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Anderson Baltar


Falando de política com humor, Tuiuti quer repetir o sucesso de 2018

Ewerton Pereira/Divulgação
Jack Vasconcelos, carnavalesco da Paraíso do Tuiuti Imagem: Ewerton Pereira/Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

2019-02-05T04:00:00

05/02/2019 04h00

Após o Carnaval de 2018, todo o país falou de uma escola de samba até então pouco conhecida do público. A Paraíso do Tuiuti, com um desfile sobre os 130 anos da Lei Áurea, reposicionou o desfile das escolas de samba na agenda política do país. Com diversas críticas à reforma trabalhista e ao então presidente Michel Temer, representado como um vampiro, a azul e amarela arrebatou público e crítica e conquistou um festejado vice-campeonato.

Para 2019, o carnavalesco Jack Vasconcelos segue pela trilha política. Enfocando um personagem inusitado, o bode Ioiô, pretende, mais uma vez, levar para a Sapucaí um retrato do momento político do país. Por meio da trajetória de um animal que flanava pela Fortaleza do início do século passado e, segundo a lenda, teve expressiva votação para vereador, a Tuiuti promete mais um desfile polêmico.

Em entrevista exclusiva, Jack conta os detalhes do que a escola apresentará na segunda-feira de Carnaval (confira a programação dos desfiles do Rio).

UOL - Quando lançou o enredo, você afirmou que quem ficou incomodado com o Carnaval de 2018 ficaria ainda mais com o próximo desfile. Porém, agora temos um governo de extrema direita no poder. Você teme que a sua mensagem não seja bem entendida?

Jack Vasconcelos - Medo é uma palavra um pouco pesada. Estou cauteloso. Estou esperando para ver como estará o clima na época do Carnaval. Como o enredo lança mão do humor, não é tão direto, isso me dá uma certa tranquilidade, porque há uma liberdade poética. O bode Ioiô é uma metáfora, e o enredo é uma fábula, uma coisa mais sutil, mais nas entrelinhas. E justamente por meio do humor que as pessoas captam melhor as mensagens, porque nos dá a leveza necessária para que as pessoas reflitam. O enredo tem uma mensagem otimista.

A Tuiuti será a escola mais aguardada do Carnaval. Como você lida com essa expectativa e a possível cobrança para que mais surpresas surjam?

Estou indo de peito aberto, porque esse Carnaval não é a continuação do ano passado. Quem pensar isso, vai se decepcionar completamente. Nunca foi a proposta, desde o início. Sempre procuro evitar as comparações entre meus projetos. Todos os desfiles que fiz para a Tuiuti, desde 2015, têm uma coerência de mensagens, mas cada trabalho tem sua identidade. Comparar a Tuiuti da escravidão com a da Ioiô é uma crueldade. A expectativa é natural que aconteça. Eu ficaria triste se não existisse (risos).

Existe a expectativa de ser campeão?

Eu acho que o sucesso de um projeto não se resume à classificação oficial, até porque, em muitas vezes, a gente não concorda com ela. O sucesso é manter a Tuiuti no foco, na atenção do público, na pauta de discussões. É mostrar que o que aconteceu ano passado não foi um acidente. Se existe uma busca em relação a resultado, da minha parte, é essa. Não coloco o campeonato ou outro vice como objetivo. Não que eu não queira ser campeão (risos).

Como você sentiu a repercussão do trabalho?

Tivemos a honra de o "vampirão" (o destaque que representou o ex-presidente Temer) ter virado charge no mundo inteiro. Até uma capa de caderno do Le Monde usou o vampiro para representar o neoliberalismo. Então, quando eu desenhava o destaque, não foi com o objetivo de causar. Para mim, era apenas um elemento do desfile, um personagem totalmente carnavalesco. Não escondemos de ninguém. Quem entrasse aqui e me visse desenhando, via o vampiro. Involuntariamente, acabamos contribuindo para o imaginário das charges e é uma imagem que ficou na história do Carnaval e da política brasileira. E, na verdade, a fantasia nunca foi criada pensando na pessoa do presidente e, sim, no conceito do que ele representa, na questão da retirada dos direitos trabalhistas. O Temer não era o vampiro, e sim o que ele defendia.

Muitas pessoas não gostaram e levaram para o lado pessoal.

Foi punk. Sofri ameaça em rede social, teve gente descobrindo meu telefone. Mantive minhas redes sociais bloqueadas por muito tempo. Hoje acalmou.

Mauro Pimentel/AFP
Presidente Michel Temer virou "vampiro neoliberal" em desfile crítico da Paraíso de Tuiuti Imagem: Mauro Pimentel/AFP

Geralmente os dirigentes do Carnaval têm um perfil adesista. Como a diretoria da Tuiuti encarou o enredo do ano passado? Eles compraram sua ideia desde o início?

O presidente me dá uma boa liberdade de criação. Algumas coisas mais delicadas são discutidas, mas o lance do destaque ganhou importância dentro da escola depois que vazou, antes do Carnaval, que ele estaria no desfile. Não houve, em nenhum momento, o presidente falar que "não quero". Natural que algumas pessoas tiveram medo ou foram contra, mas foram posições particulares.

De onde surgiu a ideia do enredo sobre o bode Ioiô?

Há alguns anos, o jornalista e enredista João Gustavo Melo me mandou um texto sobre o bode e eu achei bem interessante. Mas não cogitei fazer o enredo na época, porque eu achei que era meio que dele, até pelo Gustavo ser cearense. E também tinha acabado de fazer um enredo sobre a história do Boi Mansinho, que levou a escola ao Especial. Essa ideia ficou guardada. E quando o presidente me pediu um enredo sobre o Nordeste, me lembrei na hora. Como estávamos em ano de eleição, achei que seria interessante. Sabia que ia dar bode na eleição. Só não imaginava que seria tão grande.

Qual foi o recorte que você encontrou para contar a história?

Pensei numa forma diferente de contar essa história. Não iria contar simplesmente um causo. Eu acredito muito que o sucesso de um enredo está na narrativa. Já foi o tempo da escola de samba ser luxuosa ou de vanguarda. Hoje é o momento do poder da narrativa. A forma que você conta a história faz a atenção do grande público ser aguçada. O bode Ioiô é um personagem de origem humilde, que venceu as dificuldades da vida, ganhou o apoio popular e acabou virando um líder, mesmo sem querer. Afinal, ele apenas era um bode (risos). Mas no que ele se transforma, ao longo da história, é um excelente exemplo de como o sucesso dos humildes é mal visto e incomoda uma parcela da população.

Mas o bode não termina preso.

Ele foi empalhado (risos). Está até hoje no museu do Ceará.

Como é planejar um Carnaval em meio a tanta indefinição sobre dinheiro?

Nossa luta é manter o projeto o mais fiel ao planejado. A gente sabe que será difícil. Mas como a escola e grande parte da equipe têm experiência de Grupo de Acesso, o processo flui com mais tranquilidade, substituindo materiais e buscando baixar o custo. Se não tivermos mais nenhuma surpresa desagradável, terminaremos o Carnaval de forma até tranquila.

Seu desfile do ano passado recolocou o Carnaval na pauta nacional. Como você vê a situação da folia perante à opinião pública?

Quem comanda a festa tem que olhar com mais carinho as sugestões que os analistas e apaixonados dão. Há varias saídas possíveis para recuperar os patrocínios, mas também recuperar a entrada que as escolas têm nas casas. As pessoas não estão mais interessadas como antes. No meio disso tudo, a Tuiuti é uma escola que é exceção à regra. Estamos em um momento de muita procura e interesse. Mas o quadro geral é de muita dificuldade, de fuga de patrocinadores, poucas pessoas interessadas em comprar fantasias. A crise é ampla, e as escolas precisam ficar atentas. Não dá para minimizar os sinais. É muito perigoso. As escolas precisam encarar esse momento e se reformular. Se isso acontecer e o Carnaval sair da zona de conforto, todos os problemas que estamos passando hoje em dia terão valido a pena.