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Anderson Baltar


CD das escolas cariocas tem bons sambas, Gonzaguinha e a volta da reedição

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Capa do CD "Sambas de Enredo 2019" do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro Imagem: Reprodução
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

2019-01-08T04:00:00

08/01/2019 04h00

Passadas as festas de fim de ano, o interesse do público se volta para o Carnaval. E, obviamente, para um dos principais símbolos da folia: os sambas-enredos das escolas cariocas. À venda nas principais lojas e plataformas digitais, o CD do Grupo Especial do Rio de Janeiro aposta em uma safra com propostas bastante diversificadas, mas que não deixa de confirmar o viés de subida de qualidade dos hinos das agremiações na última década. 

De início, o álbum é marcado pela primeira tentativa de adaptação de uma música do repertório da MPB para samba-enredo. O tradicional Império Serrano, sob muitas críticas, resolveu transformar "O que É o que É?", clássico de Gonzaguinha, em seu samba para o Carnaval 2019. A decisão, que desagradou a ala de compositores da escola, notabilizada pela alta qualidade de suas obras, mostra-se controvertida até agora. Aposta para conquistar o grande público, a música imperiana ainda não soa como samba-enredo no álbum. Com versos de métrica pouco adaptável ao gênero, ainda não convenceu.

O CD também traz o retorno da reedição. Surgida no Carnaval de 2004, virou prática na década passada, quando algumas escolas resolveram repetir sambas antigos em seus desfiles. Dez anos depois da última reedição (Império Serrano, "A Lenda das Sereias"), a São Clemente aposta na força do seu samba de 1990. "E o Samba Sambou", criticando os rumos hollywoodianos dos desfiles carnavalescos, ainda soa atual e tem motivado os componentes da amarela e preta de Botafogo. No CD, ressente-se do excesso de cantores: Leozinho Nunes e Bruno Ribas ainda não mostram o entrosamento necessário e a presença da cantora Larissa Luz, notabilizada pelo musical em homenagem a Elza Soares, torna-se incompreensível e gratuita.

Dentre os sambas inéditos, Mangueira, Portela, Salgueiro, Unidos da Tijuca e Mocidade Independente de Padre Miguel são os destaques. A verde e rosa promete um desfile de muita emoção com um samba de estrutura diferenciada, sem refrão do meio e com uma citação à vereadora Marielle Franco, morta em março do ano passado. Homenageando Clara Nunes, a Portela tem um samba arrebatador e que já emociona torcedores de todas as escolas. O Salgueiro apresenta uma homenagem ao orixá Xangô com um hino de melodia guerreira e refrão grudento. Sua vizinha, Unidos da Tijuca, emociona com um samba de estilo messiânico sobre a importância do pão para a humanidade. Já a escola de Padre Miguel conseguiu, de forma lírica, descrever um enredo árido (a relação do homem com o tempo). 

Grande sensação do Carnaval 2018, o Paraíso do Tuiuti mostra um samba bem-humorado sobre a história do Bode Ioiô, que, segundo a lenda, teria sido eleito vereador em Fortaleza no início do século passado. Porém, na comparação direta com a obra do ano passado, a escola de São Cristóvão fica em desvantagem. De volta ao Grupo Especial, a Unidos do Viradouro tem um samba vigoroso para embalar o desfile que marcará a volta de Paulo Barros à agremiação. A atual campeã, Beija-Flor, exaltará os seus 70 anos de existência, mas deixa a desejar com uma melodia confusa, fruto de uma fusão entre os dois finalistas, anunciada dias após a final de samba.

A Unidos de Vila Isabel, que contará na avenida a história da cidade de Petrópolis, na serra fluminense, tem um samba de bom refrão, mas que sofreu muitas alterações em relação ao original e não conquista na primeira audição. A Grande Rio se desculpa pela virada de mesa no último Carnaval com um samba irreverente. Muitos foliões ainda não aceitaram o pedido de perdão, o que será um dificultador para a escola de Duque de Caxias. 

Notabilizadas pelo histórico de grandes sambas, União da Ilha e Imperatriz decepcionam. Homenageando o Ceará, a tricolor da Ilha do Governador chega com um samba de melodia longa e cansativa e que, definitivamente, não empolga, apesar dos esforços do ótimo intérprete Ito Melodia. Já a escola de Ramos traz um samba descartável, com melodia e letra pobres, numa tentativa de passar irreverência com seu enredo sobre o dinheiro.