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Anderson Baltar


Livro conta a saga dos destaques das escolas de samba cariocas

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Capa do livro "Vestidos para Brilhar" Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

2018-12-18T04:00:00

18/12/2018 04h00

Em meio ao espetáculo do desfile das escolas de samba, existe um personagem que tem um papel fundamental na trajetória de crescimento do espetáculo, mas, que, atualmente, não se encontra tão valorizado pela mídia e pela maioria das diretorias das escolas: o destaque.

Responsáveis por dar brilho aos carros alegóricos, estes componentes investem milhares de reais e meses de trabalho para preparar suas fantasias luxuosas. Com uma perspectiva histórica e trazendo análises sobre o papel dos destaques no desfile das escolas de samba, o jornalista João Gustavo Melo lança o livro "Vestidos para Brilhar: Uma Epopeia dos Destaques das Escolas de Samba do Rio de Janeiro" (Editora Rico).

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João Gustavo Melo, autor do livro "Vestidos para Brilhar" Imagem: Divulgação
Nascida de uma dissertação de mestrado no Instituto de Artes da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a obra conta fatos relevantes sobre grandes destaques do Carnaval carioca, como Olegária dos Anjos (do Império Serrano, tida como a pioneira), Isabel Valença (do Salgueiro, que uniu o luxo da avenida com os dos salões dos desfiles de fantasias) e Clóvis Bornay, dentre outros. O trabalho de João Gustavo é inédito no tema e foi lançado no Rio de Janeiro nesta segunda-feira (17). Em entrevista à coluna, o autor faz uma reflexão sobre o papel dos destaques nos desfiles das escolas de samba.

Anderson Baltar: O livro surge de sua dissertação de mestrado. Houve uma preocupação em torná-lo acessível ao grande público?
João Gustavo: Quando comecei a pesquisa, procurei contar um pouco da história das escolas do ponto de vista de um determinado grupo, que jamais havia sido retratado. O livro acaba tendo a pegada acadêmica, com embasamento teórico, mas ele também é uma trajetória, uma saga. Ficou no meio termo. O livro é bem mais fluido do que a dissertação, sem certos conceitos que são importantes para a academia, mas não para o grande público.

Você costuma afirmar que o destaque é o segmento mais invisível do desfile. O que você quer dizer com isso?
Eles são componentes das escolas, mas por várias questões eles não aparecem em determinados momentos-chaves da preparação para o Carnaval. Eles são vistos como pessoas que não vivem no corpo social da escola. Evidente que existem exceções, como o Carlos Reis (Portela), Iracema Pinto (Salgueiro) e Tania Índio do Brasil (Mangueira). Geralmente eles não estão presentes nas reuniões e festas das escolas. Muita gente não conhece as histórias dessas pessoas. O livro conta como o segmento se consolidou com o tempo e como acompanhou e influiu nas transformações das escolas de samba. As histórias mais contadas geralmente são de carnavalescos e compositores. Os destaques nunca tiveram oportunidade de contar as suas. 

Essa invisibilidade acaba se refletindo na avenida. Parece que o público não repara tanto nos destaques em meio a tantos efeitos especiais e pessoas de corpos esculturais. 
Os destaques acabam sendo vistos como pessoas frívolas, que gastam dinheiro à toa. Existe uma tensão por ser uma manifestação popular, mas que atrai pessoas que estão ali por vaidade mesmo. O destaque assume essa vaidade e, por disputar pelo seu lugar, são vistos como pessoas fora do universo da escola. E os meios de comunicação selecionam o que o público quer ver. Então, o destaque, que gastou 40 mil reais com sua roupa, aparece por poucos segundos na transmissão de TV, enquanto a mulher bonita que desfila na mesma alegoria aparece várias vezes na tela.

Os destaques tiveram um momento de brilho no Carnaval, com Isabel Valença, Clóvis Bornay e tantos outros. O que contribuiu para o fim desse período de ouro?
A Isabel, quando desfila em 1963, no Salgueiro, com "Chica da Silva", se torna o personagem do Carnaval. No ano seguinte, ela participa do concurso do Theatro Municipal e rompe a fronteira entre a avenida e as passarelas de concursos. Ela foi a mediadora deste processo. Ela vai no Municipal, ganha o concurso e faz os grandes artistas dos bailes invadirem as escolas de samba. No ano seguinte, eles passam a desfilar. Clóvis Bornay vira carnavalesco e figuras como Evandro de Castro Lima e Marlene Paiva passam a desfilar nas escolas. E os concurso de fantasias, transmitidos pela TV, foram fundamentais para que a figura do destaque se fixasse no imaginário popular e novos nomes surgissem. No início dos anos 2000, os concursos acabaram e a figura do destaque perdeu muito de sua mídia. 

A dinâmica do desfile das escolas de samba, muito focada na redução do tempo e no gigantismo dos carros, não teria contribuído para o enfraquecimento do destaque?
Muitos carnavalescos têm um certo pé atrás com a dinâmica do destaque. As fantasias são muito grandes e o espaço do destaque não é bem planejado. O destaque não vale ponto, mas se ele estiver inadequado, tira ponto no quesito alegoria. A roupa pode ser maravilhosa, mas se esconder uma escultura, a escola pode ser penalizada, assim como quando um resplendor quebra. Por outro lado, nos últimos anos, os carnavalescos também têm apostado muito na rápida comunicação e preferido destaques mais realistas, representando um personagem do enredo. Isso acaba tirando o foco das fantasias de luxo. 

Você vê algum caminho para que os destaques voltem a ter seu papel reconhecido no Carnaval?
Não tem acontecido renovação. Não basta querer desfilar, mas ter dinheiro para investir, no mínimo, 30, 40 mil reais. É um trabalho de longo prazo, com roupas feitas por cinco, seis meses. E é muito sacrificante desfilar. Geralmente, um destaque precisa de pelo menos três pessoas para ajuda-lo a se vestir, subir e descer dos carros e algumas agremiações não dão número de camisas suficientes para os ajudantes. A falta de renovação é tamanha que há uma pequena parte de destaques atualmente vindo do exterior, da Argentina e da Europa. É fundamental que os destaques sejam vistos com mais carinho e sensibilidade pelos dirigentes.