Umberto Eco: A sabedoria perdida dos três homens sábios

Umberto Eco

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Quase por acaso acabei testemunhando duas cenas parecidas recentemente: uma garota de 15 anos imersa num livro de reproduções de obras de arte, e dois garotos de 15 anos maravilhados durante uma visita ao Louvre. Os pais de todos os três são céticos, e os adolescentes foram criados em países seculares; essa falta de passado religioso afetou claramente sua capacidade de apreciar a arte que estavam vendo.

Os adolescentes conseguiam entender que os indivíduos miseráveis em "A Balsa da Medusa" de Theodore Gericault haviam acabado de sobreviver a um naufrágio. E eram capazes de reconhecer que os personagens retratados por Francesco Hayez em "O Beijo" eram amantes. Mas foi difícil para eles compreenderem porque Fra Angelico retratou uma garota conversando com um homem gay alado em "A Anunciação" ou porque em "Moisés Quebrando as Tábuas da Lei" de Rembrandt um homem que mais parece um maltrapilho, mas que tem raios de luz saindo de chifres em sua cabeça, está descendo a encosta de uma montanha carregando duas placas pesadas de pedra.

Algumas partes da cena da Natividade eram familiares para esses jovens porque eles haviam visto ícones similares no passado, mas quando três homens usando capas e coroas foram incluídos ao lado da manjedoura, os adolescentes não faziam ideia de quem eram esses homens ou porque estavam lá.

É impossível entender aproximadamente três quartos da arte ocidental se você não conhece os eventos do Velho e do Novo Testamentos e as histórias dos santos. Quem é aquela garota com os olhos num prato? Será que ela é algo que saiu da "Noite dos Mortos Vivos"? E aquele cavaleiro que está cortando uma peça de roupa pela metade está em campanha contra Armani?

Em muitos países, as crianças em idade escolar aprendem tudo sobre a morte de Heitor mas nada sobre São Sebastião, e talvez tudo sobre o casamento de Cadmo e Harmonia mas nada sobre o casamento de Caná. Em outros, eles enchem a cabeça dos alunos com as estações da via sacra enquanto não falam nada sobre "a mulher vestida de sol" que aparece no livro das Revelações.

As piores confusões normalmente acontecem quando os ocidentais (e não apenas os de 15 anos de idade) se deparam com ícones religiosos de outras culturas - o que hoje acontece cada vez com mais frequência à medida que eles viajam para países distantes e pessoas desses países se estabelecem no Ocidente. Não estou falando das reações intrigadas dos ocidentais quando se deparam com uma máscara africana ou quando riem ao ver um Buddha enormemente gordo. O fato é que muitos balançam a cabeça incrédulos quando ficam sabendo que os hindus veneram um deus com cabeça de elefante, mas não acham estranho retratar a divindade cristã como uma pomba.

Boa parte da confusão poderia ser evitada se as escolas oferecessem aos alunos informações básicas sobre os ensinamentos e tradições de várias religiões. Dizer que isso não é necessário é essencialmente o mesmo que dizer que não deveríamos ensinar as crianças sobre Zeus e Atena porque são apenas personagens de fábulas destinadas a pequenas senhoras da Grécia Antiga.

Limitar a educação religiosa ao ponto de vista de um único credo (por exemplo, como acontece aqui na Itália) é perigoso. Os alunos que são céticos (ou filhos de céticos) optam por não ter essas aulas e assim perdem a oportunidade de aprender pelo menos o mínimo de elementos culturais fundamentais. E normalmente qualquer menção útil de outras tradições religiosas é excluída dessas aulas.

Nas escolas públicas italianas, a hora semanal de educação religiosa opcional é conduzida por professores Católicos Romanos pagos pelo Estado. Ela poderia ser usada para realizar debates éticos sobre assuntos respeitáveis como nossos deveres para com as outras pessoas ou sobre a natureza da fé, ainda assim omitindo o tipo de informação que permitiria aos alunos discernirem a "Fornarina" de Rafael de uma penitente Maria Madalena.

Porque minha geração na Itália estudou muito sobre Homero e nada sobre o Pentateuco (os primeiros livros da Bíblia hebraica). No colegial, as aulas sobre história da arte são horríveis, e nas aulas de literatura eles nos ensinaram tudo sobre o poeta florentino Burchiello e nada sobre Shakespeare. Mas apesar disso nós nos viramos, porque as pessoas e a cultura permitiram que parte dessa informação chegasse até nós.

Dito isto, a situação dos três jovens de 15 anos de que eu falava, aqueles que não reconheciam os três homens sábios (três reis magos), sugere a meu ver que nossa vasta rede de informação transmite cada vez menos informações de fato úteis e cada vez mais informações totalmente inúteis.

Tradução: Eloise De Vylder

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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