O inimigo da imprensa

Umberto Eco

Umberto Eco

Pode ser devido ao pessimismo que surge quando o indivíduo envelhece, ou talvez por causa da clareza de ideias que desenvolve-se com o passar do tempo, mas o fato é que eu senti uma certa mistura de hesitação e ceticismo quando a revista italiana "L'Espresso" me pediu para escrever uma coluna defendendo a liberdade de imprensa na Itália.

Quando é necessário que um indivíduo se pronuncie para defender a liberdade de imprensa, isto significa que a sociedade, e com ela a maior parte da imprensa, já encontra-se doente. Nas democracias fortes não existe necessidade de defender a liberdade de imprensa porque ninguém sonha em restringi-la.
  • Alessandro Bianchi/Reuters

    Umberto Eco pergunta ao povo italiano: "Quem permitiu a ascensão de Silvio Berlusconi?"



Esta é a primeira razão, dentre várias outras, para o meu ceticismo. O problema da Itália não é simplesmente o primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Desde o político romano Catilina, a nação arca com a sua cota de homens carismáticos e aventureiros que têm pouco respeito pelas necessidades do Estado, mas que encontram-se altamente sintonizados com os seus próprios interesses.

Subsequentemente eles criaram as suas estruturas pessoais de poder, pisando nos parlamentos, no judiciário e em constituições; distribuindo favores aos seus aliados e, ocasionalmente, às suas prostitutas; e conjugando os seus próprios prazeres com os interesses da comunidade. Esses homens nem sempre foram capazes de abocanhar todo o poder que desejavam porque a sociedade não deixou que eles fizessem tal coisa. Mas, quando eles conseguem isso, por que deveríamos responsabilizá-los, e não a sociedade que permitiu que eles agissem impunemente?

Sempre me recordarei de uma história que a minha mãe me contou: aos 20 anos de idade, ela conseguiu um emprego como secretária e estenógrafa de um membro da ala liberal do parlamento - e eu enfatizo o termo "liberal". No dia seguinte à ascensão do ditador italiano Benito Mussolini ao poder, o patrão dela lhe disse: "Do jeito que a situação se encontra na Itália, talvez esse homem encontre uma maneira de restaurar um pouco da ordem". Naquela época, quando o país estava à beira de uma crise, a atitude desse parlamentar liberal era comum. O fascismo não foi instaurado por Mussolini sozinho, mas pela complacência e negligência de homens como aquele parlamentar.

Portanto, não faz sentido concentrarmo-nos apenas em Berlusconi, que está apenas - digamos assim - tocando os seus negócios. Foi a maioria dos italianos que deixou de protestar contra os conflitos de interesses dos seus políticos; contra a presença de vigilantes patrulhando as ruas; contra a aprovação da lei Alfano, que efetivamente oferece imunidade legal aos ocupantes dos quatro mais importantes cargos políticos do país; e são os italianos que agora teriam aceitado de forma bastante calma - caso o presidente não tivesse manifestado estranheza - o amordaçamento da imprensa (por ora experimentalmente).

Se a Igreja Católica não tivesse sacudido a consciência pública com algumas palavras de prudente censura, a mesma nação teria aceitado sem hesitação, e até com uma certa cumplicidade dissimulada, as alegações de que Berlusconi contratou prostitutas. Mas isto logo será esquecido porque os italianos, e até mesmo os italianos cristãos praticantes, são conhecidos por às vezes fazerem o mesmo.

Então, por que dedicar uma coluna a esses fatos alarmantes? Ou por que um jornal gastaria tinta com eles? O artigo seria lido por aqueles que já estão convencidos dos riscos que eles representam para a democracia, mas que estão preparados para aceitá-los, contanto que continuem obtendo a sua dose diária de reality shows: as mesmas pessoas, em outras palavras, que basicamente sabem muito pouco sobre os escândalos político-sexuais porque Berlusconi controla a maioria dos canais de televisão italianos, de forma que tais escândalos não são sequer mencionados.

Portanto, por que se incomodar? O motivo é simples. Em 1931, o movimento fascista obrigou os professores universitários italianos, que à época eram 1.200, a prestar um juramento de lealdade ao regime. Somente 12 - ou 1% do total - se recusaram a prestar juramento e perderam os seus empregos. Alguns dizem que foram 14, mas essa polêmica simplesmente confirma que na época o episódio passou quase despercebido, de forma que as memórias são vagas.

Muitos outros, aconselhados pelo líder comunista Palmiro Togliatti, ou talvez pelo filósofo Benedetto Croce, prestaram o juramento de forma a poderem continuar lecionando, e, de fato, muitos se tornariam mais tarde eminentes anti-fascistas no período do pós-guerra. Talvez os 1.188 que continuaram estivessem certos em agir de tal forma devido aos seus diferentes motivos, todos eles respeitáveis. Mas aqueles 12 que recusaram-se salvaram a honra das universidades, e sem dúvida a honra do país.

É por isso que às vezes temos que dizer não, ainda quando essa atitude seja inútil. Pelo menos um dia as pessoas saberão que fizemos isso.

Tradução: UOL

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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