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Anderson Baltar


Carnavalesco da Mangueira: "Quem não sabe história tende a repetir erros"

Bruna Prado/UOL
Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira Imagem: Bruna Prado/UOL
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

2019-01-24T04:00:00

24/01/2019 04h00

Desde que estreou no Carnaval, comandando o barracão campeão da Mangueira em 2016, Leandro Vieira saiu, como um raio, da condição de revelação para a de um dos principais formadores de opinião do segmento. Sempre articulado, tornou-se presença constante em debates em universidades e, pelas redes sociais, não se furta a dar sua opinião sobre o contexto político e social do país.

Para 2019, Leandro prepara um desfile que está sendo encarado, desde já, como um dos momentos mais aguardados do Carnaval (veja a programação do Rio de Janeiro). O enredo é "História para ninar gente grande", baseado em personagens comprometidos com a luta pela liberdade, mas que pouco são lembrados nos livros escolares.

Após a escolha do samba da agremiação, em outubro, a verde e rosa ficou mais ainda sob os holofotes. Afinal, o hino incluiu a vereadora Marielle Franco, assassinada em março do ano passado, dentre o rol de homenageados. Sucesso incontestável, o samba já reverbera pelas ruas do Rio de Janeiro.

Em entrevista exclusiva para a coluna, o carnavalesco faz um apanhado de todo o contexto que lhe inspirou a criar o enredo e faz uma reflexão sobre o momento das escolas de samba. 

UOL - Você e a Mangueira continuam na trilha de enredos politizados, mas o Brasil de hoje não é mais o mesmo do que do ano passado. Como você se sente como artista?

Leandro Vieira - Eu acho que o Brasil de 2018 é o mesmo de 2019. No ano passado, já existiam indícios claros de que caminharíamos para o que vivemos hoje, com o avanço de um pensamento conservador que nega o protagonismo das atividades populares. Na verdade, a escalada desse pensamento já vinha acontecendo desde o golpe de 2016 e se perpetua. É do meu interesse, como artista, reverberar isso, porque vejo o desfile como manifestação cultural e artística. Tenho o entendimento que meu trabalho é uma esponja disso. A Mangueira que eu faço tem esse viés desde 2016. A partir do momento em que o Carnaval passou a valorizar aspectos internacionais, meus enredos sempre priorizaram a cultura nacional. É uma opção política, não partidária. 

A nova conjuntura política te preocupa?

O que eu defendo é apartidário. Defender mulheres, negros, índios e a cultura popular é uma agenda comum a todos. Se alguém é contra, essa pessoa é quem tem o problema. Apresentar o protagonismo popular é apartidário. Mas tem gente por aí que acha que isso é comunismo.

O que motivou esse enredo?

Os enredos dos dois últimos anos surgiram de estalo, motivados pelo momento. Esse surgiu por causa do projeto Escola Sem Partido. Para mim, esclarecer o cidadão e permitir o pensamento crítico, é algo sem partido. Quando começou essa discussão, vi que a história que vem sendo ensinada é a história que nina gente grande -daí o nome do enredo. A que dá o protagonismo apenas a um lado e que impossibilita que o povo desenvolva uma forma de reflexão que lhe permita entender que ele também é ator da história. Foi essa lógica que norteou o meu enredo. A escola de samba possibilitando a reflexão de uma narrativa que querem impedir que seja ensinada na escola fundamental.

Facebook/Reprodução
Leandro Vieira e a cantora Alcione Imagem: Facebook/Reprodução
Qual foi o critério para a escolha dos personagens do enredo?

Eu busco ter o entendimento da comunidade que represento. E eu falo por uma comunidade majoritariamente negra, pobre e herdeira de toda a exclusão de séculos. Herdeiros de negros, índios, nordestinos, filhos de mãe solteira, mães de filhos assassinados, homens assassinados por seus ideais... Desta forma, resolvi escolher personagens que dão representatividade a isso. Resolvi trazer mulheres negras para o enredo, assim como indígenas. Se o Brasil tem dívida com o negro, também a tem com o índio, por todo o massacre cultural e simbólico que esses povos sofreram. Então, temos mulheres negras como Luiza Mahin, Dandara, Teresa de Benguela... Assim como Sepé Tiaraju, Cunhambebe, a denúncia do massacre indígena, a luta dos cariris...

Marielle Franco não estava na sinopse, mas os compositores a incluíram no samba. Como você se sentiu ao ouvir o samba pela primeira vez?

O bom compositor é um sopro de vida no potencial de um carnavalesco sensível. Eu não gosto de determinar o que o compositor tem que fazer. Dou toda liberdade ao artista. Os compositores desse samba entenderam, além do escrito, o dito. De entender que o povo que não conhece a história tem a tendência de repetir os erros. Eles entenderam a representatividade da Marielle e a colocaram como algo que atualiza o enredo. Ela foi silenciada pelos mesmos motivos que levaram à morte Dandara, Zumbi dos Palmares, Sepé Tiaraju, os malês, os índios cariris... Essa sacada foi maravilhosa. Se descortinaram várias possibilidades artísticas em minha cabeça. E foi por causa da Marielle que os heróis da comunidade mangueirense são exaltados. A Marielle do enredo é a mulher negra, favelada, que ingressou numa universidade, se formou e foi eleita vereadora. Isso é o que essa comunidade precisa, saber que pode sobrepor os degraus que a sociedade impõe.

A pouco mais de um mês para o Carnaval, o samba já mexe com a cidade. Você consegue avaliar que o desfile pode vir a ser um momento de desabafo para muita gente?

Não penso nisso. A minha única pretensão é me realizar artisticamente. O que vier é consequência.

Como está sendo tocar o trabalho com os cortes de verbas?

Quando surgi no Carnaval, já peguei a época de vacas magras. Quem conheceu a fartura deve estar tendo mais dificuldades. Não me dou ao direito de me queixar do Carnaval ruim, porque sei que só sou carnavalesco da Mangueira por conta da crise de identidade que o Carnaval vive. Estou aqui desde 2016 porque a crise financeira fez que um dirigente quisesse investir em alguém barato. Dessa forma, procuro soluções artísticas para fazer Carnaval. O desfile é maior do que qualquer questão financeira. Maior ainda é a crise de identidade das escolas de samba. O Carnaval em si vai bem, obrigado. E digo mais: a Mangueira está incólume a essa crise. Nos últimos quatro anos, ela só tem reforçado os valores fundamentais das escolas de samba. A pouco mais de um mês do desfile, temos nosso samba cantado espontaneamente nas principais rodas de samba da cidade. Isso é a reafirmação de nossos valores. Estamos mal de grana, mas estamos numa grande fase na pertinência do que ela canta e de suplantar os limites que o Carnaval não passa. 

Você me disse no ano passado que as escolas estão divorciadas do povo. A Mangueira está flertando?

A Mangueira está dando "selinho", pelo menos. Ela está "na pista", se relacionando. E acho isso ótimo.