar suas mãos em terras visando tomar posse dos campos. Como dissemos, o antissemitismo é cheio de contradições.

Uma característica notória dos israelenses é que empregaram métodos ultramodernos para cultivar a terra, criando fazendas modelo e semelhantes. Então, se lutam, é precisamente para defender o território no qual se estabeleceram estavelmente. Isto, mais do que qualquer outro fator individual, é o que os antissemitas árabes nutrem contra eles, e o fato da meta principal deste segundo grupo ser a destruição do Estado de Israel.

Resumindo, o antissemita não gosta da idéia de um judeu viver mesmo que por um tempo em um país que não seja Israel. Se, entretanto, um judeu escolher viver em Israel, o antissemita também não gosta disso. É claro, eu estou ciente da objeção de que o lugar que atualmente é Israel ter sido antes o território palestino. Dito isso, ele não foi conquistado por meio de violência em grande escala e pela dizimação dos nativos, como ocorreu na América do Norte, ou pela destruição dos Estados governados por seus monarcas legítimos, como foi o caso na América do Sul, mas ao longo de lentas migrações e assentamentos que inicialmente não encontraram oposição.

De qualquer forma, apesar de algumas pessoas se irritarem quando aqueles que criticam as políticas israelenses são acusados de antissemitismo, aqueles que traduzem instantaneamente qualquer crítica às políticas israelenses em termos antissemíticos me deixam com um sentimento ainda maior de inquietação.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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