Umberto Eco: Um catálogo do curioso e do bizarro

Umberto Eco

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Em 1931, Mario Praz, um conhecedor de livros antigos, observou que os bibliófilos liam catálogos de livros raros da mesma maneira que outras pessoas leem livros de suspense.

"Você pode ter certeza de que nenhum outro tipo de literatura engendra uma ação tão rápida e emocionante quanto a leitura de um catálogo interessante", disse ele - e imediatamente sugeriu que até a leitura de um catálogo pouco interessante pode ser tão prazerosa quanto.

Embora estes últimos possam conter apenas edições menores de Dante, compilação de leis em latim, ou os trabalhos dos teólogos da Contra-Reforma, os entusiastas ficam empolgados com catálogos conhecidos no ramo como "Curiosos e Bizarros".

Essa categoria lista trabalhos de loucos literários, visionários e gênios que desapareceram das bibliografias - e com razão.
  • Reuters

    Umberto Eco: "Não posso resistir em pedir que o leitor se junte a mim para folhear o recente 'Livres Curieux et Bizarres', da Libraires Associes"



Há alguns anos comentei um desses catálogos, mas há sempre novos sendo lançados, especialmente na França.

Não posso resistir em pedir que o leitor se junte a mim para folhear o recente "Livres Curieux et Bizarres", da Libraires Associes. (E também para que se junte a mim num convite para escapar do pessimismo da imprensa.)

Entre as obras do catálogo há uma narrativa excessivamente séria a respeito de uma música sobre uma pomba, de autoria do Cardeal Bellarmino (sim, o inquisitor de Galileu); e outra sobre a localização do paraíso na terra, de acordo com o Bispo Huet. (Ao contrário da tradição, Huet coloca o paraíso não no Oriente Distante, mas em Basra - o que nos leva finalmente a entender a intenção do presidente George W. Bush em invadir o Iraque.)

Também encontro o trabalho de Pierro Sindico sobre a imobilidade da terra, de 1878. E descubro que Ricciotto Canudo, que eu conhecia apenas como um teórico do cinema - e que o definiu em 1911 como "a sétima arte" - também foi um herói de guerra com interesse na metafísica musical das civilizações.

Um sessão elegante cobre as línguas-mães da antiguidade, como as faladas por Adão (druídico, de acordo com John Cleland, 1776) e por Cam (basco, de acordo com Pedro Nada, 1885) e também línguas experimentais como "La Langue Bleue" ["A Língua Azul"] de Bollack, 1900.

O catálogo também oferece o "Sillabayre" de Jallais, 1923, com instruções para uma máquina de leitura; o Código Napoleônico escrito em versos por um anônimo, 1811; e a "Civilização Primitiva Redescoberta com Todos os Seus Registros no Paraíso Terreno no País do Éden ou Bretanha".

Eu ficaria tentado a ler "A Vida Sexual de Robinson Crusoé", por Michel Gall, 1977. (A primeira edição do livro foi banida.)

O catálogo também inclui uma antologia de sadomasoquismo (animada por ilustrações que não deixam nenhum trabalho para a imaginação); "De Sanctorum Martyrum Cruciatibus", por Antonious Gallonius, 1602, cujo pretexto pio é documentar os sofrimentos dos mártires.

Menos fiel às crônicas de santidade é o recente "Sex in Smurfenland", 1980; uma versão pornográfica dos Smurfs. (O texto está em holandês mas não é preciso se preocupar - as ilustrações são mais do que compreensíveis, conforme anuncia o catálogo.)

Um "L'Acte Bref" ["O Ato Breve"] de Dr. Brennus (1907) trata da incontinência espasmódica.

Dos trabalhos de Padre Sinistrari d'Ameno (um inquisitor do século 16), eu já conhecia "De la Demonaliete", sobre o encontro sexual entre mulheres e íncubos e súcubos. (Alguns bibliófilos acreditam que o texto é falso, escrito em 1875 por Isidore Lisieux.)

Agora vejo que Sinistrari foi também o autor de "De Sodomia Tractatus" (ainda citado em sites gays).

Finalmente encontro a tradução francesa de "Clelia", um livro de Giuseppe Garibaldi, escrito (como o próprio autor diz no prefácio) para comemorar os homens valorosos que morreram em batalha; para denunciar à juventude italiana "a depravação e as traições dos governos e padres"; e "para viver dos meus ganhos" com o livro.

Para aqueles que desejam expor ao ridículo a história de sua terra natal italiana, "Clelia" merece ser lido - pelo menos o mesmo tanto que "Claudia Particella, l'Amante del Cardinale" ("Claudia Particella, a Amante do Cardeal"), por um certo Benito Mussolini.

Tradução: Eloise De Vylder

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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